Henrique
Garcia: uma vida dedicada aos cavalos
"Tudo
começou com Bodolay. Foi o cavalo que me classificou
para o 1º mundial da minha vida. Ele quem ganhou prova
de 160 Km comigo no Brasil e fez o Centro de Treinamento, antes
de eu me formar, ser alguma coisa. Eu diria que minha vida dentro
do enduro devo a ele...um cavalo que nunca terá nada
igual.
Ele marcou minha vida e marcou o enduro"
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Corre
para lá...Corre para cá...E pega um cavalo que está
chegando, daqui a pouco já vem outro na seqüência
e assim vai...
Quem já não viu por inúmeras vezes essa cena
que faz parte da rotina do veterinário Henrique Garcia
nas provas de enduro. Um profissional que tem muitas histórias
para contar e muitas experiências vividas. Na vida do enduro,
inúmeras foram as suas trilhas e que não se resumem
apenas em colocar o estetoscópio no cavalo ou diagnosticar
uma manqueira ou outra.
Ele vem da Fazenda do Café, da montaria em cavalos mangalarga,
do hipismo rural e quem iria imaginar que das provas de planilha!!!!
Quando criança, Henrique vivia na Fazenda da família
de sua mãe, que tinha fazenda de café no norte do
Paraná e também passava parte de seu tempo na fazenda
da família na região de Amparo.
Como seus tios eram criadores de cavalos mangalarga, ele iniciou
sua montaria com essa raça. Fez muitas provas de hipismo
rural e nisso seguiu até chegar no enduro em 1990 “O
enduro chegou ao Brasil em 1989, mas foi em 90 que tive meu primeiro
contato em uma prova de planilha e logo depois já fiz uma
prova de regularidade em Serra Negra. Fiz e gostei! Meu pai adorou!!!E
nunca mais parei”, conta ele.
Na seqüência,
Henrique iniciou nas provas de velocidade livre e inclusive ganhou
provas de longa distância. Há quem pergunte, quem
treinava seus cavalos? Bingo quem respondeu, ele mesmo! Mesmo
jovem e sem formação veterinária, o dom para
tal já começava ganhar espaço.
Henrique fez parte da equipe brasileira, participou de três
mundiais, dois panamericanos e foi campeão de um Campeonato
Brasileiro.
Na verdade, a veterinária em sua vida foi uma conseqüência
do cavalo “Eu fiz veterinária para trabalhar com
cavalos, mas a experiência veio antes. Sempre montei, comecei
no enduro e nunca mais parei”. Estar no meio para ele não
foi complicado porque a vivência com os cavalos já
vinha de anos.
Ele também investiu seu conhecimento em cursos e trabalhos
no exterior. Em 1996 foi para Inglaterra e por lá ficou
um período trabalhando com cavalos, quando conheceu o veterinário
português José Prazeres e também teve oportunidade
de trabalhar por um tempo com ele. Voltou ao Brasil fazendo veterinária
e teve sua faculdade trancada por um ano e meio, quando foi para
os EUA fazer especialização em Casco, Ferrageamento
e Locomotor. Além da especialização, Henrique
também trabalhava como ferrador.
Voltou ao Brasil e por fim terminou sua faculdade de veterinária.
Mas as viagens não pararam por aí “Fiz meu
estágio obrigatório na Alemanha e tive a oportunidade
fazer a residência também lá. Minhas experiências
foram em um hospital voltado para Cirurgia e Medicina Esportiva.
Na Alemanha eu trabalhei por 6 meses”.
Da Alemanha, Henrique teve uma passagem rápida pelo Brasil
e já seguiu para os Emirados Árabes Unidos, onde
ficou trabalhando por cinco meses. Quando ele voltou ao Brasil,
o Centro de Treinamento Marechal já estava funcionando
e tudo se desenrolou muito bem.
