Cavalos & Cavaleiros
Quem
tem medo da graduação?
por Marcos Pinto Lima

A forma das pirâmides é referência
para quase tudo na vida porque tem bom fundamento, base sólida
e atingem as alturas com absoluta segurança. Essa
era a forma do Enduro que eu conheci com uma base ampla de
fácil acesso, onde cavalos e cavaleiros partiam para,
gradualmente, subir por patamares muito claros, cientificamente
estudados para o preparo e a participação saudável
dos conjuntos no esporte. A relação com as
pirâmides agrada especialmente pela ligação
que o esporte mantém com o cavalo de sangue árabe,
com o deserto e essas coisas, que até para o marketing
funcionam bem. Mas a graduação foi extinta,
perdeu-se a forma, o desenho mudou.
Do alto das pirâmides contempla-se a história
do Enduro. E, examinando-a, percebemos que a extinção
da graduação foi executada por razões
que nada tinham a ver com o esporte, com a técnica
ou com a segurança dos conjuntos.
Foi na verdade uma alternativa para acalmar a revolta e
a ameaça de cisão trazida por enduristas indignados
com as altas taxas, os selos e a criação do
passaporte obrigatório. Entre as reivindicações,
os revoltosos queriam que provas não chanceladas valessem
para graduação, o que naturalmente desvirtuaria
o instituto, cuja finalidade é propiciar a adequação
dos novatos ao esporte, em etapas com um mínimo de
fiscalização técnica que aquelas provas
não tinham.
As provas eram boas, mas não tinham fiscalização
porque não eram chanceladas. Era um circulo vicioso:
os organizadores não queriam se submeter à fiscalização
e às exigências técnicas das Federações,
da CBH e da própria FEI. Tinham lá suas razões,
mas "pas de CBH, pas de chancelle". E para evitar
a cisão, o diretor de Enduro da CBH na época
extinguiu a graduação, liberou geral como se
dizia então.
Com a extinção da graduação,
por paradoxal que seja, houve a automática habilitação
de todo o rebanho eqüino mundial, só no Brasil
perto de 7 milhões, mas os revoltosos, depois dessa
vitória de Pirro, continuaram a pagar as mesmas taxas,
passaportes, selos, organizações etc... A diplomacia
evitou a guerra, mas prevaleceram os interesses pessoais
sobre os do esporte, os políticos sobre os técnicos,
os econômicos sobre os fundamentais, e a graduação
foi para o brejo, enquanto os preços foram para o
espaço sideral, ou seja, a revolta, no frigir dos
ovos, serviu apenas para acabar com a graduação.
Foi uma opção política que deu resultado
na ocasião e não é meu objetivo criticá-la
ou elogiá-la, mas contempla-la historicamente para
verificar se houve razões técnicas e cientificas
para a extinção. Acabamos de ver que não.
Para quem não viveu a graduação explico
que a primeira prova de um novato era o início de
uma longa amizade. Fase a fase, categoria após outra,
o conjunto de forma quase imperceptível, mas com firmeza,
passava pela B até a categoria "Graduado C",
em velocidade limitada. Garanto aos céticos que há emoções
muito satisfatórias quando o conjunto chega íntegro à velocidade
livre uma estrela, que já é um enduro em curta
distância, depois à de duas estrelas e, quem
sabe, se possível e se quiser, às de três
e quatro estrelas.
Sem graduação, para o iniciante cada prova é um
fim em si mesma; é uma coisa isolada. Vai se puder
com o animal que estiver à mão. Para que planejar
a evolução do cavalo e treinar para o futuro
se a finalidade não é o esporte, mas só a
prova da vez ou um passeio? O futuro se resume ao dia da
prova. Nada contra a diversão ou o passeio para arejar
a mente e se distrair da rotina estressante da semana, mas
aqui estou falando de esporte regulamentado, que tem Federação,
Confederação e participa de competições
nacionais e internacionais com a jaqueta verde e amarela
do pavilhão da pátria, e além de tudo é caro,
muito caro. Para mim, nos dois sentidos.
