C A N A I S




Opinião
Uma jornada interessante
por Júlio Villas Boas

“Na quinta-feira conversando com a Paula soube da cavalgada da Prefeitura de Cachoeiras de Macacu. Cica é o prefeito e o conheci quando organizávamos a segunda etapa do Circuito Rio, na Desempenho. È um homem do cavalo. Tem uma mula marchadeira tão boa que rejeitou R$ 50.000,00. A mula é um show!

Bom, mas não me interessei, pois misturar cavalo com política não me comove, então a Paula me fala que a idéia é ir a cavalo de Tanguá até o Faraó de Cima. Tanguá em Itaboraí e Faraó de Cima em Cachoeiras de Macacu, perto da Desempenho, pelas contas da Paula 60 Km.

A isca funcionou: estou nessa. Pedi para que esperasse, consultei o Paulo Sérgio para saber como Akbar estava, afinal tinha passado 10 dias a campo no Gyverny. Paulo me confirmou que o estado era bom. Akbar tinha feito em quatro meses três provas, Aberta no Brasileiro, Livre Curta no Portobello e outra Livre Curta em Itu.

Pensei: Akbazão está em evolução, vamos ver como se sai nessa, são só 60 Km.

Na sexta feira encontrei com Ricardo Midão, ele foi ver o Kids e entre uma conversa e outra pedi para ele dar uma olhada no alazão. Confirmado: Akbar estava enxuto. Liguei para Paula confirmei minha participação. Quinze minutos depois Paula me liga, não tem lugar no caminhão.

“Pô, Julio toda as vezes que eu convido você não vai, agora que você topou não tem vaga no caminhão. Tem uma saída, vamos à cavalo até Tanguá, é lua cheia, saímos às dez e a 1h00 da madrugada chegamos, são 30 quilômetros”.

Fiquei como o diabo gosta, uma cavalgada de lua cheia de 30 Km, depois mais uma de 60 Km, os olhos faiscaram, e o trabalho? Como sempre disse para garotada lá em casa “se os cavalos estão atrapalhando o estudo, larga o estudo e vai montar”. E lá fui eu, dei o sinal verde: Tô dentro.

Em casa arrumei a trouxa: um lençol, uma toalha, duas meias, duas cuecas, três camisetas e um pulôver, Achei que não precisava de capa de chuva. No alforje, três pacotes de Club Social, um de biscoito doce, a necesserie com escova, barbeador e pente. Duas garrafas com isotônico e uma garrafinha com a “Mardita”. Liguei para Alice, estava liberado. Li meus e-mails, respondi alguns, dei uns telefonemas, estava tudo certo.

Eu e Paula passamos no supermercado, compramos provolone, salaminho, barras de energéticos e maçã. 10:10 horário de Brasília, partimos.

A Lua não saiu de todo, mas os pastos e os morros estavam prateados. Minha última cavalgada de Lua Cheia tinha sido banhado a chuva, a muita chuva, tinha esquecido do espetáculo e da incrível sensação de cavalgar à luz da Lua, rodeado de estrelas e com um piso prateado.

Seguimos a trilha, abrimos três porteiras e uma tronqueira, ultrapassamos um rio e um riacho, e Akbar mostrava completo, desembaraço, bebia água a vontade, respondia aos comandos perfeitamente, e mesmo com meus 95 quilos, mais a sela americana de 18 quilos e mais as tralhas mais ou menos mais uns oito quilos movimentava-se muito bem. Paula montada no Parceiro, uma cria da Desempenho, pai Marchador e mãe quarto de milha e Wallace montava Extra, um marchador baio dos cabos pretos, um cavalo grande de marcha picada e bastante voluntarioso.

Passamos pela fazenda Santa Helena, passamos pela fazendo Curralzão, em frente ao sítio Horse Shopping, onde organizamos a ultima etapa do circuito em 2002, passamos pela torres da Embratel, atravessamos a rodovia, entramos em Tanguá, chegamos às 2h00 na fazenda do Leitão. Não encontramos a entrada, acordamos o Leitão, celular é um quebra galho, e pensar que há 10 anos atrás celular era luxo e hoje é necessidade.

Leitão é mais um maluco por cavalos. A primeira coisa que fez foi me levar para ver os troféus das provas (rédeas, tambor e baliza) ganhos por ele e pelas filhas. Cinquentão, tinha recomeçado a montar com 32 anos e a partir daí não parou mais. As filhas o seguiram.

É impressionante como tenho ouvido histórias parecidas, de pessoas que após um período relativamente longo, já na fase mais madura da vida, se voltam para os cavalos.

