Técnicas
& Veterinárias
Bridão,
freio ou hackamore?
por
Jorge Guenka e Antônio Carlos Oliveira Freitas
Cada
cavalo é um ser único! Não existe
receita de bolo para resolver problemas advindos da doma
e do manejo diário errôneo. Tudo depende
de observação, conhecimento, vivência,
sensibilidade e, por vezes, o princípio da tentativa
e erro é o melhor caminho para amenizar ou, mesmo,
solucionar pequenos problemas diários que se tornam
fatores decisivos durante uma prova.
No
correr da doma, o cavaleiro vive o dilema da embocadura;
doma com um bridão pesado, acerta a boca com um
bridão mais leve e enfrena com um freio simples,
não necessariamente nessa ordem, pois existem infinitas
formas de doma e delas advém todo tipo de trauma
e vício. Da minha tenra e distante infância,
lembro dos potros que eram domados com o queixo atado,
onde o domador tirava uma fita de couro cru (o bocal),
sovava na madeira, e depois de bem macio o couro era atado,
ou seja era passado várias vezes ao redor da mandíbula
inferior do animal; na parte debaixo do queixo ficavam
duas argolas onde se fixavam as rédeas.
Não
estou falando aqui de “quebrar de baixo” ou
“quebrar o queixo”, que era o ato de dar um
estirão de laço na boca do cavalo, isso
foi abolido há muitas décadas, bem antes
da minha infância, pela maioria dos domadores. Mas
de qualquer forma refiro-me a uma doma que ainda era bruta,
mas sem nenhum risco de se cortar o assento da boca do
cavalo. Quando chegava a hora de enfrenar o bicho, era
sempre usado um freio simples, que era colocado na boca
do cavalo uns dias antes para ele “mascar”
e se acostumar com o gosto estranho do ferro. Quando chegava
nessa fase da doma o cavalo já estava adiantado
no trabalho, era como dar o último polimento no
diamante lapidado. Tenho procurado em minhas lembranças,
e não encontro, registro de cavalos problemáticos
oriundos dessas domas: talvez por lapso de memória,
não lembro de nenhum caso.
É
bem verdade que com o advento das domas racionais, fomos
tomando consciência de problemas que eram tratados
como acidentes de percurso durante a doma tradicional.
No meu parco entendimento, acredito que muitos domadores
mesclaram essas duas domas, a tradicional e a racional,
e dali tiraram uma espécie de estilo próprio
para cada um, e nós, usuários de cavalos,
acabamos tendo que decidir com qual desses alquimistas
vamos acabar por entregar nossos companheiros de lazer
e aventuras.
No enduro apenas alguns poucos afortunados podem domar
e treinar diariamente seus cavalos, a grande maioria de
nós não dispõe desse tempo precioso,
pois labutamos em outras frentes menos prazerosas e mais
rentáveis. Lamentos à parte, todo cavaleiro
deve ter uma idéia básica da forma como
é conduzida a doma do seu cavalo e depois de concluída
essa fase da vida do nosso atleta, temos que, em conjunto
com o domador, decidir a embocadura correta para o cavalo,
nunca esquecendo que o enduro é feito em campo
aberto e não em uma pista cercada e coberta. Talvez
um leitor incauto não veja problemas nesse detalhe,
mas o cavalo tende a se comportar de forma diferente:
dentro do picadeiro ele é um e na trilha normalmente
ele é outro bem diferente, talvez os instintos
falem mais alto quando encontra o campo aberto, talvez
a natureza reacenda dentro dele e o faça correr
em disparada mundo afora.
Em
um cavalo acostumado às trilhas, é normal
vermos que durante a prova eles usam apenas o cabresto
e nada mais, mas um cavalo novo deve ter um limitador,
e é exatamente essa a função da embocadura.
O freio de parada rápida, aquele da perna longa,
é para os cavaleiros mais experientes, com um tato
muito apurado, para não ferir o animal; o freio
bridão, ou simplesmente bridão, é
mais suave, de efeito mais lento, mas qualquer pessoa
pode usar sem medo de machucar seu cavalo; e finalmente
os hackamores, essa invenção secular que
no mundo contemporâneo foi mais usada pelos buckaroo
– vaqueiro da Califórnia – que iniciava
o potro de três anos com o hakamore, evitando assim
qualquer tipo de problema com a muda de dentes e só
enfrenava com uns cinco ou seis anos quando a dentição
do cavalo estava completa, isso evitava de parar a doma
pelo meio.
Posteriormente
o hackamore sofreu algumas alterações, como
por exemplo a introdução de pernas longas,
iguais as dos freios de parada rápida, e com isso
passou a ter força mecânica. O hackamore
moderno é muito usado por enduristas de todo o
mundo, nos mais variados modelos e nos mais diversos tipos
de cavalos. A maior vantagem desse tipo de “embocadura”
é exatamente o fato de a boca do cavalo ficar livre,
facilitando assim beber e comer sem nenhum tipo empecilho.
A
ação dos hackamore em relação
à condução do animal é medida
pelo tamanho das pernas usadas, quanto maior a perna,
maior é a ação. O hackamore moderno
ou mecânico tem um macete para ser usado; a barbela
deve estar quase “arrochada”, pois é
exatamente aí que está o “limitador”
do cavalo. O leigo que usa essa ferramenta pela primeira
vez, e confesso que já fiz isso um dia, tende a
deixar a barbela frouxa, da mesma forma que deixava no
freio ou no bridão. De nada adianta ter e conhecer
todos os tipos de embocaduras, se não sabe porquê,
como e onde usá-las.
No
frigir dos ovos, o que realmente importa é a capacidade
de cada cavaleiro saber interpretar com que tipo de embocadura
o seu cavalo se adapta melhor nas trilhas, tendo sempre
a sensibilidade para adequar as embocaduras à evolução
e ao gosto do seu cavalo.
Jorge
Guenka é carregador de balde da equipe
Rancho Tree.
Antônio Carlos Oliveira Freitas
é General do Exército,
oriundo da arma de Cavalaria, estudioso de atrelagem e
endurista.
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