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Cavalos & Cavaleiros
Luiz Alberto, um brasileiro das arábias
National Day Cup

Entusiasmado com a história de Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva (48), único endurista cego confederado do mundo, publicada na revista Endurance World, sua alteza Sheikh Mansoor bin Zayed Al Nahyan, presidente da Emirates International Endurance Village, localizada em Al Wathba Stabes, do Clube Eqüestre de Abu Dhabi, e um dos filhos de sua alteza Sheik Zayed bin Sultan Al Nahyan, presidente dos Emirados Árabes Unidos, o convidou no início de 2003 a participar, com seu cavalo Rações Guabi VR Barão, da National Day Cup.

Luiz Alberto aceitou pronta e emocionadamente o convite, solicitando a inclusão de Vilson Nunes Soares e Rações Guabi Bodolay, campeões brasileiros de enduro de 2003, na equipe, por ser o animal do Centro de Treinamento Marechal com quem seu cavalo mais se identifica, no que foi imediatamente atendido.

Todo o ano girou em torno da participação na National Day Cup, embora sofrendo uma interrupção de treinamento por conta de um acidente em que Luiz Alberto teve um infarto agudo do miocárdio e Rações Guabi Barão seu boleto direito bastante machucado.

Tudo estava pronto para que os animais embarcassem no dia 23 de novembro, o que já seria pouco para aclimatação, quando foram informados pela empresa aérea que o vôo fora transferido, sem maiores explicações, para o dia 30, porque o veterinário oficial estaria em férias na data original. Assim sendo, refez-se todo o processo de exportação e eles embarcaram por outra companhia no dia 28, prevendo-se sua chegada na tarde do dia 29 de novembro.

Em Frankfurt, escala do vôo, os animais foram retidos por mais de 24 horas porque quando o avião pousou, havia terminado o expediente da veterinária da alfândega e ela se recusou a examiná-los fora do horário. Assim, eles só chegaram a Abu Dhabi no dia 30 à noite, restando-lhes ínfimos três dias para descansar. Se largassem nessas condições, já seria um milagre.

"Cavalgar no deserto é a coisa mais maluca do mundo. Perde-se totalmente a noção de distância e é isso que os árabes chamam de miragem, que também pode ser auditiva. Parecia que o helicóptero (com o cinegrafista da Showtime Sport), que embora a 500m de distância, iria pousar em meu ombro", comenta Luiz Alberto

Em meio a uma ventania ensurdecedora e sem conseguir escutar os cascos dos animais, Luiz Alberto, com 39° de febre, manteve um galope compassado nos três anéis que Rações Guabi VR Barão conseguiu completar, perfazendo 86km de prova. Vilson Soares e Rações Guabi Bodolay, conjunto campeão brasileiro para 2003, mostraram do que são feitos e, inacreditavelmente, conseguiram terminar a mais difícil prova do ano, segundo o organizador.

“Foi uma grande vitória para Luiz Alberto, que participou de uma prova internacional pela primeira vez fora do Brasil. Todos nós ficamos fascinados com a coragem e paixão deste brilhante esportista”, declarou Hussein Mohammed Hussein, Secretário Geral da Federação Eqüestre e de Corridas dos Emirados Árabes Unidos.

"Estamos realmente contentes com a participação de Luiz Alberto na National Day Cup e esperamos contar com sua presença na President’s Cup, que será realizada no dia 19 de fevereiro de 2004”, declarou Mohammed Al Sayed, chairman do Comitê Internacional de Enduro dos Emirados, na coletiva de imprensa, realizada no Sheraton Hotels and Resorts, no dia 2 de dezembro.

A National Day Cup, a primeira de uma série de quatro grandes provas a serem realizadas na Emirates International Endurance Village, em Al Wathba Stabes, bem como a participação de Luiz Alberto, foi vista por mais de um milhão de pessoas de todo o mundo pela Internet, através do site www.eiev.info, e transmitida ao vivo pelo canal esportivo Showtime Sport, dos Emirados Árabes Unidos, além de ter sido gravada pela BBC e pela CNN. A BBC produziu um programa de 30 minutos sobre a história e participação de Luiz Alberto, que será exibido no Natal.

"Temos todos responsabilidade sobre os que vêm depois de nós", diz Luiz Alberto, quando perguntado sobre seus sentimentos sobre a repercussão de seu feito. "Já pensou quantas portas se abriram para os cegos de todo o mundo? Eu acho que os exemplos valem mais do que leis, quando se fala em inclusão social", completa ele.

Resumindo, animais e humanos fizeram das tripas coração para que tamanho sucesso adviesse de condições tão adversas.

Lula chama brasileiro de “herói”
Em mensagem oficial enviada ao Comitê Internacional de Enduro dos Emirados, o presidente Luiz Iácio Lula da Silva, chama Luiz Alberto de Herói Brasileiro.

Na mensagem, Lula diz que “Luiz Alberto M. de Carvalho e Silva é um exemplo para todos nós. Ele é realmente um herói do esporte. Embora eu não conheça bem o enduro, é impossível não notar a importância de seu sucesso. É um orgulho para o Brasil ver que um de seus filhos eleva nossa grande nação a um estágio internacional.”