A fazenda do Leitão é um ponto bastante utilizado como partida para cavalgadas como a nossa e o homem é hospitaleiro. Tratamos dos cavalos, demos uma boa ducha, examinei o montrongo, ele estava bem, a não ser por pequeno edema próximo a cernelha. Não gostei. Talvez o peso da tralha, má distribuição de peso, não sei.

Soltamos os cavalos em um piquetão de coast cross. Fomos dormir, não antes de comer um sanduíche e uma maçã e tomar um banho (frio) e comentar que nas contas do Leitão não tinha sido 30 quilômetros que andamos mais sim 40, estava explicado porque o atraso de uma hora. Se a idéia era dormir, esqueceram de avisar aos pernilongos, os ditos adoram Off (o repelente que levamos).

Cinco horas de pé. Recolhemos os cavalos, passamos a ração, dei uma boa escovadela, fomos ao café, banho, arrumação das tralhas. Dei feno da fazenda para Akbar. O edema tinha regredido, teria mais cuidado em arrumar o equipamento.

O retireiro chegou; juntou as vacas, os bezerros berravam: fome e saudade das mães, oh sina!

Leitão acordou, diz ter perdido a hora. Ele e mais dois peões irão juntar um gado no pé da serra. Montou uma mula, e lá se foram, agradecemos a hospitalidade. Essa movimentação toda se deu em duas horas, depois calma, os empregadas da casa chegaram preparam um café.

Oito horas o caminhão chegou, entre os oito cavalos, dois velhos conhecidos meus, o Bobo, estava mais bonito que nunca e a Love, a arabezinha russa que combinou tão bem com a Monique. É isso ai, cavalgada que tem endurista tem trotão e trotão dos bons.

Logo em seguida, chegou a Blazer do Adailton com o resto da comitiva: Adailton, o pai de Monique, Monique a jovenzinha de dez anos que monta mais que muita gente grande, o Eduarzão, nosso velho conhecido de enduros, o Marco Antonio, já o conhecia de outras cavalgadas e o José Carlos e o Edinho, novos parceiros. Todos, mas todos inoculados pelo vírus, todos literalmente apaixonados por cavalos.

Nove e dez da manhã partimos. A primeira lei da cavalgada é que o ritmo da cavalgada é o ritmo do mais lento, mas na saída todos estão bem, e ninguém quer dar sinal de lerdeza, logo o ritmo é bom, eu que normalmente gosto de andar rápido, não me incomodei. Na primeira hora e meia devemos ter feito uns 15 quilômetros, demos a primeira parada, uma represa, com quedas d’água, um balneário. Paula, Monique e Wallace em dois tempos estavam com roupa de banho e embaixo d’água, nós outros em torno da mesa com algumas cervejas. Logo, a maioria foi para a água, estava quente, e preferi a cerveja: gelada e boa.

Tinha soltado Akbar, foi a primeira vez que fiz isso, soltá-lo em uma parada de cavalgada sem cabeçada, sem sela e sem piquete, com o Bobo fazia muito, arrisquei, mas os outros estavam presos, bom para Akbazão.

Voltamos a cavalgada. Neste anos todos organizando enduros tenho conhecido muitos lugares e muitas trilhas, isso me permite ser um bom avaliador de trilhas, distâncias e ritmos e graus de dificuldades, hoje erro muito menos que ontem.
A trilha que fazíamos, sendo estradinha de chão, atalhos em matas, picadas em pastos, é excepcional, sem contar que a região tem muita água. A prejudicar o calor e a umidade, mas muito calor mesmo.

Culpei-me por não ter levado um eletrólito para meu companheiro, mas ele estava íntegro. A cavalgada, para mim, não tinha só a função do lazer, servia, também, para verificar as possibilidades e afinar os comandos e o ritmo preferido do alazão da Kilombo.

Muitas vezes ficava para trás, e depois, a trote ou a canter ultrapassava a todos, algumas vezes tive a companhia de Bobo e Love, sem dúvida me dava prazer sentir como a Pirambal tinha tido bons cavalos. O clima da cavalgada estava tão light e para cima, que um ou outro poderia reclamar destas minhas escapulidas, mas que nada tudo era festa.

À uma hora demos nossa segunda parada. O sol a pino, o corpo fervendo, as orelhas dos cavalos murchas, era hora de uma parada. Bar da Dona Francisca, mais uma represa e um barzinho, o pessoal já tinha pernoitado há pouco tempo neste lugar, assim a relação com Dona Francisca é dez.

