Técnicas & Veterinária
A
DOMA É TUDO
por Jorge
Guenka e Antônio Carlos Oliveira Freitas
Certa vez eu conheci um cavalo. Durante aquele ano ele ganhou
todas as provas de velocidade livre com médias muito
acima dos outros; esse cavalo era um verdadeiro fenômeno,
andando na casa dos 16, 17 km por hora na época em
que as médias ainda engatinhavam nos 13 km por hora
em provas de longa distância. Já quase no final
da temporada de enduro daquele ano, eu descobri o segredo
daquele conjunto: o cavaleiro não conseguia segurar
o cavalo!!! Andando como queria, era um pegasus, tinha asas
ao invés de patas. Infelizmente, como era de se esperar,
no ano seguinte sumiu das trilhas; havia estourado.
Quantos cavalos-fenômenos se perderam em virtude da
falta de conhecimento de rédeas ou de uma equitação
básica de seus cavaleiros? Todos já montaram
ou conheceram algum cavalo de “difícil” equitação;
ou que galopava somente em uma determinada mão; ou
simplesmente que não tomavam o menor conhecimento
da “ferramenta” que lhe haviam imposto pela boca.
Abrindo um espaço para uma digressão; verdade
seja dita, os cavalos que normalmente disparam em provas
são extremamente habilidosos dentro de pistas e picadeiros
fechados, mas isso é um assunto para outra prosa,
para a qual eu ainda procuro a resposta.
Então, no enduro, é fato que muitos cavaleiros
fazem uma doma “meia boca” e colocam os cavalos
em provas, inclusive já ouvi vários treinadores,
de diferentes modalidades hípicas, dizerem que cavalo
de enduro só anda pra frente e pronto. Quanta ignorância
condensada em tantas mentes brilhantes. Nem vou falar da
troca de mão que isso é básico nos cavalos
de enduro, mas o controle de velocidade nas mais diversas
andaduras é o ápice de qualquer doma, desde
a mais simples até a mais refinada e exigente, e sem
isso nem adianta trabalhar o cavalo de enduro. Para saltar
varas o cavalo tem de galopar reunido e com constante contato
com as rédeas, no laço o cavalo trabalha em
liberdade vigiada, teoricamente relaxado, mas pronto para
explodir em uma corrida a qualquer momento e o enduro?
No enduro o cavalo tem de aprender a galopar solto, quase
flutuando, e aí começa o primeiro problema
da doma; para se ter controle de um cavalo, você necessita
usar as rédeas, e, automaticamente, a tendência
do cavalo é se retrair. Com tempo, paciência
e dedicação você pode ensinar seu cavalo
a galopar, reduzir para o trote ou passo e voltar ao galope
apenas com movimentos do seu corpo em cima da sela: não
estou aqui falando de uma eventual cavalgada tântrica,
apenas de um grau maior de intimidade com o seu parceiro
de prova. Parar, freiar, esbarrar, ou seja, lá a forma
como você chama o ato de colocar seu cavalo na posição
estática é outra parte muito interessante das
domas tradicionais.
Eu particularmente aprendi que primeiro flexionaria o pescoço
e em seguida arquearia o meio do cavalo, forçando
por baixo a entrada dos posteriores em direção
ao centro do cavalo e daí você teria uma linda
esbarrada, macia e “xique no úrtimo”,
mas a experiência com cavalos de enduro me mostrou
que isso funciona muito bem na pista de areia lá de
casa; na trilha, é queda quase certa, com o cavalo
arqueado, os posteriores enfiados perto dos anteriores e
uma pequena depressão no solo é o bastante
para te mandar uns três metros à frente do seu
cavalo que virá capotando por trás de você.
A doma do cavalo de enduro é muito mais difícil,
mais demorada, e por isso mesmo é que recomendo começar
a doma do provável cavalo de enduro aos três
anos de idade: daí você terá dois anos
de picadeiro, redondel e pista antes de começar a
levá-lo para as trilhas e só aí começar
o treinamento de fato. É sempre bom lembrar que o
cavalo aprende melhor sendo recompensado a cada movimento
correto, um relaxamento imediato da pressão, um afago
ou palavras elogiosas em voz baixa e calma, do tipo - muito
bem, bom rapaz, boa garota...”Isso porque o cavalo é sensibilíssimo
ao tom de voz; durante o trabalho, a recompensa tem que ser
imediata; ao invés de excessos de pressão a
cada erro".
Alguns enduristas defendem a idéia de apenas começar
a doma na pista e dar prosseguimento a ela na trilha, mas
vejo aí um problema sério, pois você pode
acabar por confundir a cabeça do cavalo, pois se levando
em conta que ele aprende por repetição, muitos
dos comandos usados no redondel e na pista podem acabar por
excitar em demasia um cavalo, que vê a sua frente uma
estrada longa e propícia a disparar... daí o
resto você já pode imaginar. Como justificativa
para esse erro comum, tenho visto muitos cavaleiros dizerem
que seus cavalos tem muita vontade de andar, que tem muito
gás, mas na verdade, o que ocorre é que o cavalo é um
animal "predado", e sua única arma é correr,
fugir sempre. Será que ao invés de "gostar
de andar" o seu cavalo não quer é fugir
de você?
O cavalo de enduro deve ser montado extensivamente sozinho
na trilha, evitando assim a criação do hábito “saudável” de
amadrinhar com outros cavalos. Isso é normal no cavalo,
uma vez que é um animal de hábitos coletivos,
mas na trilha isso pode atrapalhar muito. Todo endurista
sabe das dificuldades de ter de empurrar seu cavalo só porque
em determinado ponto da prova ele ficou sozinho na trilha,
mas admito que já vi cavalos exaustos terminarem bem
uma prova porque um outro cavalo o “rebocou” até o
final.
Durante a fase final da doma, e início do treinamento,
o cavalo deve ser montado em grupos de 3 ou mais cavalos,
ser tirado muitas vezes para frente e para trás do
grupo; cruzar insistentemente riachos e poças de água;
conviver com bicicletas, motos, carros, pedestres e gado;
carregar presos à sela canecos, cantis, capas e sacolas;
usar capas de chuva e capas de inverno; conviver, mesmo que
por algumas horas do dia, com outros cavalos no piquete;
andar de trailer sozinho ou com outro cavalo; ser montado à noite;
ser tranqüilo enquanto é escovado e selado; ter
controle de velocidade e andar com rédeas soltas.
Na doma do cavalo de enduro, a parte de adestramento e de
rédeas pode ser concluída em médio prazo
e ser lembrada diariamente por toda a vida por meio de um
bom treinador, mas a ansiedade da largada e o medo de tudo
que o cerca durante uma prova só vão ser domados
durante a competição... por você!