C A N A I S



Cavalos & Cavaleiros
Far Out Forest – Ocala – Flórida
14 de fevereiro de 2004

por Daniel Grande

Mais uma semana começou no Cypress Trails (Cypress Trails Equestrian Center, de propriedade da endurista norte-americana Darolyn Butler-Dial e de seu marido, Mark Dial, localizado em Humble, Texas, a 20 minutos do centro de Houston), porém era uma semana atípica, pois estávamos nos pré-parando para a nossa tão esperada prova de 160 km, a Far Out Forest, em Ocala, na Flórida, que seria no Sábado, 14 de fevereiro.

Na segunda-feira, 9 de fevereiro, preparamos o caminhão, chamado de Ciganinho devido a sua aparência um tanto quanto exótica, porque no dia seguinte (10.02), parti-ríamos para Ocala, na Flórida, local onde participaríamos de nossa primeira prova de 160 km.

Saímos ao meio-dia do dia 10 de fevereiro. Ao todo, éramos quatro: eu, meu irmão Ma-theus, Darolyn e sua filha Cecília (Cici). Viajamos até às 23 horas e paramos em uma á-rea de descanso para ali pernoitar.

Na quarta-feira, 11, seguimos cedo e por volta das 16 horas chegamos a uma reserva florestal, próxima à cidade de Ocala, no centro da Flórida. O local é lindo, com uma densa floresta com verde marcante e uma enorme variedade de animais selvagens.

Estacionamos o Ciganinho no local do evento, um simples rancho no meio da relva, e logo recebemos as instruções básicas sobre o local. “Não deixem comida para fora do trailer, pois os ursos vêm atrás do cheiro”.

Opa, urso! Quando falei em animais selvagens, pensava em cervos, raposas ou algo do tipo, mas agora essa era a nossa nova realidade, realmente animais selvagens incluindo lobos e jacarés. Não sabíamos até que ponto a história era verdadeira, duvidávamos até, porém não deixamos o pensamento invadir nossas mentes (minha e do Matheus) e apenas pensávamos e fazíamos o que era necessário para o bem estar dos nossos cavalos, e do nosso, claro! Foi pensando dessa forma que, ao chegar a noite, fomos até a cidade, que ficava a uns 30 minutos de carro, para jantar.

Ao sairmos pelas estradinhas da reserva, que estavam completamente escuras, começamos e nos dar conta do nosso real cenário, mas nada melhor do que uma boa música para relaxar e desviar os pensamentos, como de fato ocorreu. Um outro fato nos fez retornar àquele cenário: um grande animal cruzou a frente da caminhonete a uns 200 metros de distância e a dona do rancho, que a dirigia, assegurou que era um urso.

Não posso negar que isso intrigou meu coração, assim como de meu irmão, que em meio a olhares pudemos sentir um certo medo no ar. Chegamos a conversar a respeito e resolvemos pensar apenas: Ah, esses ursos só comem frutas, no máximo, coelhos.

No dia seguinte (quinta, 12), acordamos cedo e fomos fazer o reconhecimento do último anel, que talvez viéssemos a fazer a noite. Eu acreditava que antes do anoitecer já estaríamos de banho tomado, ligando para o Brasil e comemorando nossa participação uma vez que a largada seria às 4 horas da manhã e teríamos todo o dia para completar os 160 km de trilha.

Momentos após chegarmos do reconhecimento fomos questionados à respeito do horário da largada, pois queriam antecipar para as duas horas, ou quem sabe à meia noite de sexta para sábado, por causa de uma tempestade que viria do oeste e chegaria no final da tarde de sábado. Como não tinha opinião formada a respeito da largada, não optei, aliás, não estava querendo nem pensar nos detalhes até então expostos, deixando tudo nas mãos de Deus.

Neste mesmo dia, meu cavalo, DJB Abednigos Flame, chamado por todos de Benny, apresentou um problema na musculatura da diagonal direita, algo que naquela altura do campeonato poderia significar eliminação na prova. Nesse mo-mento, entreguei tudo nas mãos de Deus, pois me vi completamente desarmado em uma guerra que parecia ser longa e feia.

Baseado em um versículo bíblico que diz: “O cavalo prepara-se para a batalha, mas a vitória vem do Senhor”, usei a sexta-feira (dia anterior da prova) para preparar tudo, inclusive a musculatura de Benny que se encontrava um pouco “meio boca”.

Tentei algumas massagens, mas não sabia exatamente como fazê-las. Do nada, aliás, creio que do céu, apareceu um sujeito estranho chamado Mike que era massagista de cavalos e me ensinou uma maneira de tentar aliviar a tensão, além de me advertir que era um problema que poderia facilmente se agravar, o que me tiraria de uma das provas mais importantes da minha vida.

