Técnicas & Veterinária
Ivermectina – Um
Pouco De História E Suas Relações Com
O Sistema Imunológico
Edson Luiz Bordin e Henry Berger Até o
final dos anos 70, o controle antiparasitário em eqüinos,
dependia dos benzimidazóis, e mais tarde, dos pró-benzimidazóis,
sendo que, historicamente, por vezes, interpolava-se também,
a piperazina, em função da ação
ascaricida única que detinha, e que não era
compartilhada pelos produtos da época.
Com as implicações advindas com a resistência
dos pequenos estrôngilos aos benzimidazóis,
fruto do uso excessivo dos mesmos em programas reiterados
que por vezes exigia até tratamentos mensais, o advento
da ivermectina representou papel revolucionário, constituindo-se
em autêntico “divisor de águas”,
já que o controle dos parasitos animais reconhecidamente
divide-se em dois períodos; antes e depois das avermectinas
(lactonas macrocíclicas).
A rigor, o EQVALAN teve sua origem em 1975, com a descoberta
de que um actinomiceto do solo, o Streptomyces avermitilis,
originava produtos antiparasitários de grande potência
e bastante seguros - as avermectinas. Essa descoberta desencadeou
uma intensa atividade científica, quer no campo da
química, microbiologia, entomologia, bioquímica,
farmacologia e toxicologia.
Na ocasião, a então Merck Sharp Dohme esmerou-se
em formular um produto altamente eficaz no controle dos parasitos
internos e alguns externos de eqüinos e que fosse, no
entanto, bastante seguros, de modo que logrou um êxito
absoluto com Eqvalan, uma vez que o mesmo, além da
eficiência reconhecida que possui, apresenta uma margem
de segurança de no mínimo 20 vezes a dose terapêutica!
Atualmente compostos de avermectina Merial estão registrados
em mais de 90 países, com a indicação
respaldada em mais de 3000 trabalhos técnicos devidamente
publicados e indexados, no que se constituí em autêntico “record”,
já que nenhuma molécula para uso veterinário,
até o momento, resultou num número tão
expressivo de citações, incluindo aí as
também consagradas tetraciclinas, introduzidas no
mercado em 1951! Complementando esse item, lembramos que
até o presente mais de cinco bilhões de doses,
incluindo 50 milhões em uso humano, controle da onchocercíase,
já foram utilizadas, refletindo dessa forma, o excelente
perfil de eficácia e segurança da molécula.
Ao mesmo tempo em que as avermectinas alteravam significativamente
a ciência do controle parasitário animal, os
estudos envolvendo a relação parasito-hospedeiro,
evoluíam de forma exponencial, de modo que subitamente,
trabalhos, livros e artigos técnicos abordando patogenia,
patologia, além de imunologia ligados a parasitos,
passaram a ser constantes na literatura científica.
Isso foi importante na medida em que se possibilitava um
conhecimento melhor dos efeitos do parasitismo, abandonando-se
um pouco os estafantes tratados sobre taxonomia parasitária,
que até então predominavam e, embora academicamente
perfeitos, não tinham maior efeito prático.
Sabe-se que na relação parasito-hospedeiro,
existe um equilíbrio dinâmico entre o sistema
imunológico dos vertebrados e os componentes ou fatores
agressivos dos parasitos, sendo que esse último, de
uma maneira ou outra, tenta evadir-se às reações
imunológicas, o que se dá de vários
modos, incluindo a produção de células
supressoras de atividade ligada a linfócitos T e correlacionadas à inibição
da resposta celular. Além do mais, alguns parasitos
são apenas discretos indutores de populações
de células efetoras, de modo que escapam à ação
orgânica (Gasbarre, 1986) e são verdadeiros
exemplos de capacidade imunossupressora.
Indiretamente, o fato do parasitismo determinar anorexia
voluntária, pode levar à eventual deficiência
qualitativa e quantitativa de princípios dietéticos
importantes na resposta imune, entre eles, além das
proteínas, também alguns microelementos como
o Se, o Zn e a Vitamina E. Aliás, o Se tanto favorece
a produção de imunogamaglobulinas, como a fagocitose
por micrófagos ou macrófagos. Enfim, é fator
importante na imunidade humoral e celular (Munner, 1988).
Do acima, conclui-se que o uso de drogas efetivas na remoção
desses patógenos acaba se tornando num fator pró-imunogênico,
já que eliminam o componente supressor desempenhado
pelos parasitos. Pelo fato da ivermectina Merial ser eficiente
e segura, vimos associando-a em nossos programas sanitários às
nossas vacinas, independentemente se em bovinos ou em eqüinos.
Com isso busca-se, além do controle parasitário,
também o potencial imunogênico máximo
dos nossos produtos biológicos.
Convém lembrar, que a ivermectina e seu bioquimismo,
não interage com o sistema reticular do animal, de
modo que, além de não afetar negativamente
essas células, independentemente de sua filogenia,
tampouco as favorecem. Assim, é elemento inerte nesse
nível, e seu uso só se mostrará mais
eficiente na medida em que o animal esteja infectado/infestado
por parasitos, esses últimos, sim, os verdadeiros
agentes imunossupressores. Curiosamente, embora sem nenhuma
indicação oficial nesse nível, o uso
de ivermectina Merial vem sendo constante em animais de laboratório
submetidos a testes biológicos com os quais se busquem
uma maior expressão imunitária!
Edson Luiz Bordin é Médico
Veterinário Parasitologista da Merial Saúde
Animal
Henry
Berger é médico veterinário e trabalha
na Merial Saúde Animal Ltda
Henry.Berger@Merial.com |