As provas atuais de velocidade limitada são úteis
para captar a simpatia de novos adeptos e servem como opção
para os que querem se preparar adequadamente, o que é muito
bom. Algumas são chanceladas pela Federação
e fazem parte de campeonatos, o que lhes dá oficialidade
e poderiam perfeitamente servir para graduar. Mas como não
há graduação obrigatória, o vínculo
com o esporte é mínimo, e, além disso,
qualquer cavalo ou cavaleiro pode se iniciar já direto
em velocidade livre e em distâncias curtas, abreviando
o princípio do fim de muitas carreiras, como diria
o sambista.
Não me convence o argumento de que cada um pode se
graduar por conta própria, com liberdade e sem imposições.
Claro que cada um deve ser livre até para escolher
entre praticar enduro, passear com amigos em cavalgadas ou
fazer romarias. Mas tendo optado livremente pelo Enduro,
nada mais natural e livre do que seguir suas regras técnicas.
Ultimamente tenho observado alguns pequenos fenômenos
que pretendem me desmentir. E conseguem, porque dão
show na velocidade livre e os cavalos continuam firmes e
fortes, mesmo que seus pilotos nem tenham ouvido falar de
graduação. Mas são raríssimas
exceções com uma característica comum:
estão bem orientados e inseridos em equipes experientes
com treinamento de mestres que, no passado, se graduaram
e graduaram inúmeros animais.
Com a volta da graduação obrigatória
para cavalos e cavaleiros, não tenho dúvidas
de que ambos durarão mais, os cavalos com saúde
e os cavaleiros no Enduro.
São tão evidentes os benefícios da
graduação que a falta de um empenho maior de
interessados é um verdadeiro enigma. Elaborei uma
teoria tentando decifra-lo. Como em qualquer atividade, o
Enduro é movido a negócios, o que é perfeitamente
aceitável, pois são lícitos e sem eles
não existiria, mas em alguns casos são utilizados
métodos que resvalam e até ultrapassam o limiar
da ética e aí são condenáveis:
desde um assédio subliminar que leva os indivíduos
a buscar e pagar por algo que realmente não querem
ou não precisam, até o repugnante sistema que
consiste em convencer a vítima de que poderá adquirir
fundamentos no Enduro e preparar seu craque voando livremente
em curtas distâncias desde a estréia; que cavalos
existem aos montes e que se for o caso, devem ser substituídos
como se faz na Fórmula 1. Aliás, para entender
o Enduro é preciso esquecer a Fórmula 1 e as
comparações. O verdadeiro endurista treina
e prepara seu cavalo sem pensar em trocá-lo a cada
prova. Só uns poucos podem ter coleção
e manter cavalos em estoque, aos pares, como meias no guarda
roupa. Essa não é a realidade da maioria.
Tenho observado também uma inversão de valores
que exige que o potencial exploda precocemente e se transforme
em realidade de vitórias; uma idolatria ao primeiro
lugar que deixa de lado o esporte e seus objetivos, despreza
a base sólida que se traduz no princípio fundamental
do Enduro segundo o qual terminar é vencer. O primeiro
lugar de hoje causa frenesi, ao passo que terminar bem todas
as provas da temporada é uma conquista que não
seduz nem mesmo a famosos e experientes enduristas formadores
de opinião que no passado vibravam até às
lágrimas por conseguir fechar o percurso no tempo
máximo.
Conjunto fixo e permanente na visão míope
dos inescrupulosos gera menos negócios do que a volatilidade
causada pela quebradeira geral. Então, só durante
o percurso de uma prova é que o conjunto para eles é importante.
Para essas toupeiras será ainda melhor se o conjunto
for formado às pressas por locação ou
compra de véspera, tipo pague hoje e ganhe amanhã.
Esse método de mercantilismo subliminar que influi
e tenta modificar os Regulamentos e condições
de acesso, que induz a investimentos oportunistas, caracteriza
uma distorção muito grande no Enduro como esporte.
Distorção que a graduação pode
amenizar e por isso talvez não interesse a esses poucos,
mas eficazes (de) formadores de opinião. É só uma
teoria, mas se encaixa bem nos fatos.
Essas idéias são fruto da observação
contínua e da interpretação sistemática
dos fatos, algo que não consigo deixar de fazer com
uma enorme disposição de franqueza, lealdade,
transparência e verdade. Como idéias que são,
admitem contrariedade, mas por enquanto ninguém ainda
me convenceu das vantagens da ausência de graduação
nem me deu melhores razões para a omissão dos
formadores de opinião.
Marcos Pinto Lima |