Opinião
Perspectivas
do Enduro Eqüestre
por
Júlio Villas Boas
“Verificar as perspectivas para o enduro eqüestre
implica em olhar no retrovisor e parafrasear o Nando Reis, “nada
como olhar para trás e admirar a vida que construímos,
nada como olhar para frente porque tudo é tão
diferente”. O enduro eqüestre no Brasil evoluiu
de uma maneira muito rápida, de uma fase inicial marcada
pelo esporte de lazer, com grandes provas nacionais, em que
a marca principal era a festa e o lazer, para um patamar cada
vez mais técnico com maior exigência em qualidade.
A despeito da crise econômica, que retraiu consideravelmente
o número de participantes nas provas, podemos considerar
que o esporte continua em franco crescimento. Exemplo é Brasília.
A partir do competente trabalho do Fernando Gonçalves,
casando o esporte com um forte patrocinador, o BRB, fez do
enduro o esporte da moda na Capital e o trabalho desbravador
da Verdes Eventos, organizando o enduro na Bahia, em Mato Grosso
de Sul, Mato Grosso, sem contar Santa Catarina que através
da LAHIR vem organizando provas bastante concorridas.
As perspectivas são que o esporte se consolide com
um formato de fortes campeonatos regionais, com categorias
de fomento e, principalmente, categorias de velocidade livre,
ancorados e combinados com um calendário de provas nacionais
e internacionais válidas para o ranking da CBH. A premiação
em espécie ou brindes de valor começa, também,
a demarcar esse novo tempo.
Temos hoje muitos mais enduristas, muito mais cavalos e, principalmente,
mais técnica e qualidade. Pela primeira vez no Brasil
batemos a marca de 18 Km/h de velocidade média em provas
de 160 Km, e a tendência é estabelecer esta marca
como referência. Termos mais conjuntos preparados tecnicamente
implica em mais provas de qualidade e mais provas de fomento
para que surjam novos cavaleiros. Nesta direção, é interessante
acompanhar o desenvolvimento da modalidade “Derby”,
em Minas Gerais, pois pode vir a reforçar esta tendência
de provas de qualidade técnica em velocidade livre ao
mesmo tempo em que fomenta o esporte.
Outra consideração importante é o mercado
de cavalo de enduro que vem se fortalecendo como conseqüência
do amadurecimento do esporte. O recorde do leilão de
um tradicional criatório de PSA não foi de um
dos muitos animais de pista oferecidos e sim de um cavalo castrado,
de sela, campeão de enduro, Epopeu Rach. Um fator determinante
para o fortalecimento deste mercado foi a decisão que
as equipes nacionais sejam formadas por cavalos nacionais,
e os resultados internacionais têm demonstrado o acerto
desta decisão. Hoje, muitos criatórios têm
como apelo de marketing o resultado de seus animais em provas
de enduro. A ABCCA estabeleceu que durante a Exposição
Nacional de Cavalos Árabes terá uma prova de
enduro, com a qualidade exigida de uma prova internacional
e com farta premiação.
Outro aspecto a ressaltar é que ultrapassamos a fase
de formação das equipes nacionais considerando
a possibilidade dos poucos cavaleiros e amazonas em condições
de participar, para um processo seletivo que envolve um número
considerável de cavaleiros. Em 2003, a seleção
para formação da equipe de Young Riders mobilizou
mais de quarentas jovens e agora, para a seleção
da equipe de adultos já são mais de cinqüenta
que preenchem as condições de participarem da
equipe.
No Mundial de Young Riders, a equipe foi formada por critérios
objetivos: os melhores do ranking. E deram show na Itália!
Os seis jovens cavaleiros conquistaram um feito inédito
e não conseguiram mais por erro na equipe de apoio que
contabilizou mal o tempo dos concorrentes, elegendo os belgas
como concorrentes diretos quando, na verdade, os adversários
verdadeiros foram os árabes, deixando escapar a primeira
medalha internacional, mas trouxeram o primeiro “Best
Condition” internacional, com uma égua PSA nascida,
criada e treinada no Brasil.
A perspectiva que o processo de formação das
equipes nacionais para a disputa de provas internacionais passe
a ser o grande objetivo dos enduristas, sendo o ranking a referencia
para esta seleção, nos remete uma questão
crucial. “O esporte tem planejamento estratégico?” Sim,
porque esse processo de crescimento e consolidação
do esporte em um novo patamar poderia se dar de forma mais
rápida se houvesse de maneira explicitada um projeto
estratégico. Alguns enduristas falam em um simpósio,
um encontro de enduristas, mas, ainda, é uma preocupação
que não é majoritária. Essa visão
estratégica deveria contemplar a relação
do esporte com a mídia e enfrentar a relutância
dos patrocinadores em apoiar um esporte voltado para si mesmo.
O desafio é dar organicidade a esse processo de crescimento,
estabelecendo a partir de uma visão estratégica
a base para que ele aconteça com mais conseqüência.
A nossa relação com a estrutura oficial do esporte
hípico nacional é marcada por altos e baixos.
A perspectiva de criação de Federações
de Enduro Eqüestre em cada estado, ligadas diretamente à CBH,
ganha espaço entre os enduristas e pode ser uma solução
para alavancar o esporte.
As perspectivas do enduro são altamente promissoras,
mas com uma séries de questões não resolvidas
e por ser um esporte novo no País é natural que
assim seja. |