Mesmo com todos os méritos que o profissional tem com sua
experiência, é fato que uma pessoa também
contribuiu muito para somar nesse sucesso “Meu pai me deu
um empurrão muito grande e irei agradecer isso para o resto
da minha vida. Ele foi uma pessoa que fez muito pelo enduro, como
muitos também já fizeram, e enquanto esteve na Confederação
Brasileira de Hipismo (CBH) tinha a confiança do filho.
Em pouco tempo eu mostrei ser competente para o trabalho ao qual
ele me confiava. Mesmo ele saindo da CBH, a convocação
para estar presente na equipe técnica foi sempre continua”.
Atualmente Henrique tem alguns centros de treinamento de enduro
aos quais dá apoio. Uma das primeiras coisas que observa
quando vai para um centro de treinamento de fora é a equipe.
Ele tenta contribuir na formação dessa equipe, de
maneira que nas provas seja realizado um bom trabalho e a equipe
se consolide muito boa “Eu faço o possível
para dar assistência a todos os cavalos, apesar de ser difícil.
Normalmente os cavalos de longa distância pedem mais de
minha atenção na prova, mas um acompanhamento sempre
vou fazendo de todos”.
A equipe que Henrique tem hoje é muito bem formada e quem
comanda é o Vilson Nunes Soares. A boa comunicação
que existe entre os profissionais resulta também em boas
estratégias nas provas “Durante uma prova acabo conseguindo
estar no lugar certo e na hora certa e isso devido a equipe que
tenho. Só não pode ter medo de colocar o pé
no barro né, porque no enduro se trabalha assim, molhando,
correndo”.
Apesar da correria do dia-a-dia, Henrique aprendeu a dividir seu
tempo também com a família “Eu tenho uma esposa
maravilhosa e como ela também é veterinária,
muitas vezes fica mais fácil entender algumas situações.
Ainda assim, hoje consigo organizar mais meu tempo com ela e minha
filha”, ele ainda comenta que seu lazer se misturou a trabalho,
já que estar com cavalo também é prazer para
ele.
Cavalo para Henrique não significa apenas enduro. Hoje
seu mercado vai além disso e faz parte de suas atividades
o cavalo quarto de milha, tambor, baliza, redia, apartação,
corrida, além de ultrasson, raio x, diagnóstico,
cirurgia. Certamente, um vasto currículo com um profissional
incansável na busca pelo melhor.
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Realmente
são muitas as experiências de Henrique Garcia. Mas existem
algumas opiniões e vivências do profissional que não
podem ser esquecidas ou omitidas. Veja abaixo, na integra, um trecho
da entrevista do Site Endurance Brasil com ele:
O enduro hoje e amanhã?
Acho que vem existindo uma elitização muito grande do
esporte. O enduro está muito forte quando se pensa em nível
do esporte, qualidade de cavalos, de técnicos e de cavaleiros
de ponta. Mas a base do enduro não pode ser esquecida. Embora
eu faça parte dessa elite, penso que não podemos esquecer
nunca da base. Existe um trabalho novo que vem sendo desenvolvido, mas
acho que os olhos ainda devem se voltar mais para esses que irão
levar o número de enduristas e cavalos de ponta a crescer. O
enduro vem diminuindo de números e isso me deixa apreensivo,
porque não podemos viver apenas dos que hoje fazem parte do alto
nível, esse número é muito pouco. Estamos crescendo
na qualidade, mas esquecendo a base.
A qualidade do enduro eqüestre brasileiro?
Com certeza, a qualidade do enduro top do Brasil é um dos melhores
do mundo. É só analisar os resultados que vem tendo lá
fora. Demoramos em acreditar na gente, mas se mantermos essa cabeça
de que somos bons e de que sabemos e vamos para fora para fazer o que
sabemos, sempre teremos resultados bons.
Temos que valorizar o Brasil. Sair com cavalo daqui e ganhar lá,
porque temos capacidade para isso e não precisamos de mais ninguém,
porque hoje sabemos!
E
a Malásia?
