Opinião
Experiência Patagônica
por
Gregorio Diaz
Tive a sorte de ser um dos poucos em participar
do enduro mais austral do planeta, organizado na região
das Torres del Paine, na Patagônia chilena. Sem dúvida
nenhuma foi o percurso mais interessante que já percorri
de cavalo. A região é difícil de descrever:
linda, jurássica, maravilhosa. Aonde sempre vai se
querer voltar.
Lá é longe e cheio de história e coisas
interessantes. Para começar, o vôo leva quase
quatro horas para chegar a Punta Arenas que é o “último
aeroporto”. Antes de pousar se vêem geleiras
enormes e pontos históricos como o estreito de Magalhães,
Tierra del Fuego, La Cordillera de Darwin e as terras minadas
que dividem Argentina do Chile nessa região. Depois
tem que se andar mais umas cinco horas de carro até o
hotel próximo de Torres del Paine, onde foi a largada
do enduro. O trajeto de carro também não transcorre
sem novidades para o visitante de primeira viagem: paramos
para deixar passar um rebanho de 4.000 ovelhas que transitavam
tranqüilamente de uma estância a outra, fotografamos
raposas, lebres enormes e geleiras “penduradas” entre
as montanhas.
Os cavalos eram fornecidos pelos “estancieiros” locais.
Lá têm muitas estâncias de ovelhas e gado
de corte. As estâncias são grandes e os cavalos
são imprescindíveis para trabalhá-las.
A raça dos cavalos é própria de lá. É cruza
de cavalo muito grande, que veio com as migrações
européias e cruzou-se com os Crioulos argentinos e
chilenos, Quarto de Milha e Puro Sangue Inglês. Ele
tem, facilmente, uma altura acima de 1,65 metros e pesam
mais de 500 quilos. Eram cavalos fortes, lentos, firmes,
peludos e mais habituados com trote do que com galope. Um
cavalo ancestral é a impressão que se passa!
Apesar do pouco preparo dos cavalos para enduro, me impressionaram
muito a rusticidade e firmeza deles. Os cavalos subiram morros
enormes com pendentes acentuadíssimos. Subiam morros
de pedra lisa sem escorregar. Passavam por atoleiros gigantescos
sem vacilar. Mas o que mais me chamou atenção é como
eles atravessavam os campos cheios de arbustos (baixos) espinhosos
sem se lastimar.
O dia do enduro foi um dia de sol aberto e pouco vento.
A largada foi num vale com piso macio e regular. Aos poucos
fomos subindo morros e passando por bosques e lagos. Chamava
muita atenção a coloração dos
lagos. Vimos lagos azuis, verdes, pretos, dourados, roxos
e alguns tinham até quatro cores diferentes. Obviamente,
a coloração da água estava relacionada
com a vegetação aquática do local. 
No caminho atravessamos rios parcialmente congelados. Os
cavalos quebravam as lâminas de gelo na superfície
da água sem se preocupar. Em alguns lugares, manadas
de Guanacos (uma espécie de mamífero parecido
com a Llama) atravessavam o percurso correndo a metros de
distância dos enduristas. Em outros lugares vimos grupos
grandes de Ñandu (uma ave parecida com a avestruz).
Durante o percurso sempre estava se passando por uma topografia
interessante: campos dourados lindíssimos, beira de
lagos, precipícios, bosques jurássicos, sem
perder de vista as montanhas congeladas e as geleiras das
Torres del Paine.
Em vários momentos no percurso tive surtos violentos
de adrenalina. O primeiro foi num atoleiro gigantesco onde
entramos. Parecia-me que ficamos horas tentando sair dele.
Outra situação foi passando por uma trilha
estreita num precipício de pedra. A situação
que mais me impressionou foi quando entramos num cânion
de mais ou menos um quilômetro de cumprimento com várias
lagoas no meio. O cânion estava repleto de carcaças
de Guanacos, inclusive um Guanaco havia sido morto essa mesma
noite e parecia que o puma responsável acabava de
se levantar da mesa.
Quando entramos no primeiro Vet Check meu cavalo bateu 50
em menos de dez segundos. Porém ele mostrava claramente
que não tinha nenhuma intenção de continuar.
Havia galopado como nunca e andou 30 quilômetros sem
parar. O cavalo não estava treinado para trotar em
Vet Check nenhum. Mas conseguimos.
E esse foi o momento mais engraçado da aventura.
Eu, feliz de ter conseguido aquele cavalo ancestral trotar,
perguntei para um dos gaúchos que faziam o apoio: “Escuta,
e onde está a comida, a ração do cavalo?” Sem
hesitar, ele respondeu: “Não se preocupe, senhor,
ele já está bem servido”. E assim foi.
O cavalo ficou olhando para o espaço esperando o tempo
de descanso obrigatório passar.
Concomitantemente, o pessoal de apoio, os cavaleiros em
descanso, e os espectadores estavam curtindo um belíssimo
almoço. Havia no local no mínimo doze cordeiros
assando num fogo a lenha. Acompanhando o cordeiro assado
havia vinho sendo servido a vontade pelas chicas de Concha
de Toro, um dos patrocinadores do evento. De novo, as minhas
expectativas foram ultrapassadas: esse cordeiro foi o melhor
que eu já comi.
O astral do local era fantástico. Todo mundo parecia
que estava no paraíso, alegremente sorrindo. Feliz
da vida. Nesse clima meu cavalo e eu, não muito animados
em deixar a festa, largamos para o segundo anel ao encontro
de outras trilhas maravilhosas. |