Cavalos & Cavaleiros
XIV Campeonato Brasileiro de Enduro Eqüestre
Um campeonato com Tom Brasileiro!

Por Cidinha Franzão

Com as bênçãos de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, Tom Jobim, padrinho espiritual do Parque Nacional do Itatiaia, o mais brasileiro dos compositores, “o maestro soberano” de que falou Chico Buarque, o XIV Campeonato Brasileiro de Enduro Eqüestre teve um tom essencialmente brasileiro.

Nas trilhas, competidores de nove estados (SP, RJ, SC, DF, MG, MS, PR, PE e GO) e uma representante do Chile, quase que podiam ouvir um trecho de Borzeguim, entoado pelo nosso Maestro: “Não quero fogo, quero água (deixa o mato crescer em paz). O chão no chão. O pé na pedra. O pé no céu. Deixa o tatu-bola no lugar. Deixa a capivara atravessar. Deixa a anta cruzar o ribeirão. O jacu já tá velho na fruteira. O lagarto teiú tá na soleira. Deixa a onça viva na floresta. Deixa o peixe n'água que é uma festa...”, a acompanhá-los.

Realizado, pela primeira vez, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, RJ, no dia 14 de agosto, a prova serviu como observatória para a escolha dos cavaleiros que represen-tarão o Brasil no Campeonato Mundial de Sênior, em 27 de janeiro de 2005, em Dubai, nos Emi-rados Árabes Unidos, e no Pan-Americano, em 2 de abril, na cidade de Pinamar, na Argentina.

Um campeonato recheado de surpresas. Organizado por representantes das principais equipes de enduro do Estado do Rio de Janeiro que se emprenharam em realizar uma competição de altíssimo nível. Cavaleiros estreantes em algumas modalidades conquistaram o título de campeões brasileiros, ao desbancar os favoritos. Clima muito bom. Trilhas bem marcadas e mesmo com a repetição de alguns trechos, a sinalização não levava os competidores a cometer erros. Uma belíssima festa de encerramento.

Com o Maciço do Itatiaia, que significa “Pedra Cheia de Pontas” devido ao aspecto de suas formações rochosas, na Serra da Mantiqueira, como parte do cenário, todo o setor de equitação da AMAN – pista de saltos, campo de pólo, pista de obstáculos rústicos e pavilhões de baias –, foi adaptado para receber os 169 conjuntos participantes (130 na Livre e 39 na Limitada), com dois vet checks: um para a prova Internacional (CEI*** 160 km, CEI** 120 km e CEI* 77 km) e outro para a Nacional (CEN* 55 km e Aberta 35 km).

Na sexta-feira, 13 (desta vez com muita sorte!), o Campeonato Brasileiro foi oficialmente aberto em cerimônia presidida pelo General de Brigada Claudimar Magalhães Nunes, da AMAN, e por José Armando Garcia, diretor de enduro da Confederação Brasileira de Hipismo (CBH), com hasteamento das bandeiras brasileira, CBH, AMAN, FEERJ e das prefeituras de Resende e Penedo. A execução do Hino Nacional, pela Banda da Academia emocionou a todos os presentes.

O brilho de Shyraz – Às 5 horas da manhã do sábado (14), 18 competidores largaram para a prova CEI*** 160 km (38 km, 38 km, 27 km, 25 km, 20 km e 15km) e 11 terminaram. Em sua primeira competição de longa distância, Marcos Camilo, de São Paulo, conduziu Shyraz (Dazhat LB x Fivelona, Anglo-Árabe de 13 anos) à vitória em 09:56:58, com velocidade média de 16,38 km/h e conquistou o título de campeão brasileiro. “Trabalhamos muito para fazer a prova e deu certo. Era o dia do cavalo. Andava bem na trilha e se recuperava rapidamente”, comentou Camilo. No penúltimo anel, ao passar José Mariano Sales no vet check, resolveu que era hora de abrir vantagem e administrar a vitória no último anel. Estratégia que deu certo.

Assim como a Shiraz, uva originária da re-gião francesa do Vale do Rhône, que resul-ta em vinhos elegantes e gostosos, o Anglo-Árabe Shyraz adaptou-se muito bem nas tri-lhas de Resende. “Con-quistar o título de campeão brasileiro é uma felicidade indes-critível, principalmente por ser minha primei-ra prova de longa distância. É a concretização de um sonho somado à alegria de ver os amigos em boas colocações”, declarou Marcos Camilo que busca outro objetivo: integrar a equipe brasileira no campeonato mundial, em Dubai, em janeiro de 2005.

Disputas por boas colocações em todas as categorias foram a tônica do campeonato. A primeira foi pelo vice entre o mineiro José Mariano Sales, com Vhethor (AF Valverde x Atriz, CZA) e o paulista Pedro Stefani Marino, com WN Farah (*Serenity Mashour x *AK Faraas, PSA). Em um sensacional sprint na chegada, o concorrente de Minas Gerais cruzou a linha com dois segundos de vantagem. Ambos tiveram média de prova de 16,11 km/h.

