Técnicas & Veterinária
Antiinflamatórios
Não Esteroidais (AINE’s)
por Marcos
Malacco
Introdução
A Reação Inflamatória é um procedimento normal inerente
do organismo sadio, que visa expulsar agentes invasores ou perturbadores da homeostasia,
a fim de resolver transtornos por eles causados. Entretanto, apesar de normalmente
ser um processo benéfico, a resposta inflamatória pode tomar rumos
incontroláveis, trazendo transtornos severos que podem culminar com a
perda de função do órgão ou tecido afetado. Por esse
motivo, em muitas das oportunidades inflamatórias, temos que lançar
mão das drogas antiinflamatórias, que podem ser esteroidais (corticosteróides)
ou não.
Desde de Hipócrates são conhecidas às
propriedades antiinflamatórias do Álcool Salicílico
extraído da casca do salgueiro. Posteriormente esse
medicamento foi empregado como antifebril. A síntese
laboratorial do Ácido Salicílico ocorreu em
1859 e seu efeito analgésico foi determinado por volta
de 1876, sendo o produto amplamente empregado na reumatologia.
Os efeitos gastrointestinais indesejáveis e o sabor
amargo da substância levaram a pesquisa de novos produtos
desse grupo.
O Ácido Acetil Salicílico (AAS) foi primeiramente
sintetizado laboratorialmente em 1897, através da
acetilação do ácido salicílico,
recebendo o nome de Aspirina. Posteriormente foram demonstradas
as qualidades analgésicas e antipiréticas da
substância.
Após a segunda grande guerra foi sintetizada a Fenilbutazona,
sendo posteriormente comercializada (1952) com o nome de
Butazolidina, que possuía poderosos efeitos antiinflamatórios.
A partir daí muitos outros medicamentos do Grupo dos
AINE’S foram produzidos.
Portanto os AINE’s a muito são empregados preventiva
ou terapeuticamente na clínica e cirurgia médica
e veterinária devido à suas propriedade antiinflamatórias,
analgésicas e antipiréticas. Entretanto também
possuem efeitos indesejáveis e seu emprego deve ser
criterioso e racional, após a avaliação
de suas propriedades farmacológicas, a fim de se aproveitar
ao máximo os efeitos desejáveis e minimizar
os efeitos indesejáveis.
Características Gerais
Os AINE’S possuem ação periférica (antiinflamatória,
analgésica, antitrombótica e antiendotóxicas) e sobre
o SNC (antipirética e analgésica). Tais ações devem-se
em parte a atividade inibitória que tais substâncias possuem sobre
as enzimas que degradam o ácido araquidônico, a Lipoxigenase e
a Cicloxigenase. A ação dessas enzimas culmina com a produção
dos Eicosanóides (Leucotrienos, Prostaglandinas e Tromboxanos) nos processos
inflamatórios agudos, o que leva a reações vasculares
traduzidas pela congestão e exsudação no foco inflamatório.
De maneira geral os AINE’S possuem maior ação
analgésica sobre a dor somática que a visceral,
embora tal ação seja menor que aquela demonstrada
pela morfina, entretanto não levam a dependência
química e a tolerância. Portanto a eficácia
da maioria dos AINE’S no controle da dor está associada à inibição
da produção de eicosanóides. Alguns
dos AINE’S também agem inibindo a ação
da Bradicinina, uma cinina plasmática presente no
processo inflamatório responsável pela potencialização
da dor e por vasodilatação.
É muito importante o bom conhecimento da farmacocinética
e farmacodinâmica das drogas em Medicina Veterinária,
uma vez que ocorrem diferenças significativas na meia-vida
das drogas entre as espécies animais devido a diferenças
nas vias de biotransformação e outras características.
Doenças renais e hepáticas, idade (jovens com
sistema enzimático hepático ainda imaturo,
velhos com deficiências renais e hepáticas),
dentre outros fatores, também influenciam na eficácia
da dose administrada.
Os AINE’S ligam-se fortemente a proteínas
plasmáticas após a absorção,
permanecendo no plasma e fluidos extracelulares, especialmente
por se mostrarem ionizados em sua maior parte. Como em sua
maioria são ácidos fracos, apresentam alta
afinidade pelo foco inflamatório devido ao baixo pH
nesses pontos o que favorece a altas concentrações
dessas drogas (AINE’S). Devido ainda a sua acidez,
os AINE’S são mais facilmente excretados em
urina básica (herbívoros) e essa característica é importante
nos casos de intoxicações por essas drogas
quando a administração de substâncias
alcalinas, como o Bicarbonato de Sódio, favorece a
excreção.
O que irá diferenciar os AINE’S no que
se refere à potência de inibição da inflamação,
dor e febre são suas características inibitórias sobre
determinadas enzimas, a sua biodisponibilidade, biotransformação
e eliminação do organismo nas diferentes espécies animais.
