Técnicas & Veterinária
O
que avaliar para comprar feno de qualidade
Cláudio Maluf Haddad
José Luiz Domingues
Considera-se como feno, todo alimento volumoso obtido
pela desidratação parcial de uma planta forrageira,
gramínea ou leguminosa.
Em princípio, qualquer planta poderia ser fenada,
entretanto, em função de qualidade e custo,
algumas características devem ser consideradas e
algumas condições dever ser obrigatoriamente
satisfeitas, entre elas:
O procedimento correto quanto a essas condições
pode determinar a obtenção e elaboração
de um feno bom ou ruim, ou ainda favorecer perdas significativas
em quantidade e qualidade de fenos que originalmente poderiam
ser considerados bons. Entretanto, é impossível
obter-se fenos bons a partir de matéria prima de
má qualidade ou se as condições e
uso dos equipamentos forem inadequadas ou mesmo se a mão-de-obra
ou o gerenciamento forem inexperientes.
Assim, deve-se procurar caracterizar a atividade de fenação
como uma atividade profissional e econômica, onde
a Qualidade, considerando-se tanto a matéria prima
como o processo e seu gerenciamento, é fundamental
para um bom desempenho comercial do produto e para um bom
desempenho orgânico do alimento.
Um feno de boa qualidade deverá apresentar características
nutricionais que o diferencie dos demais, sendo avaliado
por meio de uma análise química nutricional.
Entretanto, nem sempre isso é possível, uma
vez que as análises bromatológicas desses
fenos nem sempre são disponíveis ou não
são representativas de todo o feno produzido naquela
estação.
Assim, é importante que sejam conhecidas algumas
características físicas (visuais, tácteis
e olfativas) desejáveis e indesejáveis, para
que se possa avaliar inicialmente um lote de fardos de
feno.
De uma maneira geral, os lotes de feno com uma boa qualidade
nutritiva apresentam as seguintes características:
-
Umidade
adequada (seco) e homogênea;
-
Coloração
esverdeada;
-
Maciez ao tato;
-
Alta proporção
de folhas em relação às
hastes;
-
Temperatura do fardo sempre fria (ambiente);
-
Presença
de odor característico de feno
(capim cortado)
-
Presença de apenas
uma espécie vegetal;
-
Ausência
de odores estranhos, fungos e bolores;
-
Ausência
de plantas daninhas, sementes ou
pendões
florais;
-
Ausência de terra,
gravetos ou materiais estranhos.
Poderão ainda ser avaliadas:
-
Uniformidade no tamanho
dos fardos;
-
Uniformidade no peso dos fardos;
-
Perda
excessiva de folhas ao manuseio;
-
Amarração
firme dos fardos.
Todas essas características devem apresentar-se
SEMPRE EM CONJUNTO para que um feno possa ser considerado
de boa qualidade, ou seja, não basta apresentar “quase” todas
essas características para ser considerado como
um feno “quase” bom. Essas características
físicas são muito importantes e complementares às
análises bromatológicas na avaliação
dos fenos.
O aumento do número de laboratórios, novas
metodologias e equipamentos mais rápidos para avaliação
química deverão tornar a análise bromatológica
completa mais utilizada para a avaliação
dos fenos, e também o preço e a rapidez de
execução desses serviços deverão
tornar-se mais aceitáveis que os apresentados atualmente.
Os valores dos parâmetros avaliados em uma análise
bromatológica, que podem ser considerados adequados
para um bom feno são apresentados em %, na tabela
abaixo:
. |
M.SECA |
P. BRUTA |
FIBRA |
NDT |
MM |
N-ADF |
BRUTA |
FDA |
FDN |
MÉDIO |
13-15 |
7-11 |
32-35 |
38-44 |
77-81 |
50-54 |
6-10 |
8-25 |
ÓTIMO |
11-13 |
11-13 |
30-32 |
35-40 |
75-78 |
54-58 |
6-8 |
6-10 |
Por outro lado, do ponto de vista nutricional, ou do nutricionista,
apenas os resultados da análise bromatológica,
sem uma avaliação visual ou física
do produto, pode comprometer a avaliação
de um determinado lote de feno. Isto porque alguns parâmetros
como proteína bruta ou fibra bruta podem ter seus
resultados nutricionais mascarados pela metodologia com
que são determinados nessas análises.
No caso da apresentação de resultados como
proteína bruta, o método não avalia
se essa proteína é verdadeira, ou seja, se
foi transformada em proteína vegetal, ou se ainda
está em uma forma não metabolizada pela planta,
pois os laboratórios medem diretamente a quantidade
de nitrogênio do material e não de proteína.
As variações ocorrem, por exemplo, no caso
de amostras de fenos com altas doses de nitrogênio
nas adubações ou com os cortes realizados
muito próximos a uma adubação recente.
Nessas condições, os eventuais altos teores
de proteína nos resultados não significam
que esse nitrogênio (proteína) esteja nutricionalmente
disponível ao animal.
Para uma avaliação mais criteriosa deveriam
ser analisados o N-NH3 (nitrogênio amoniacal), N-nítrico
(na forma de nitrato) e o N-ADF (nitrogênio ligado à fração
fibrosa não digerível), principalmente se
esse material destinar-se à alimentação
de não ruminantes.
Da mesma maneira que a determinação de proteína,
a avaliação da fração fibrosa
deverá seguir alguns critérios diferenciados,
para os casos onde se deseje um maior conhecimento de sua
qualidade para os animais.
Em geral, consideram-se apenas os teores de fibra bruta,
onde não conseguimos uma avaliação
precisa de sua qualidade e do seu aproveitamento potencial
pelos animais. Para isso deve-se avaliar as diferentes
frações de fibra dos fenos, o FDN (fibra
em detergente neutro), representando a fibra presente no
feno e o FDA (fibra em detergente ácido) que é a
fração fibrosa não digerível.