Eu espero da Malásia um resultado muito bom. Temos cavalos que
podem correr forte. Já tivemos outras vezes, mas pela primeira
vez conseguimos reunir esses cavalos. Acho que os cavaleiros devem ter
na cabeça que eles podem correr forte e que nós brasileiros
acreditamos que se eles forem e correrem, terão uma chance muito
grande, além da equipe toda estar trabalhando com essa filosofia,
aproveitando esta oportunidade. Hoje o Brasil acredita que podemos correr
e que temos condições de igualdade com os enduristas do
mundo que estarão na Malásia.
É a melhor oportunidade para termos um mundial bom e chegar entre
os melhores do mundo, tanto individual, quanto por equipe. Isso foi
provado no Try Out em novembro de 2007.
O
4º lugar de Vitória Lins no Try Out da Malásia?
Esse resultado foi uma conquista de um trabalho de alguns anos dentro
da Fazenda Paciência. Para mim, uma conquista pessoal. Sou competitivo
e nunca treinei cavalo para ficar em segundo, às vezes fica,
porque trabalhamos sempre respeitando o cavalo. Sempre soubemos que
o Brasil tem capacidade para andar entre os melhores do mundo e essa
conquista mostrou isso. Foi um passo para um sonho, que é de
ter um campeão mundial. Foi um passo enorme para mim, Nick Lins,
Vitória Lins e para o enduro brasileiro. Acho que esse resultado
mostrou que estamos perto de ser campeão mundial. Mesmo que não
seja agora, está perto. Somos capazes!
Um
cavalo?
Bodolay. Começamos tudo com ele. Era um cavalo da Cida Gazola
e que meu pai comprou em 92/ 93 para minha irmã. Fez provas de
graduado, depois foi para velocidade livre e sempre teve resultados
bons. Foi o cavalo que me classificou para o 1º mundial da minha
vida. Ele quem ganhou prova de 160 Km comigo no Brasil e fez o Centro
de Treinamento, antes de eu me formar, ser alguma coisa.
Foi um cavalo que participou de três mundiais e o primeiro cavalo
brasileiro a ir para o deserto. Um cavalo da velha guarda que correu
a 20 km/h por hora depois de velho.
Eu diria que
minha vida dentro do enduro devo a ele...um cavalo que nunca terá
nada igual.
Ele morreu correndo e era eu quem estava montando nele. Bodolay morreu
no auge, com 21 anos. Ele marcou minha vida e marcou o enduro.
Foi para Dubai com 20 anos e foi top 10 em prova forte lá. Quando
estávamos começando ele foi bom e quando precisamos dele
no enduro moderno continuou sendo bom. Acho que não tem como
falar do enduro brasileiro sem falar em Bodolay.
Um
ídolo no enduro hoje?
Muitos são especiais, não tem como falar um. Já
vi muita gente fazendo prova e dessa geração nova eu acho
que o André Vidiz vem sendo um exemplo, porque ele está
vendo o quanto o enduro está se profissionalizando e ele está
seguindo isso. Tive também a felicidade de trabalhar com minha
irmã, que é uma pessoa que posso confiar. A Lika, da época
que eu competia, é uma pessoa que antes do enduro virar tudo
isso que é hoje, ela já era profissional. Tive ela como
espelho e ela fez uma escola. Inclusive eu acho que o enduro perdeu
muito quando perdeu ela. O Vilson também um ídolo que
tenho no enduro, é meu braço direito.
Enduro
e CBH?
Acho que o enduro eqüestre e a Confederação Brasileira
de Hipismo (CBH) estão começando a se integrar. Porque
tem que existir um pensamento de futuro e não separatista, que
quando se troca política, volta tudo a estaca zero. Nós
que somos técnicos sabemos que o enduro brasileiro pode alcançar
um lugar alto no mundo, mas é preciso continuidade de trabalho.
Temos que fazer o enduro crescer e com essas mudanças o Brasil
perde muito, perdemos anos com algumas trocas.
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