Um importante conhecimento em relação ao potencial antiinflamatório
dos AINE’S é que drogas com potencial inibitório seletivo
apenas para uma das vias do processo inflamatório (Via Cicloxigenase,
por exemplo) podem desviar o catabolismo do Ácido Araquidônico
para a Via da Lipoxigenase o que favorece a síntese de Leucotrienos
e a perpetuação do processo inflamatório.
A maioria dos AINE’S existentes no mercado inibem
seletivamente a Cicloxigenase, existem ainda aqueles que
inibem seletivamente a Via da Lipoxigenase (muito pouco empregados)
e aqueles que inibem tanto a Via da Cicloxigenase quanto
a Via da Lipoxigenase (AINE de Dupla Ação).
Também existem aquelas substâncias seletivas
contra a formação de Tromboxanos, removedores
de Radicais Livres, antioxidantes (agem contra a formação
de radicais livres), etc.
Atualmente é de conhecimento da ocorrência
de dois tipos de Cicloxigenase: COX-1 (cilcoxigenase 1) e
COX-2 (cilcoxigenase 2). Os produtos resultantes da ação
da COX-1 são Prostaglandinas relacionadas a reações
fisiológicas naturais (renais e gastrointestinais);
enquanto que os produtos resultantes da ação
da COX-2 estão envolvidos nos processos inflamatórios.
Sabe-se que a maioria dos antiinflamatórios atualmente
comercializados inibem tanto a COX-1 quanto a COX-2 em graus
diferentes, mas infelizmente a COX-1 em detrimento a COX-2,
levando a efeitos colaterais diversos como gastrites difusas,
erosões gástricas, úlceras, gastroenterite
hemorrágica fatal, falhas renais agudas ou crônicas,
nefrites.
Esses efeitos colaterais ocorrem devido à inibição
da síntese de algumas Prostaglandinas, principalmente
a PGE2 e PGI2, que normalmente possuem ação
vasodilatadora renal, estando também relacionadas à liberação
da Renina e na transferência de eletrólitos.
Portanto a inibição das PGE2 e PGI2 leva a
diminuição do fluxo sangüíneo renal
e na filtração glomerular, havendo transtornos
no metabolismo hídrico e desbalanço dos íons
sódio e potássio, com graves danos renais e
problemas orgânicos verificados nos caos de intoxicações.
Ainda a PGE2 proporciona um sistema de tamponamento pelo
bicarbonato a nível gástrico, que atenua o
efeito corrosivo do ácido clorídrico presente
no suco gástrico sobre a mucosa do estômago.
Outro possível efeito seria o acúmulo dos AINE’S
nas células gástricas levando a morte celular.
A ação anti-tromboxanos leva a sangramentos,
já que a agregação plaquetária
e a coagulação estarão comprometidas.
A ocorrência de feitos colaterais se agrava em caso
de emprego conjunto com corticosteróides.
Assim em um antiinflamatório ideal devem-se estar
associadas à alta potência e a ausência
ou a minimização dos efeitos colaterais indesejáveis.
Classificação e Principais AINE’S Empregados
na Veterinária
1. Derivados do Ácido Enólico
1.1 Pirazolonas
a) Fenilbutazona
Diminui a produção de radicais livres como
os Superperóxidos (ação antioxidante)
e é inibidor irreversível da Cicloxigenase.
Tem sido empregada em equinos desde a década de 50
em inflamações ósseas e de articulações,
laminites, cólicas e afecções de tecidos
moles devido ao baixo custo. Tem baixa margem de segurança.
A meia-vida é de 3 a 8 horas para os equinos e os
cães e em bovinos chega a 37 horas. Entretanto a duração
dos efeitos farmacológicos é de 8 a 12 horas
nos equinos. Leva a ulcerações gastrointestinais
severas, discrasias sangüíneas, hepatotoxicidade
e nefropatias. Ao ser administrada por via endovenosa cuidado
especial deve ser dado para não ser aplicada perivascularmente,
pois causa flebites e necroses. A via intramuscular deve
ser evitado devido à intensa dor provocada. A dose
recomendada é de:
- Bovinos: 1,5 mg/kg, im.
- Equinos: 4,5 mg/kg em dose de ataque e 2,0 mg/kg, iv, 12/12
horas
- Pôneis: 2,2 mg/kg p.v., iv., 12/12 horas.
b) Dipirona ou Metamizol
Tem propriedades antipiréticas e analgésicas, porém com
fraca ação antiinflamatória (baixa ligação
a proteínas plasmáticas e conseqüentemente baixas concentrações
no foco inflamatório). É eficaz no alívio da dor entre
leve e moderada, porém tem curta duração. Em equinos tem
sido empregada junto a antiespasmódicos na terapia das cólicas.
Efeitos colaterais incluem agranulocitose, leucopenia e convulsões.
A administração intramuscular pode provocar reação
local e abscessos. Não deve ser empregada em animais que se destinem
ao consumo humano. A dose indicada para equinos é de 5 a 10 gramas/kg
p.v., im. Ou iv. lentamente, 12/12 horas.