O Best Condition ficou com Baccarat (Falik da MV x Laikra R, CZA de 14 anos), que conduzido por Roberto Schioppa, foi o sexto colocado na categoria e completou o percurso em 10:11:41, com média de 15,99 km/h.

CEI** 120 km – A prova CEI** 120 km, categoria Adultos (38 km, 27 km, 25 km, 15 km e 15 km), que reuniu 15 concorrentes, teve a mais emocionante chegada com três competidores na disputa pelo título. Campeão Brasileiro e Best Condition de 2003, o conjunto formado por João Roberto Souza Naves e Vorzug (Dhakman NA x AH Haliah, PSA de 10 anos), garantiu o bicampeonato ao cruzar a linha com um segundo de vantagem sobre o segundo colocado, Silvia Assi Vaccari com Atika (Iswan FA x Bint Varazdac, PSA de 14 nos) e dois segundos sobre o terceiro, Marcelo Abreu Pereira, com Speks (*Bomarc x *Satyna, PSA de 12 anos).

“A estratégia inicial era andar perto dos ponteiros. No quarto anel, durante o percurso, conversamos como poderia ser emocionante uma chegada disputada no campo de pólo, com velocidade e segurança para os animais”, comentou João Roberto.

Ao chegarem no campo, combinaram que deixariam os cavalos correrem e assim saber quem seria o vencedor. “Logo que largamos, Vorzug abriu um corpo de vantagem e foi emocionante passar em primeiro, com as pessoas gritando e nos animando. Fiquei muito contente e mais ainda quando anunciaram o Best Condition. Ganhar é bom, mas ganhar preservando o animal é melhor ainda”, exclamou feliz. Assim como Marcos Camilo, a expectativa de João Roberto é poder integrar a equipe brasileira ou do Campeonato Mundial ou do Pan Americano.

João Roberto e Vorzug completaram o percurso em 06:56:59; Silvia Vaccari e Atika em 06:57:00 e Marcelo Abreu Pereira e Speks em 06:57:01, com média 17, 27 km/h de prova. A chilena Ana Maria Novoa, que há alguns anos compete em provas brasileiras, participou do campeonato. Ela montou Joe, Anglo Árabe do Haras LG Patente, de Jaguariúna, e terminou em oitavo lugar. “Estou muito feliz por ter tido a oportunidade de participar do Campeonato Brasileiro. Esta é uma das provas mais bem organizadas que já competi e o local tem uma estrutura fantástica. Espero poder voltar a correr aqui, na AMAN”, comentou Anita, como é conhecida entre os brasileiros.

CEI* 77 km – Ele veio de Cidrolândia, MS, competiu com experientes enduristas e levou o título de campeão brasileiro da categoria Adulto da prova CEI* 77 km (27 km, 20 km, 15 km e 15 km, com 25 concorrentes). Aristides Alegre, com Samusk (Sandan x Arace, CZA de 12 anos), liderou a prova desde o início e completou a trilha em 03:52:09 com média de 19,90 km/h. Paula Abreu, com Omega Rach (OM Lima Zam x Base 25, CZA de 12 anos), sagrou-se vice-campeã. Conduzido por Higor de Marchi, Crystal D’Oro (Von Herte Katssuo x Lady Crystal, PSA de 6 anos) conquistou o Best Condition.

CEN 55 km – Minas Gerais levou o título da categoria Adulto da prova Nacional 55 km (25 km, 15 km e 15 km) e o Best Condition. Fernando Lopes e Malaahah HEM (*Celaddinn x Hafati Halika, PSA de 8 anos), com média de 21,29 km/h completaram os 55 km em 02:35:45 e disputaram o último quilômetro com Guilherme de Azevedo Sodré, com Iron Pop AS (FHF Amon Osíris x Question Pop, Anglo Árabe de 14 anos). “A emoção é indescritível. Uma sensação de dever cumprido e de que todo tempo investido em treinamento e preparo não foi em vão, e o mais importante é que a égua superou todas minhas expectativas”, comentou Fernando.

Nova safra – No instante em que uma criança descobre o esporte, descobre uma paixão. E o exemplo é a safra de jovens cavaleiros que competiram no Campeonato Brasileiro nas categorias CEI** 120 km, CEI* 77 km e CEN 55 km.

Aline Cristina Cardoso Honório, de Bertioga, SP, sagrou-se campeã brasileira na categoria Young Riders da prova CEI** 120 km. Com Ibn Almaden (*Almaden II x Neama MV, PSA de 12 anos), completou o percurso em 06:14:39 e média de 19,22 km/h. “A luta no esporte não é fácil e quando a gente consegue uma boa vitória é muito gratificante, não só para mim, mas para toda a equipe de apoio. Procurei acompanhar o primeiro pelotão e analisar o desempenho e comportamento do meu cavalo ao longo da prova, que, aliás, me transmitiu cada vez mais confiança. A prova foi muito disputada e quando cruzei a linha de chegada, me dei conta que era campeã brasileira”, declarou.

