Técnicas & Veterinária
Uso
de ivermectinas injetáveis para bovinos e eqüinos: vale a pena?
por
Henry Berger, DVM, Ms Desde o advento da ivermectina no mercado
veterinário,
há mais de duas décadas, a vermifugação
e o parasitismo em eqüinos têm sido alvos constantes
de inúmeros trabalhos de investigação
científica por parte de pesquisadores e parasitologistas
em todo o mundo.
Entretanto, a despeito da existência
de produtos em formulação
pasta destinados exclusivamente para uso em eqüinos (como
o Eqvalan®, por exemplo), tem-se verificado uma intensificação
no uso de ivermectinas injetáveis para bovinos em eqüinos,
tanto pelas vias oral quanto intramuscular, motivada pela tentativa
de redução de custos do haras ou da cocheira. 
O presente artigo tem por finalidade apresentar os riscos
potenciais desta prática na espécie eqüina,
revelando que, neste caso, a relação custo
x benefício
não é favorável aos proprietários.
Em
muitas áreas do Brasil, notadamente Minas Gerais,
interior do Rio de Janeiro e Espírito Santo há forte
tendência ao uso destas ivermectinas “bovinas” através
da via oral.
Abaixo listados há alguns riscos reais
e prementes do uso destas ivermectinas por via oral em bovinos:
Não
há garantia de que haja absorção
intestinal adequada destas formulações, não
havendo conseqüentemente, garantia de eficácia
da droga;
- Não há garantia de que as concentrações
usadas para bovinos sejam compatíveis em biodisponibilidade
com a espécie eqüina, levando a sérios
riscos de subdosificação;
- Alguns criadores, prevendo o problema acima, simplesmente “aumentam” de
forma empírica e aleatória a dose injetável
utilizada usualmente, podendo estar ocorrendo sobredosificação
e desperdício;
- O veículo destes compostos
pode ser altamente irritante à mucosa
gástrica, levando ao aparecimento de gastrites e
lesões
erosivo-ulcerativas como as úlceras gástricas;
- Não
há nenhuma comprovação científica
de eficácia desta prática; o uso por parte
de criadores tem se disseminado apenas pelo boca-a-boca,
sem o
respaldo de trabalhos sérios que corroborem dados
de eficácia e segurança.
Por outro lado, em
algumas áreas do Rio Grande do Sul,
Nordeste e principalmente Centro-Oeste, o uso destas mesmas
ivermectinas injetáveis para bovinos pela via intramuscular
em eqüinos mostra-se como prática mais comum.
Veja também abaixo listados os riscos do uso destas
ivermectinas por via intramuscular em eqüinos:
- Não
há garantia de que as concentrações
usuais para bovinos sejam compatíveis e adequadas
para eqüinos em termos de farmacocinética
e farmacodinâmica;
- O veículo destes compostos
favorece a anaerobiose, expondo o animal a toxemias sérias,
clostridioses (há na
literatura vários relatos de casos) e morte;
- O
veículo destas formulações também
pode causar intensas irritações e infecções
locais (como estafilococoses purulentas), além
de hematomas e fibrose do tecido muscular adjacente;
- Como
a formulação não é adequada
para emprego em eqüinos, em muitas situações
observa-se a não-absorção do produto,
havendo a formação de um cisto asséptico
ou mesmo abscessos.
Enfim, uma vez relatados todos os
riscos, segue abaixo as conseqüências
daquilo que realmente pode ocorrer em seus cavalos após
a aplicação de ivermectinas para bovinos,
seja pela via oral, seja pela injetável:
- Perda
da função do membro ou região
correpondente ao grupo muscular que recebeu a aplicação
intramuscular, com inutilização deste
animal para sua atividade usual, seja trabalho, esporte
ou lazer;
- Brusca queda de performance, emagrecimento,
perda de apetite, irritabilidade e recusa ao trabalho
em função
de lesões gástricas;
- Aparecimento de resistência
parasitária à ivermectina,
com recrudescimento da ocorrência de cólicas
verminóticas
trombo-embólicas e outras patologias correlatas
ao parasitismo;
- Perda do direito ao seguro que eventualmente
o animal venha a possuir;
- Gastos,
muitas vezes infrutíferos, com medicamentos
na tentativa de recuperar o animal;
- MORTE.