Às 7 horas da noite, com tudo pronto, nos reunimos para um jantar comunitário e para uma rápida explicação da prova, até que informaram o horário da largada: duas horas da manhã. Nesse momento, um frio envolveu meu estômago. Eu e meu irmão nos olhamos com uma cara de “e agora? Serão pelo menos quatro a cinco horas no escuro”. Estávamos bem, apenas com uma certa ansiedade gerada pelas novas situações.

Após o briefing, fui conversar com uma amiga, Valerie Kanavy, que tem em seu currículo dois títulos mundiais e, sem dúvida alguma, é uma das melhores enduristas do mundo. Perguntei sua opinião sobre o horário da largada e ela me respondeu que achava ótimo, pois todas as vezes que fizera essa prova, havia terminado tarde da noite e me disse ainda: “Pode parecer uma prova fácil pelo relevo aparentemente plano, mas cuidado, pois exige muito do cavalo e de seu cavaleiro”.

Estava tudo pronto e apesar de ter todos os motivos do mundo para estar preocupado, encontrava-me bastante calmo. Cheguei a pensar se não seria arrogância de minha parte. Logo tirei esse pensamento de minha mente, pois havia pedido a Deus calma e tranqüilidade e Ele, fiel como é, estava ali me confortando frente a um cenário selvagem, com um cavalo semimanco, com pretensões de andar 160 km em um solo de areia fofa e profunda, o que para muitos especialistas é impossível, mas para Deus nada é impossível. Com essa certeza, entreguei tudo nas mãos dele e me acalmei.

Dormimos apenas duas horas. Afinal, nossa largada seria às duas horas da manhã. Eu e Matheus acordamos eufóricos e cheios de adrenalina, que não nos fez sentir o frio daquela noite escura. Selamos nossos cavalos e começamos a aquece-los para o grande dia. Oramos juntos e dissemos um para o outro o que nosso querido pai sempre nos diz antes de iniciarmos uma prova: que Deus te acompanhe e te guarde!

Largamos e a baixa neblina, em meio àquela escuridão, não permitia que as lanternas iluminassem o caminho, de modo que os galhos das árvores atingiam nossos rostos, ferindo-nos levemente. Por muitas vezes, senti a mão de Deus tirando grandes galhos da minha frente, pois sem saber o por quê, algumas vezes Benny desviou seu caminho, não permitindo que minha cabeça colidisse com os galhos, o que poderia causar um acidente. Senti claramente mais uma vez o Senhor no controle, me guiando, aliás, guiando meu cavalo.

Fizemos os primeiros 48 km totalmente no escuro em 4h40min. Ao chegarmos no primeiro vet check, todos de nossa equipe, juntos até então, passaram sem problemas. Apenas meu cavalo apresentou um trote estranho, fazendo com que os veterinários retivessem minha ficha, para reapresenta-lo meia hora mais tarde.

Foram minutos de conflito em minha mente, pois não sabia qual era a vontade de Deus. Sabia somente que eu desejava muito continuar a prova e fiz uma oração: Pai, Tu tens o melhor para mim e se for para meu cavalo mancar, louvado seja Teu nome. Confesso que não é fácil orar quando se está na situação que me encontrava, mas logo a seguir, uma imensa paz invadiu meu peito e confortou meu coração.

Trotei meu cavalo na reapresentação e ele foi aprovado. Meu coração explodiu de felicidade e agradeci ao Senhor por poder fazer mais um anel.

Na metade do segundo anel, conversando com meu irmão Mateus (até então estávamos jun-tos na prova), ele decidiu diminuir seu ritmo, o que me fez continuar a minha sem a sua companhia.

Ao completar o segundo anel, Benny recuperou logo os bati-mentos e fomos para o vet check. E no trote, mais uma vez parecia estranho e eu deveria voltar nos próximos 30 minutos para tirar a dúvida. Já experiente, fiz a oração do primeiro vet e comecei a mas-sageá-lo. Tal técnica, afinal, me fora ensinada por uma pessoa que acredito ter sido enviada por Deus, pois não o vi mais. Reapresentei meu cavalo que surpreendeu a todos os veterinários: ele estava muito melhor. Agradeci novamente e larguei para mais um anel.

Nos vet checks seguintes, correu tudo bem. A cada quilômetro percorrido, meu cavalo melhorava, graças às massagens e algumas noções de equitação que utilizei para aliviar os músculos comprometidos que aos poucos iam melhorando.

O tempo foi passando e estava pronto para largar para o último anel, já anoitecendo e em terceiro lugar na prova, com grandes possibilidades de vitória. Como vinha fazendo, entreguei tudo nas mãos do Senhor, pois sabia que por mim mesmo nada era possível.

