Cavalos & Cavaleiros
FAR OUT FOREST, OCALA, FLORIDA
Uma experiência inesquecível para Matheus Grande
por Matheus Grande

No dia 13 de fevereiro estava na Flórida, na cidade de Ocala para participar da Far Out Forest, no dia seguinte, 14, minha primeira prova de 160 km, com meu irmão Daniel Grande, Darolyn Butler-Dial e sua filha Cecília (Cici). Tudo estava pronto e os cavalos preparados, mas faltava uma comida nutritiva para nossos corpos, meu e de meu irmão Daniel.

Como sempre acontece, antes das provas há o briefing, quando os organizadores falam sobre a competição. Eu e Daniel estávamos esperançosos de que no briefing da prova houvesse algo nutritivo para comermos, como um bom macarrão para uma reserva de carboidratos. Até esse momento, tudo caminhava muito bem.

Antes de continuar, gostaria de falar sobre a escolha do meu cavalo, pois foi mais uma coisa impressionante que aconteceu em minha vida. Realmente, não sabia qual animal deveria escolher. Parei uns instantes para pensar e cheguei à conclusão que eu não poderia faze-la. Coloquei tudo, desde a escolha do cavalo e como fazer a prova, nas mãos de Deus... (Nota do editor: nestas horas temos certeza de que Deus é brasileiro!).

O animal escolhido foi DJB Wersus, um Puro Sangue Árabe de 9 anos de idade, que chamávamos de Sus. Um cavalo super tranqüilo e uma verdadeira máquina. Fiquei confiante em relação à escolha que o Senhor havia colocado em meu coração e tinha certeza que se fosse Sua vontade, terminaria a prova, ou não.

Após o briefing, fomos checar os equipamentos: selas, cabeçadas, capacetes e lanternas, porque fora decidido que a largada seria às duas horas da madrugada devido à previsão de uma tempestade na tarde daquele dia.

Fomos dormir às 22 horas. Como tinha sido estabelecido que dormiríamos no “Ciganinho”, caminhão da Darolyn, onde dormimos na primeira noite e como vi uma barata durante o dia, resolvemos, Daniel e eu, dormir no trailer onde os cavalos viajam. Arrumamos alguns fardos de feno e tentamos nos acomodar, encarando o desafio de dormir sobre fenos e moscas por todos os lados. Melhor do que ter uma visita indesejada de alguma barata! Antes de dormirmos, fizemos uma oração para colocarmos tudo, absolutamente tudo nas mãos de Deus, assim como fazemos aqui no Brasil.

Finalmente chegara a hora da largada. Meu coração estava tranqüilo eu não estava ansioso. Tinha certeza de que Ele estaria nos acompanhando, a mim e ao meu irmão.

Os 48 km do primeiro anel da prova fizemos em 4h42min, em plena escuridão, porém o medo não havia tomado contato do meu coração porque estávamos em um grupo de cinco cavaleiros. O sentimento que bateu mais forte foi de empolgação e muita adrenalina, A floresta era fechado, os galhos batiam no rosto e nem tínhamos como desviar por causa da neblina e da escuridão. Até então, eu não tinha ouvido lobos e nada de ursos, a não ser suas pegadas no chão arenoso.

Larguei para o segundo anel às 7h44min. Era um anel de 30 milhas (48 km) também, com um vet check de 30 minutos no meio. Depois de 8 milhas percorridas (12,8 km), resolvi diminuir o ritmo e nosso grupo se dividiu. Daniel e Darolyn seguiram mais rápidos e eu e Cici fomos mais devagar. Ela foi desclassificada no meio deste anel e agora me via sozinho em uma floresta com lobos e ursos e uma trilha muito complicada e difícil.

Ao largar para terminar o segundo anel, senti um frio na barriga, mas nunca, nunca me esqueci que Deus estava comigo e uma grande segurança vinha em meu coração. Confesso que muitas vezes me senti inseguro de não saber tocar o cavalo do jeito e certo e de não conseguir terminar a prova. Terminei o anel às 12h16 e o cavalo estava ótimo. Ele comia e bebia da melhor maneira possível, pois normalmente tem problemas de gastrite em provas e até esse momento não havia nem sinal dela. A cada passo, a certeza de que Deus estava me guiando era maior.