A vice-campeã, Cecília Gazola, conquistou o Best Condition com Charlie Rach (Highlander Rach x *Canasta, PSA de 11 anos). Na prova, outra sensacional disputa pelo terceiro lugar entre o carioca José Carlos N. da Silva, com Baby HTA (HB Ramjad x Danta do Rancho, Anglo Árabe de 11 anos) e o catarinense Tiago Polidoro, com CHC Hayjara (AF Galiani x SN Bint Haia, PSA de 13 anos). Com dois segundos de vantagem, José Carlos levou a melhor. Ambos tiveram igual desempenho em toda prova e média de 18,38 km/h.

Com apenas 10 anos de idade, Pedro Paulo Lahud tornou-se o mais jovem campeão brasileiro de Velocidade Livre ao vencer a prova CEI* 77 km Young Riders em 03:58:08 com velocidade média de 19,40 km/h. Com Cajun Cheyenne HCF (*Cajun Prince HCF x Torero’s Cheyenne, PSA de 7 anos), disputou o título com Felipe Ciampaglia, montando Faleg (*LF Firewater x *Fadjurslita, PSA de 14 anos). Além do título, conquistou também o Best Condition. “Como era a primeira prova do Cajun, minha intenção era terminar, mas como ele estava muito bem, andamos muito e despontamos na chegada. Na curva, senti um pouco de medo, mas na reta, consegui passar e ganhar. Agora, ganhar o Best foi fechar com chave de ouro a conquista do título”, declarou o jovem campeão ao lado do orgulhoso pai, Salim Lahud.

Iniciante em provas de velocidade livre, a jovem Luísa Pante Ribeiro, levou o título de campeã brasileira na prova Nacional 55 km Young Riders. Com Madheen El Jamal, completou o a trilha em 02:41:19 e média de 20,46 km/h. “Antes de tudo, quero agradecer o convite que me foi feito pela Mariana Conesa, da Equipe Timex, para participar do campeonato. No início fiquei preocupada porque só conheci o cavalo uma hora antes da prova. Ele foi muito rápido no primeiro anel, mas estava tranqüilo e firme. Ao largar para o último anel, fui informada que estava em primeiro lugar e fiquei bem nervosa, mas ao me aproximar da chegada, reduzi a velocidade e terminei ao passo com todos comemorando e eu também, afinal meu primeiro podium e logo campeã brasileira”, exclamou exultante.

A companheira de equipe, Mariana Conesa com Bruxo Timex, sagrou-se vice-campeã e o prêmio de Best Condition ficou com Gai Glory Eletrosul (*Muscaffa x Gai Kafira, PSA de 9 anos), montado pela representante de Santa Catarina, Vanessa Viana.

Pela primeira vez em um Campeonato Brasileiro, Mário Leite Jr, de Pernambuco, nono colocado na prova de Velocidade Limitada Aberta Adulto, declarou que pretende voltar com um número maior de enduristas no ano que vem. “As trilhas estavam muito bem marcadas e sem chance de erro para qualquer conjunto, sem falar no lugar que é lindo e bem diverso. A organização realmente nos impressionou. Briefing na sexta, prova no sábado e premiação no domingo são o ideal para qualquer prova. É muito bom ver o enduro eqüestre tratado com ”carinho" e os apaixonados pelo esporte tomarem para si a responsabilidade, creio que só desta forma traremos novos adeptos para o esporte”, comentou o pernambucano.

Os campeões brasileiros da prova de Velocidade Limitada Aberta 35 km foram Marcela T. Faconti, com Love Rain da Barra (Ebandor do Top x Que La Corran, AA de 10 anos), categoria Adulto e Pedro Liberal Lins, com NNL Saigon (*Bronnz x HE Jorakra, PSA de 12 anos), categoria Jovem.

Para o diretor de enduro da CBH, José Armando Garcia, “esta edição do campeonato brasileiro foi uma das que mostrou excelente nível técnico, tanto que 60% dos concorrentes terminaram a prova. E só tenho elogios a AMAN, pois além da excelente acolhida, a atenção e carinho do General de Brigada Claudimar Magalhães Nunes, do Major Jéferson Sgnaolin Moreira, responsável pelo Setor de Equitação, do Major Isaías de Oliveira Filho e do Capitão Jomane Cordeiro, comprovou que é um dos melhores lugares para se realizar uma prova do nível de um campeonato brasileiro, com instalações de primeiríssima qualidade. Fiquei impressionado com o número de inscrições e a participação de novos estados. A comissão que organizou está de parabéns e parabéns ao enduro brasileiro.”

Particularmente, quero expressar aqui meus agradecimentos a AMAN, em especial ao Major Isaías de Oliveira Filho que deixou dois cadetes de prontidão caso conseguíssemos fazer a cobertura em tempo real da prova e ao Jeferson Brandão, da HMS Timing, responsável pela cronometragem, a quem eu quase enlouqueci. Jeff, peço desculpas publicamente, pois acompanhei de perto seu trabalho com tantas largadas e chegadas que você eficientemente coordenou, e a precisão dos resultados era necessária, afinal não era uma simplesmente uma prova, mas sim o Campeonato Brasileiro.


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