Larguei junto com minha amiga e companheira de equipe, Darolyn, e outra endurista, enquanto o frio se somava à escuridão e à chuva que havia começado no início da tarde, não dando tréguas até o momento e lembrando que meu irmão, Matheus, estava sozinho na trilha, aproximadamente uma hora atrás de mim, o que significava que terminaria o penúltimo anel no escuro, prosseguindo completamente só os derradeiros 16 km da prova. Ciente de sua situação, larguei para o meu final de prova com uma estranha mistura de sentimentos: ansiedade, medo, excitação e angústia.

Empolgado com o fato de estar disputando uma importante prova, tendo superado os problemas musculares de Benny, larguei rápido, deixando a endurista para trás, e segui em busca da vitória. Nesse momento, chorei angustiado pelo que meu irmão deveria passar: uma trilha verdadeiramente assustadora à noite. Confesso que estava com medo por ele, pois havia me perdido algumas vezes e pensava no que estaria sentindo, sabendo que estaria completamente só.

Não ia ser fácil e foi então que orei por ele. Aquilo que estávamos passando era muito perigoso, pelos ursos e lobos e várias milhas de matas para se perder, no escuro e sob forte chuva, neblina e uma trilha sem marcação luminosa, somada ao cansaço de 145 quilômetros já percorridos e ainda à situação de estar só.

Em meio a esse conflito de sentimentos e situações fui tocando minha prova com Benny, em meio àquela escura e chuvosa noite e em busca dos primeiro colocados que estavam próximos. Neste momento, escuto um grito e ao me voltar para ver o que era, embora estivesse muito escuro, percebi que algo acontecera a Darolyn.

Parei, corri em sua direção e a encontrei caída ao lado de sua égua. Ambas sofreram um tombo muito feio. Terminara ali nossa busca pelo primeiro e segundo lugar. Darolyn reclamava de muita dor, mas tínhamos que continuar. Afinal faltavam apenas 10 quilômetros. Ajudei-a montar e prosseguimos mais lentos. Nesse instante me veio à mente a possibilidade de o mesmo acontecer ao meu irmão. Angústia, esse era o meu sentimento.

Andamos, Darolyn e eu, mais uns dois quilômetros quando vi na mata, aproximadamente a uns cinco metros, um grande vulto preto. Não tive a menor vontade de me voltar para checar se era ou não um urso. Simplesmente tratei de sair o mais rápido possível. Nessa hora, meu coração apertou tanto que tudo o que queria era acabar logo a prova e voltar para buscar meu irmão dentro daquela floresta. Eram tantos os pensamentos e a vontade de gritar: basta. que, em meio ao desespero, voltei a orar pedindo paz.

Terminei a prova em terceiro lugar com Benny em perfeito estado. Como não tinha ninguém à minha espera, não pude compartilhar mi-nha felicidade e angústia. Comple-tara o que mais queria, uma prova de 160 km e agradeci a Deus por ter conseguido, mas meu irmão ainda estava na trilha e a vontade de vê-lo era imensa.

Sentado no trailer, sozinho, com fome, diante de um relógio que demorava a girar seus ponteiros, en-rolado em uma capa de cavalo, en-tre cansaço e preocupação por não ter como retornar à trilha restou-me esperar quase hora e meia até enfim decidir ir atrás dele a pé.

Grande e doce surpresa foi quando, ao sair do trailer e caminhar em direção à chegada, vejo Matheus terminando bem aquela magnífica e tempestuosa prova. Foi duplo o alívio sentido por nós naquele momento: ele por terminar bem a prova e eu por vê-lo terminando em quinto lugar.

Abraçamo-nos fortemente e na comemoração das vitórias conquistadas com garra e determinação, estavam implícitas e revividas todas as emoções pelas quais passamos de maneiras tão intensa e prazerosamente agraciadas através da alegria presente naquele momento.

Agradeço a Deus pelo que Ele fez, pelo que Ele faz e ainda pelo que fará.

(Daniel Grande e Benny completaram a Far Out Forest em 13h35min)

Ride History for Daniel Grande (AERC#:M32861)

Ride Summary

season
LD
miles
miles
rides
completions
overall
points
division
points
2004
0
255
4
4
577
715
recorded
0
255
4
4

Ride History2004 Season

01/15/2004
55 miles
28th place
time: 05:51:00
Ride points:
div: 55
ov: 55
Season points:
div: 55
ov: 55
Season miles:
55

01/16/2004
50 miles
5th place
time: 04:01:00
Ride points:
div: 150
ov: 85
Season points:
div: 205
ov: 140
Season miles:
105

01/17/2004
50 miles
1th place
time: 04:12:00
Ride points:
div: 150
ov: 137.5
Season points:
div: 355
ov: 277
Season miles:
155

02/14/2004
100 miles
3th place
time: 13:35:00
Ride points:
div: 360
ov: 300
Season points:
div: 715 ov: 577
Season miles:
255

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