As características físicas a observar nos
fenos serão descritas a seguir, lembrando-se novamente,
que elas deverão sempre aparecer em conjunto nos
materiais de boa qualidade como alimento, pois algumas
dessas características poderão ser encontradas
mesmo em fenos de baixa qualidade nutricional.
Na avaliação inicial de um lote de fardos
de feno, a primeira característica a ser observada é a
umidade do material. Deve-se abrir alguns fardos e avaliar
seu aspecto geral quanto à presença de algum
ponto de umidade excessiva, sendo desejável sua
homogeneidade e um aspecto seco e firme.
Quando avaliamos as características visuais, a
coloração é a que se apresenta com
maior destaque e relevância. Quanto a essa característica
deve-se sempre buscar um padrão homogêneo,
entre e dentro dos fardos, sendo que uma cor verde ou esverdeada
seria característica de um material de boa qualidade
quanto ao processo de secagem e de armazenamento e uma
cor amarelada ou marrom, denota problemas de excesso de
horas ao sol e falta de qualidade.
A maciez ao tato mostra que a forrageira foi cortada ainda
jovem, em seu estado vegetativo de crescimento, onde uma
presença maior de folhas em relação às
hastes ou caule, é a responsável pela sensação
de maciez ou de ausência de características
mais grosseiras como aspereza ou dureza.
Essa maior proporção de folhas também
denota uma maior qualidade nutricional, pois essa fração
das plantas é a que apresenta maior digestibilidade
e concentração de proteína, apresentando
também uma secagem mais rápida, o que evita
perdas em qualidade e peso.
A presença do odor característico de feno,
ou de capim cortado, reflete que ocorreu um processo adequado
de desidratação, não havendo exposição
demasiada ao sol e também um armazenamento adequado,
onde não houve uma rehidratação prejudicial
do material.
Também a ausência de odores desagradáveis é um
outro fator importante a considerar. Alguns animais são
altamente seletivos quanto à qualidade do alimento,
não consumindo aqueles que tenham características
indesejáveis quanto ao aroma, ou que apresentem
material em decomposição com presença
de fungos ou bolores. Alguns defensivos como inseticidas
também podem causar alteração no consumo.
Uma temperatura normal (fria) dentro dos fardos também é um
bom indicativo de qualidade no processamento e conservação.
Temperatura mais elevada é um indicativo de umidade
inadequada no enfardamento ou no armazenamento. Não é incomum
encontrar fardos de feno com temperaturas acima de 30oC,
em função do aquecimento provocado por atividade
de microorganismos como fungos e bactérias.
A presença de condições de desenvolvimento
desses microorganismos será problemática
em três aspectos principais:
-
Perdas em quantidade (peso),
-
Possibilidade
de formação de compostos tóxicos
como as aflatoxinas,
-
Condições onde
a combustão (queima)
do material poderá ocorrer espontaneamente.
A presença de outras espécies vegetais no
feno, mesmo que adequadas ao processo, poderá significar
que o campo de produção está em declínio,
sendo pouco cuidado quanto às plantas invasoras,
sendo que a qualidade sempre será diminuída
pela presença de material de menor valor nutritivo,
que terá o mesmo preço por unidade de peso.
A presença de plantas daninhas, sementes
ou pendões
florais, da mesma forma, tem influência negativa
sobre a qualidade do feno, demonstrando que este se encontra
já passado e fora de sua melhor condição
nutricional, tanto por motivos de clima ou pelo fato do
produtor de feno valorizar mais a quantidade produzida
do que a qualidade.
A ausência de materiais estranhos, terra
ou gravetos também se apresenta como uma característica
importante e desejável nos fenos, refletindo a preocupação
do produtor de feno quanto à sanidade e à integridade
física dos animais que irão consumi-lo. Há varias
citações de problemas de pinos, grampos,
parafusos, plásticos ou graxa encontradas disponíveis
aos animais, vindos dentro de fardos de feno.
Pelo exposto, podemos perceber que a aquisição
e avaliação de feno, como um alimento de
qualidade, é uma tarefa complexa e que deveria ser
considerada como parte fundamental em qualquer programa
nutricional de toda propriedade. Entretanto, o que se observa é que
essa função é realizada por pessoal
não qualificado, não informado sobre qualidade,
mas apenas orientado e preocupado com cotação
e frete.
Quanto melhor a seleção quanto à qualidade
do feno adquirido e oferecido aos animais, maiores as vantagens
obtidas, como:
-
Melhor relação entre
concentrado e volumoso na dieta total;
-
Menor qualidade
do concentrado para suprir as exigências
nutricionais;
-
Menores riscos de problemas metabólicos
como cólicas
ou torções internas;
-
Melhor função
orgânica nos animais;
-
Menor custo por unidade
consumida e menor custo por unidade produzida.
Essas considerações justificam os diferentes
preços e tipos de feno presentes no mercado, havendo
uma necessidade de padronização e qualificação
dos fenos para que seu preço seja o mais adequado
e justo à sua qualidade.
Quando os fenos satisfizerem a todas as características
adequadas a um produto de alta qualidade (coloração,
maciez, odor, limpeza, temperatura e análise química)
estes estarão apresentando seu melhor valor nutricional
e retorno econômico.
O envio de amostras para análise bromatológica
em laboratórios credenciados, seguindo uma metodologia
adequada de amostragem, deverá fazer parte da rotina
das transações de compra e venda de feno
entre aqueles compradores preocupados com a qualidade do
alimento e os fornecedores idôneos de feno.
Cláudio Maluf Haddad - cmhaddad@esalq.usp.br
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