Técnicas & Veterinária De
cavalo, dado ou comprado, olham-se os dentes!
por Alexandre Archanjo
Já faz algum tempo que os dentes
dos cavalos deixaram de ser avaliados somente quando se queria
saber a idade do animal. Os veterinários especializados
eram escassos e os cursos de especialização
no Brasil, inexistentes. Porém, hoje a Odontologia
Veterinária vem ganhando a importância que sempre
mereceu na saúde e até treinamento dos animais,
sejam eles de esporte ou não. Já existem cursos
de especialização no Brasil, embora quase toda
a tecnologia seja estrangeira e também já existem
profissionais capacitados para qualquer tipo de avaliação
e tratamento dentário.
O cavalo nasce somente com alguns dentes pré-molares
e, no decorrer seu desenvolvimento, os demais dentes vão
erupcionando num processo que continua por toda a vida do
animal.
Um eqüino adulto normal tem os incisivos que se tocam
como torquês, sem sobreposição; arcada
superior mais larga que a inferior, fazendo com que os molares
superiores se posicionem tocando mais lateralmente os molares
inferiores. Não há espaços entre os
dentes, exceto entre os últimos incisivos e os caninos
e entre os caninos e os primeiros pré-molares (espaço
chamado diastema).
A mastigação acontece com excursão
lateral da mandíbula, para um lado de cada vez e,
além disso, a mandíbula tem deslizamento rostro-caudal
(para frente e para trás). O tamanho dos alimentos
fornecidos também é importante, assim como
a quantidade de volumoso e pastagem. Quanto menor o tamanho
dos alimentos maior o risco de problemas dentários,
pois o tempo de mastigação é menor.
Da mesma forma pouco verde na alimentação do
cavalo dificulta do desgaste correto dos dentes, que ocorre
quando os animais se alimentam de plantas que contêm
sílica como as gramíneas.
Problemas dentários podem causar distúrbios
gastrintestinais, cólicas, perda de peso, problemas
de coluna, traumas na mucosa bucal, traumas na língua,
abscessos, fístulas faciais, sinusites, tumores e
queda na performance.O distúrbio no potro recém-nascido
(congênito) mais comum, ainda que seja raro, é a
permanência da fenda palatina, que ocorre quando as
duas lâminas de osso que formam o palato (“céu-da-boca”)
não se fecham. Esse fechamento deve ocorrer ainda
quando o potro está no útero da égua.
Quando isso não ocorre, a cavidade bucal tem comunicação
direta com a cavidade nasal, o que não é incompatível
com a vida, embora possa facilitar a instalação
de doenças fatais, como uma pneumonia por aspiração
do leite para os pulmões durante a mamada.
Os problemas adquiridos ao longo da vida mais comuns são:
de erupção, desgaste anormal e fraturas dos
dentes, incidência dos dentes-de-lobo, problemas de
oclusão. A incidência desses distúrbios
varia de acordo com a idade, condições de manejo
e raça dos animais.
Problemas de erupção podem ocorrer quando
os dentes decíduos (dentes-de-leite), ficam retidos
formando uma cápsula óssea acima do permanente,
impedindo a erupção do mesmo. O desgaste anormal
dos dentes leva à formação de ganchos,
rampas, ondas e cantos. Essas formações dificultam
a o deslizamento da mandíbula durante a mastigação.
O animal tende a mastigar somente para um lado, e tem a digestibilidade
dos alimentos prejudicada, perdendo peso. Além disso,
podem ser formar espículas ósseas (espinhos)
que lesam a mucosa oral e língua.
Dentes-de-lobo é a denominação que
se dão aos primeiros pré-molares no adulto.
Não se deve confundi-los com os caninos, presentes
em todos os machos e em algumas fêmeas. Os primeiros
pré-molares não têm importância
na mastigação, estão localizados à frente
dos dentes esmagadores (aqueles no fundo da boca), e existem
na maioria dos cavalos principalmente na arcada superior.
Tendem a ser grandes nos lusitanos, mas em geral, são
apenas vestígios ósseos, sendo, comumente,
pequenos nos PSI e quarto de milha. O maior problema causado
pelos dentes-de-lobo é a resistência do animal à ação
das rédeas, pois há desconforto quando a embocadura
toca neles.
Os problemas de oclusão mais comuns ocorrem quando
o cavalo não apresenta os incisivos se tocando como
torquês, ou seja, a face cortante dos superiores exatamente
em cima da face cortante dos inferiores. Fraturas de coroa
dentária (parte visível do dente) também
são comuns e podem desencadear um abscesso dentário
e até abscesso facial ou sinusite. Outra fratura comum é a
da mandíbula. Todos esses problemas podem ser resolvidos
por um profissional especializado.
Durante um exame clínico há aspectos importantes
para avaliar a saúde bucal do cavalo. Deve ser observada
a musculatura da cabeça e pescoço, pois quando
o cavalo tem dificuldade de mastigar para um dos lados a
musculatura do outro lado tende a se desenvolver mais que
o outro. A dificuldade na mastigação também
pode ser verificada quando pedaços grandes de fibras
vegetais são encontrados nas fezes. Pode-se ainda
ter desperdício de ração, posto que
o animal com alguma alteração na sua mastigação
e que porventura o esteja machucando acaba por deixar comida
cair de sua boca.
A percussão dos seios paranasais, que ficam nos osso
da face, pode ser útil para diagnóstico de
sinusite de causa dental. Além dos métodos
anteriores de verificação, o mais eficiente é a
visualização e palpação direta
nos dentes.
Para um diagnóstico de qualquer problema é fundamental
a visita de um veterinário especializado. Esse profissional
dispõe de técnica e equipamentos necessários
para a análise e tratamento de qualquer distúrbio
que esteja acometendo os dentes ou a cavidade oral dos eqüinos.
Os profissionais veterinários dispõem de técnicas
de exodontia, endodontia e ortodontia, inclusive com aparelhos
ortodônticos, e podem indicar mudanças de manejo
que previnam ou amenizem os problemas bucais e dentais. Já contam
com uma entidade representativa, a Associação
Brasileira de Odontologia Veterinária (ABOV), e, apesar
de se concentrarem principalmente no eixo Rio – São
Paulo, atendem os animais em propriedades por todo País.
Como se pode perceber, a boca e os dentes são suscetíveis
de sofrer vários problemas, alguns deles graves. Com
o desenvolvimento da Odontologia Veterinária, surgem
tecnologias para manter a saúde bucal dos animais,
e essas devem ser aplicadas de forma rotineira para manter
o eqüino saudável como um todo. Assim, olhar
os dentes e a boca, mesmo de um cavalo ganhado, não é mais
sinal de rudez e sim respeito para com o mesmo. Não
se deve esquecer que é pela boca que se dá o
contato mais íntimo entre cavalo e cavaleiro e através
dela que a montaria se doa por completo aos anseios e caprichos
do ginete.
Alexandre Archanjo Carneiro
Graduando em Medicina Veterinária na Universidade
de Brasília – UnB.
Estagiário no Centro de Treinamento de Enduro Califórnia,
Brasília – DF
Estagiário no Hospital Escola de Grandes Animais da
Universidade de Brasília – UnB
Tel: (61) 9622 4188
E-mail: alex_archanjo@pop.com.br
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