Às 13h17 larguei para fazer o terceiro anel. As primeiras 9 milhas (14,4 km) fiz completamente sozinho e tentei prestar o máximo de atenção à trilha, pois teria de enfrenta-la durante a noite. Ao me ver sozinho, debaixo de chuva, a neblina começando a descer, lobos uivando na floresta, o medo começou a tomar conta de mim, mas continuava firme. Nesse momento, agarrei firmemente nas mãos de Deus, pois sabia que quando a noite caísse, tudo seria muito pior.

Em certo momento, visualizei um endurista a uma distância de uns 500 metros e me senti mais aliviado porque achara que ele fazia a prova de 160 km também e, então, poderíamos fazer juntos.

Ledo engano. Ele estava terminando sua prova de 50 milhas e agora batia a certeza que eu realmente enfrentaria sozinho o duro desafio.

Cheguei ao vet check às 16h50min com descanso de 30 minutos para depois largar para o último anel. Pela primeira vez na vida, senti falta de minha querida equipe: pai, mãe, irmãos, Dílson, Tota e Alex. Não tinha ninguém para me ajudar e muitas coisas para fazer antes da largada: dar ração e eletrólito ao SUS, limpar a manta, achar uma capa de chuva seca, trocar a roupa molhada, encaixar a lanterna no capacete, encilhar o cavalo e preparar algo para comer para colocar na sela caso viesse a me perder. Sentia-me sozinho, com medo e frio. Senti muito por não ter tido tempo de ler um trecho da Bíblia, que sempre levo comigo. Fiz uma oração ao lado do meu cavalo e agradeci por ele estar bem e por tudo que havia passado até então. Pedi coragem, segurança e força para enfrentar sozinho a escuridão da floresta.

Eu dispunha de uns 40 minutos de claridade antes de escurecer e decidi tentar andar o mais rápido possível. A essa altura, havia muita neblina e confesso que fui fraco, quis desistir, não tive garra e nada veio de mim. Eu orava a cada minuto e o medo congelava meu corpo e me sentia cada vez mais fraco. Ao escurecer, senti força, coragem e segurança invadirem meu corpo. Sabia que vinham de Deus! A situação não foi das mais agradáveis que já vivi, porém estava feliz de estar ali e por sentir Seu amor.

Durante a noite, ouvia lobos e outros animais na floresta. Pensei que se Deus criou os animais, a floresta e TUDO que existe, é lógico que Ele não permitiria que nada de ruim acontecesse comigo. Fui seguindo cada metro da trilha como se estivesse completando mais um quilômetro e a cada placa de sinalização que passava, sabia que estava mais perto da chegada e do final da prova.

Uma parte deste anel se daria por uma estrada de terra, na qual andaria umas duas milhas (3,2 km) e viraria à esquerda, para dentro da floresta. O problema era que eu não via mais as placas de sinalização há um bom tempo e pensei: Passei a entrada da trilha verde, que deveria seguir. Comecei, então, a procurar rastros de cavalos no chão, pois a trilha vermelha cruzava com a verde. Como segui os rastros com muita dificuldade, pois a luz da lanterna sumia em meio a forte neblina, estava na vermelha pensando estar na verde e depois de 20 minutos percebi o erro e me deparei completamente perdido.

Fui engolido pelo medo e pelo desespero. Resolvi ir a Deus mais uma vez. Ele me guiou e encontrei o caminho correto. Pude sentir suas mãos em mim, me guiando como se fosse uma mãe que pega nas mãos de seu filho ao atravessar uma rua. Foi incrível!

Após encontrar o caminho certo, no meio da floresta eu pensava: “Isto já é demais para mim. Não posso mais agüentar e quando chegar ao vet check do meio do anel vou parar”. Mas como poderia estar me sentindo assim? Já havia percorrido 150 km e voltei novamente meus pensamentos a Ele, pedindo que fizesse algo para eu me sentir renovado e confiante para continuar.

O cansaço dominava meu corpo e minha mente e faltava tão pouco!