“Estamos honrados com convite efetuado a Luiz Alberto pelo Governo de Abu Dhabi e sua alteza, Sheikh Zayed bin Sultan Al Nahyan. Esperamos que possa estreitar as relações entre o Brasil e os Emirados Árabes Unidos”, declarou Lula.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
“Gosto de competir porque adoro cavalos. Em todas as entrevistas que dou, cito que, quando montado, parece que nasci com quatro pernas e que duas delas acabaram de me ser devolvidas.

Tenho uma sensação de liberdade e uma noção de espaço, quase como se tivesse voltado a enxergar. Os que montam comigo no dia-a-dia sabem que em locais conhecidos sou muito mais independente e ando muito rápido. A trilha não é escura para mim. Ela tem cheiros, ruídos que me podem deixar agradavelmente impressionado ou desinteressado.

Alguns podem pensar que este seria o único esporte em que me encaixasse, o que não é verdade, pois nado bem e, mesmo depois de ter perdido a visão, continuei fazendo esqui aquático. Estou no enduro porque gosto de cavalos, não só pela aparência e comportamento maravilhosos que têm, mas pela máquina biológica fantástica que são. Esta é a modalidade hípica que mais exige conhecimento do cavaleiro sobre a fisiologia de seu animal e é esta proximidade com a engenharia que me atrai. Faço enduro porque gosto da vida ao ar livre. Embora economista, trabalho com agri-negócios justamente para não ficar confinado em um escritório. Gosto de viajar, de estar em movimento. Tenho facilidade para conhecer pessoas e fazer amizades e o enduro sempre me pareceu, dentre os esportes, o que mais oferece condições para que este meu lado sociável cresça.

O fato de haver várias gerações de uma mesma família competindo é-me atraente, mesmo não tendo filhos eu próprio. A idéia de solidariedade que o enduro imprimiu em mim e que alguns encaram como mítica é, dentre todas, a mais cativante. Ao contrário do que ocorre com outras modalidades, ninguém se compraz pelo animal de outrem passar mal ou coisa assim. Já houve muitas provas em que me afastei de meu acompanhante e outros participantes, de cujo nome nunca ouvi falar, continuaram agindo como se assumindo para si esse encargo.

Também faço enduro por vaidade, é claro! A última entrevista que dei em Abu Dabi foi conduzida por uma jornalista, Kavita Danniel, do jornal Gulf News, que me pergunto: "you ride at endurance races running after atraction of respect?" Respondi somente: "you are very smart”. Argumentei que, segundo Freud, todos procuramos reconhecimento, mesmo o mais modesto dos serviçais. Na minha sala, tenho minha prateleira de troféus, como todos devem ter. Não acredito sinceramente que meus amigos enduristas guardem os seus em baús trancados à chave. Tenho também meus recortes de jornal encadernados, o que não deve ser de espantar ninguém.

Tenho, no entanto, uma obrigação que talvez nenhum de vocês tenha e ela me pesa muito: abrir portas para as crianças cegas que vem atrás de mim. Há 30 anos estou envolvido com o treino de cães guias para cegos, há 16 anos incentivo o uso de síntese de voz em computadores, mas o que realmente conta é o número de notícias que saem a meu respeito nos jornais. São elas que realmente abrem portas, que convencem mães a libertarem seus filhos e dar-lhes uma oportunidade para serem simplesmente pessoas.

Em 11 de outubro de 1997, fizeram uma reportagem de um minuto e meio comigo no Jornal Nacional, pois tinha conseguido completar minha primeira prova, depois de quatro tentativas malfadadas. Três meses mais tarde, minha esposa, Regina, me deu um número de telefone e me pediu para ligar. Era uma psicóloga que percorrera um calvário para que alguém na cadeia de comando entre a Globo e a Verdes Eventos (empresa organizadora de provas de enduro eqüestre) desse-lhe meu número. Ela me contou que seu filho de 11 anos tinha a visão incuravelmente comprometida. Perguntei-lhe em que a poderia ajudar, quando ela respondeu que "eu só queria que você soubesse que parei de chorar quando o vi a cavalo na televisão".

Meus amigos, por mais que relatar o fato sirva de catarze, as lágrimas ainda me vêm aos olhos. Nunca mais falei com ela, pois minha missão estava cumprida. Até hoje imagino quantas mães tiveram seus olhos mais secos com isso e emociono-me novamente, como faço agora.

Resumindo, o enduro, assim como tudo o que faço, tem um lado político, no sentido de que todos devamos desempenhar nosso papel para tornar a vida de mais alguém melhor. Não faço parte de nenhuma associação de cegos, mas todos eles me conhecem como alguém a quem podem recorrer em último caso.

Estou feliz porque, sabendo que meu convite visava uma apresentação de cunho humano, nada piegas, como muitos podem pensar, eu montei como gente grande. Estou feliz porque nossos cavalos, com três dias de descanso somente foram mais longe que a grande maioria dos concorrentes, todos locais, gerando um novo e imenso respeito pelo que fazemos aqui. Prova disso é que ambos ficaram treinando lá para a Copa do Presidente, que ocorrerá no dia 19 de fevereiro.

Estou feliz pelo conjunto Vilson Nunes Soares e Rações Guabi Bodolay que, dentre os campeões presentes, foi o único a concluir a prova e o único em que o cavalo era estrangeiro. Estou feliz pelo Henrique Garcia, que passa a ser merecidamente reconhecido no mundo dos cavalos, vislumbrando grande carreira.

Finalmente, estou feliz pela Cidinha Franzão, cujo relacionamento com a Endurance World promoveu a coisa toda.”


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