Tendo em vista todos os aspectos observados, ao
analisarmos as relações custo x benefício
e custo x riscos a que os animais estão expostos,
observamos que realmente tais práticas não
compensam. O custo anual médio de um animal de 400
kg com vermifugação é de
aproximadamente R$ 30,00 com produtos específicos
para eqüinos; se considerarmos as médias
dos últimos
leilões Mangalarga Marchador, os custos com
vermifugação
destes animais na maior parte das vezes não
ultrapassa 0,2% de seu valor individual em um ano inteiro!
Quando
observamos, porém, o valor individual de animais
de esporte de alta performance, como animais de salto,
adestramento, CCE, enduro, baliza e tambor, rédeas,
vaquejada, marcha etc, que facilmente atingem cifras
superiores a R$ 50 mil (no
caso de cavalos de salto é comum vermos negócios
de US$ 100 mil!), a realidade fica ainda mais gritante.
Além
de todos os graves problemas e prejuízos
físicos e econômicos a que cavalos e proprietários
estão sujeitos face ao já exposto, há ainda
o aspecto jurídico a ser considerado. Uma vez
que o uso oral ou injetável de ivermectinas
para bovinos em eqüinos também é prática
ilegal, caso algum dos problemas já descritos
venha a ocorrer, o proprietário do animal estará completamente
desamparado pela lei, uma vez que na bula destes medicamentos
não há indicação para a
espécie
eqüina, isentando os fabricantes de toda e qualquer
responsabilidade civil ou criminal. Por outro lado,
veterinários que
eventualmente apóiem esta iniciativa poderão
ser responsabilizados legalmente por proprietários
lesados, pelo simples fato de utilizarem produtos “extra-label” sem
advertir apropriadamente os mesmos quanto ao perigo
em questão.
Por fim, há o aspecto de perjúrio
frente à companhias
seguradoras. Para que um animal seja segurado pelas
companhias existentes no mercado, é necessário
que o veterinário
responsável assine um lado pericial contendo
todas as devidas informações e histórico
clínicos
do animal; nestas informações constam
ainda dados sobre vermifugação e vacinação,
que devem contemplar o uso de produtos específicos
para eqüinos, não se permitindo as chamadas “gambiarras”.
Imagine que seu cavalo, segurado em R$ 20 mil, cujo
prêmio
anual pago foi de R$ 1 mil, venha a desenvolver um
processo de cólica e necessite ser realizada
laparotomia exploratória;
imagine ainda que este animal venha a óbito
durante a cirurgia e a necrópsia revele trombo-embolismo
verminótico.
Certamente os peritos da seguradora investigarão
sobre o histórico de vermifugação
destes animais e descobrirão o uso de ivermectinas
para bovinos injetáveis
ou orais. Neste caso, além de não receber
o valor do seguro e do reembolso cirúrgico,
o proprietário
e o veterinário correm o sério risco
de serem processados por perjúrio e falsidade
ideológica
pela seguradora.
Enfim, utilize sempre vermífugos
indicados para a espécie
eqüina, produzidos por laboratórios idôneos
(Eqvalan® da Merial, por exemplo),
pois são
comprovadamente eficazes, de fácil aplicação
e apresentam ampla margem de segurança inclusive
para potrinhos muito jovens, permitindo-lhe ter tranqüilidade
quanto à perfeita
saúde de seu animal.
Seja inteligente e faça
as contas: não exponha
seu campeão a riscos desnecessários e
não
justificáveis. Henry
Berger é médico veterinário e trabalha
na Merial Saúde Animal Ltda
Henry.Berger@Merial.com |