Depois de algum tempo, cheguei ao vet check. Ali, um homem chamado Mike esperava para me ajudar. Não o conheço e nem sei de onde veio. Enquanto pensava em largar para terminar, perguntei a ele: “O que ganharei depois de passar por tudo isso?” E ele me respondeu: “Não sei se existe algo mais importante do que a honra e o respeito de todos que o estão vendo”.

Fiquei impressionado com a resposta e ela foi o bálsamo e a força que precisava para seguir em frente. Creio que era a resposta de Deus à minha oração, quando pedi que fizesse alguma coisa para eu não desistir. Hoje, tenho a certeza que ganhei muito mais. Ganhei mais uma vez a prova do amor Dele!

Larguei debaixo de chuva, neblina e uma escuridão assustadora. Depois de 5 milhas (8 km) percorridas em meio a uma densa floresta, senti um cheiro azedo e horrível. Sus, meu cavalo mudou, acho que sentiu também, e suas orelhas apontaram para as árvores há uns dois metros de nós. Ele apressou o passo e um frio intenso tomou conta de mim.
Novamente pedi a proteção de Deus porque sabia que em meio às árvores estava um urso.

Tentei poupar ao máximo minha lanterna, pois se não a tivesse mais, não teria nenhum meio de seguir a trilha uma vez que não havia nenhum bastão de néon, apenas pequenas placas pregadas em meio às árvores.

Quando finalmente vi a placa que indicava duas milhas (3,2 km) para a chegada, uma enorme alegria invadiu meu coração e naquele momento nada poderia me desanimar, até mesmo os galhos que machucavam meu rosto a todo instante, mesmo porque devido à escuridão não enxergava nada à minha frente, não tendo como desviar deles. A partir daí, comecei fervorosamente a agradecer a Deus por tudo.

Sabia que tinha sido fraco e quisera desistir em vários momentos, mas Ele não deixou e assim pude vivenciar uma das maiores alegrias da minha vida. Meu irmão que nem teve vontade e tempo de comemorar seu terceiro lugar, por saber que eu estava passando por uma ‘barra’ no meio da floresta, me esperava angustiado porque havia passado algumas horas antes pela mesma trilha, junto com a Darolyn e sabia como era: uma floresta escura, amedrontadora e perigosa.

Quando cheguei, fui recebido com o mais caloroso dos abraços que já recebi em minha vida e que me marcou para sempre. Como foi bom sentir o carinho daquele abraço. Daniel me beijou no rosto e disse: “Cara, você chegou! Eu não acredito. Já estava indo atrás de você, nem que fosse a pé”. Virei e respondi: “Cara, Deus me guiou e sem Ele eu não teria chegado aqui. Nunca O senti tão próximo como agora”. Terminei em sexto lugar!

A vontade de chorar foi imensa, mas não se comparou com a alegria da chegada. Afinal, era minha primeira prova de 160 km em condições tão adversas, trilha desconhecida, sozinho e sem o apoio que temos aqui no Brasil. Não gostaria que as pessoas que lerem esse meu depoimento pensem que essa conquista foi somente mérito meu. Não foi. Por mim, teria parado, desistido no meio da prova. Foi Deus quem me deu garra, coragem, força, me guiou e permitiu que eu terminasse. Por isso, louvado seja o nome Dele.

Meu cavalo, ah, ele foi ótimo! Mostrou-se corajoso, firme e amigo. Terminou cansado, mas em perfeitas condições. Terminei a prova em 6º lugar em 15h20 e acho que devo essa conquista primeiramente a Deus, em segundo ao meu irmão, Daniel Grande, que esteve ao meu lado dando força e coragem o tempo todo, em terceiro ao Sus que me carregou nos 160 km com coragem e firmeza, aos meus pais que me proporcionaram essa viagem, a participação nas provas, a clínica com a Valerie Kanavy e a todos que me ajudaram como podiam na primeira prova de 160 km da minha vida.

Matheus Grande

Ride History for Matthew Grande


RIDE SUMMARY

Season
LD miles
Miles
Rides
Completions
Overall
points
Division
points
2004
0
100
1
1
225
315
Recorded
0
100
1
1

RIDE HISTORY SEASON 2004

Far Out Forest
on DJB Wersus
02/14/2004
100 miles
6th place
time: 15:20:00
Ride points:
div 315
ov 225
Season points:
div: 315
ov: 225
Season miles:
100

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