Desta vez não conversei: Tirei o arriamento de Akbar e o meu, eu de sunga e ele de cabresto entramos na represa, foi uma farra só. Todos fizeram isso, pena não ter tirado uma foto. Imagina a cena: um bando de marmanjos brincando com seus cavalos, parece coisa de louco, e é, mas cá para nós, o mundo é dos loucos que fazem o que gostam.

Outro dia fui a uma palestre com um Lama e ele disse entre as várias tiradas sábias, que deveríamos superar o “gosto e não gosto” e sim aproveitar o todo, ele está certo viver o todo em tudo e estava eu, e nós todos, em um momento impar de comungar nossos sentimentos de felicidades com a natureza, em plena harmonia. Pedimos um aipim com carne seca, uma comidinha light, né?

Bom, estava cansado, afinal, não tinha dormido. Forrei o chão para tirar uma soneca e de repente ouvi um certo alvoroço, tinham colocado um par de velas do meu lados. Vade retro, levantei rapidinho.

Montamos, a trilha não estava decepcionando, mudou o visual, e isso é um critério que sempre usei: a variação da paisagem cansa menos, estimula o interesse. Pois bem entramos no sobe e desce de serras e morros. Além de ser a parte mais difícil do percurso, foi também a mais longa. Em algum momento o pessoal que conhecia o atalho se confundiu e tivemos um acréscimo de cerca de 15 quilômetros, ninguém se aborreceu por isso, talvez os cavalos tivessem pensado e “sou eu quem paga pato!” Fora isso, entre uma pergunta e outra fomos chegando.

Chegamos a uma bifurcação, tinha uma birosca, Já eram quatro horas da tarde, descemos, alguns beberam cerveja, eu e outros fomos de água gelada. Recarreguei minhas garrafinhas. Já era a quarta recarga desde que saímos, o calor não ajudava.

Adailton propôs ao peão que estava com uma mulinha na porteira: Vinte reais para ele nos levar até o caminho certo. “Não moço, é muito longe”. Adailton aumentou para trinta de trinta a quarenta de quarenta mais a espora e o peão nada “é muito longe, vocês vão virar a esquerda, depois a direita a partir daí sempre a direita”, já tínhamos ouvido algo igual.

Montamos, o peão ficou com pena de nós e veio junto, nos mostrou a saída e não aceitou nada, quanto muito nossos agradecimentos.

Eram seis horas da tarde quando chegamos a Jabuiba, ainda faltavam 16 quilômetros para o Faraó de Cima, Atravessamos a estrada e contornamos a cidade, no meio do caminho me lembrei que não levei fé que ia chover, pois me enganei a chuva veio, todos colocaram suas capas e eu malandro velho fiquei ensopado.
Foi chuva de hora e meia, passamos pela Desempenho, pensei em dar um abraço no Bjarke, mas estava ensopado. Mais uns dois quilômetros a frente entramos em um sítio onde o cavalo do Adailton ficaria, é garanhão, e garanhão tem seus problemas. O Voltares convidou o pessoal para conhecer o alambique (eu só chamava o homem de Voltarem), falei entre dentes “estou molhado” ninguém ouviu e seria o primeiro stress, me toquei, o errado estava eu, quem esqueceu a capa como um principiante fui eu, engoli o meu inicio de irritação e desci, acho que Paula sentiu o meu desconforto e deu voz de comando, provamos a “mardita” do alambique e fomos embora.

Enfim chegamos, cuidamos dos cavalos, não demos ração, soltamos em um piquetão. O resto foi farra. Eu, depois de um bom prato de massas e uma taça de vinho, dormi o sono dos justos, o pessoal ficou acordado até mais tarde. Cinco horas da manhã, não conversei, toquei a alvorada entre uma reclamação e outra e muita brincadeira acordamos todos.

Saímos eu e Adailton para comprar pão, o Padeiro só passava as sete horas, não conversei entrei no Rio, tomei um banho (água corrente e gelada), fiz a barba, tomei um coco gelado e um café quente estava pronto para outra.

A comunidade de Cachoeiras de Macacu tem uma grande virtude: cuida da natureza, sabe que é dela e do turismo ecológico que depende o futuro do município e graças a isso o meu banho foi fantástico.

Oito horas. Nem o estado espetacular em que Akbar estava foi capaz de mudar o meu planejamento. Andamos entre sexta e sábado cerca de 115 quilômetros. Tinha sido muito bom, até melhor que pensei.

Fui embora, eu e Marco Antonio, os outros continuaram para o trecho final de mais 15 quilômetros, eles e mais quinhentos cavaleiros.

Valeu!

Júlio Villas Boas, diretor de enduro do Rio de Janeiro, endurista e orgnizador