2. Salicilatos
a) Ácido Acetil Salicílico (AAS ou Aspirina)
Possui atividades antiinflamatórias, analgésicas
e antipirética, além de inibir a agregação
plaquetária. Não atua sobre a produção
de superperóxidos, atuando apenas sobre a dor induzida
pela liberação de prostaglandinas (inibe a
síntese de prostaglandinas a partir da PGH2). Em doses
bem elevadas também pode atuar inibindo a via da lipoxigenase.
Ao contrário dos outros AINE’S não se
liga tão fortemente a proteínas plasmáticas,
sendo bem absorvido pelo trato GI e possuindo meia-vida plasmática
bastante distinta segundo a espécie animal (equinos:
1 hora; cães: 8 horas; gatos: 38 horas; homem: 5 horas).
Seu emprego pode ser recomendado apenas em casos de dores
leves ou moderadas. Em equinos pode ser empregado nos casos
de uveítes, na prevenção de tromboses,
nos casos de moléstias naviculares, laminites e doença
vascular disseminada. Entretanto, além de seu poder
analgésico limitado, altas doses podem produzir Acidose
Metabólica. Também devido a seu efeito contra
a agregação plaquetária pode levar ao
aumento do tempo de sangramento. Ainda é empregado
em Medicina Veterinária, especialmente de pequenos
animais, devido ao seu baixo custo. Dentre as espécies
animais mais susceptíveis a intoxicações
encontra-se os gatos, pois possuem baixas concentrações
da enzima glicoronil-transferase necessária para a
conjugação do ácido glicurônico,
um metabólito do AAS no organismo.
3. Ácidos Acéticos - Diclofenaco
Possui Dupla Ação tendo alta potência antiinflamatória
e analgésica. É menos ulcerogênico que o AAS e a Indometacina
nas doses antiinflamatórias. A dose recomendada para bovinos e bubalinos é de
1 mg/kg de peso vivo. Possui forte ação ulcerogênica e
pode causar grave gastroenterite hemorrágica em algumas espécies
como a canina, devido ao forte efeito depressor sobre a COX-1. Em Veterinária
pode ser encontrado especialmente associado a antibióticos em produtos
comerciais.
4. Ácidos Propiônicos - Ketoprofeno ou Cetoprofeno
(KETOFEN MERIAL)
Inibidor de Dupla Ação, bloqueando a formação de
Prostaglandinas, Tromboxanos e Leucotrienos, levando ao bloqueio das respostas
vasculares e celulares da inflamação. Além disso, antagoniza
a ação da Bradicinina e possui ação estabilizadora
de membranas. É o derivado mais potente e seguro do grupo do ácido
propiônico. Estudos demonstram que sua potência antiinflamatória é cerca
de mais de 80 vezes, a antipirética é cerca de 20 vezes e a analgésica
entre 50 e 100 vezes a da fenilbutazona (substância que é o marco “zero” quando
comparamos a potência dos AINE’S). Como antipirético tem
ação mais duradoura que o Flunixin Meglumine. Atua rapidamente
na obtenção de analgesia e na redução de edemas
inflamatórios.
A dose indicada é de:
- Bovinos: 3 mg/kg p.v., im., a cada 24 horas
- Eqüinos: 2 mg/kg p.v., iv. Ou im. a cada 24 horas. Em cólicas
2 mg/kg p.v., iv em dose única.
5. Ácidos Aminonicotínicos - Flunixin Meglumine
Possui ações analgésicas, antiinflamatórias e antipiréticas,
porém menos potente que o Ketoprofeno. Inibe a formação
de prostaglandinas e tromboxanos, pois age sobre a via da Cicloxigenase. Possui
cerca de 4 vezes a ação antiinflamatória que a fenilbutazona.
Aparentemente não possui a mesma potência analgésica quando
aplicado endovenosamente e por essa via pode ocasionar ataxia e incoordenação.
Pode determinar e transtornos gastrointestinais severos quando empregado por
mais de 2 a 3 dias consecutivos. As doses recomendadas são:
- Bovinos: 2,2 mg/kg p.v., im. ou iv., 24/24 horas
- Eqüinos: 1,1 mg/kg p.v., im., iv. Ou oral, 24/24 horas
6. Oxicans – Dimetilsulfóxido (DMSO)
É antiinflamatório de uso tópico em equinos e caninos para
redução de edema e inflamações em lesões traumáticas
ou otites. Em equinos pode ser empregado por via intracraniana para redução
de edema cerebral. Funciona eliminando radicais livres formados no processo inflamatório,
além de possuir ação estabilizadora de membrana, elevar
o fluxo sangüíneo e facilitar a absorção de drogas
empregadas topicamente. Pode determinar edema, eritema, desidratação,
alopecia no ponto de aplicação tópica, além de prurido
e hipotensão. É teratogênico não podendo ser empregado
em animais no terço inicial da gestação. Não pode
ser empregado em animais que se destinem ao consumo humano. Não deve ser
associado a anestésicos, a agentes organofosforados e carbamatos. Ao ser
manipulado, exige o emprego de luvas.
Dr. Marcos Malacco
Gerente Técnico
Merial Saúde Animal Ltda