Técnicas & Veterinária Treinamento
de resistência e limiares metabólicos
por Prof. Dr. Fernando Gondim, PhD
Exercício de enduro e fadiga
O termo endurance pode ser fisiologicamente definido como
resistência à fadiga. Precisamente não
se trata de resistir, mas de retardar ou limitar o aparecimento
da fadiga. O conceito de fadiga envolve a incapacidade fisiológica
de prosseguir com o esforço, que no caso de competições
de enduro, é um esforço sub-máximo e
prolongado. Este esforço sub-máximo pode envolver
três tipos de exercício, sub-limiar, limiar
e supra-limiar. Esta classificação tem como
base o consumo muscular máximo de oxigênio,
que delimita os metabolismos aeróbio e anaeróbio.
A fadiga em termos simples pode ser definida como a incapacidade
orgânica de manter um suficiente fornecimento de
energia, em condições de aumentada demanda
energética. Esta incapacidade resulta em uma deficiência
na manutenção de uma determinada tensão
muscular por um determinado tempo. A fadiga que se desenvolve
durante a contração muscular voluntária
máxima tem uma causa diferente daquela que ocorre
quando as contrações são moderadas
e repetitivas. Ambas também são diferentes
daquela que ocorre durante a prática de exercícios
em ambientes quentes. Portanto, todas as formas de fadiga
são resultantes da falência energética
muscular, e vários são os fatores que podem
contribuir para o aparecimento desta falência durante
o exercício físico de endurance:
- A capacidade
orgânica em absorver, distribuir
e utilizar o oxigênio;
- A disponibilidade de suficientes
reservas de substratos energéticos (carboidratos,
gorduras, proteínas
e ácidos graxos voláteis) e a capacidade
de mobilização e utilização
destes substratos;
- A capacidade orgânica de evitar a acidificação
(abaixamento de pH) no interior da fibra muscular.
- A capacidade
do organismo em transportar e metabolizar o lactato formado
pelo metabolismo anaeróbio;
- A ocorrência de
estresse térmico (elevação
excessiva da temperatura intra muscular), provocando
a diminuição e/ou inativação
de reações metabólicas importantes;
- A
ocorrência de estresse oxidativo (aumento na formação
de radicais livres), alterando tanto a permeabilidade
das membranas celulares quanto importantes reações
metabólicas responsáveis pela manutenção
da integridade celular.
- A ocorrência de estresse
mecânico, provocando
danos ósseos, articulares e musculares, que poderão
provocar manqueiras e períodos de inatividade.
Metabolismo
energético
Em competições de longas distancia e duração,
uma boa estratégia de consumo das reservas energéticas é indispensável.
O glicogênio muscular e a reserva de gordura devem
ser metabolizados pela via aeróbia, proporcionando
um maior rendimento energético. A glicose liberada
das reservas de glicogênio muscular, quando metabolizada
(oxidada) na presença de suficiente quantidade de
oxigênio (via aeróbia), produz 36 moléculas
de ATP – O ATP ‘e a moeda energética do
músculo -. A utilização da glicose em
condições de insuficiente quantidade de oxigênio
(via anaeróbia), produz duas moléculas de ATP
e duas moléculas de lactato. Uma molécula de
acido graxo, constituinte da gordura tecidual, só pode
ser utilizada como combustível em condições
de exercício, na constante presença de suficiente
quantidade de oxigênio (via aeróbia), e pode
gerar aproximadamente 140 moléculas de ATP. A oxidação
das gorduras também requer um continuo fornecimento
de glicose proveniente essencialmente da reserva de glicogênio
muscular. Portanto, e importantíssimo preservar a
limitada reserva muscular de glicogênio, evitando o
trabalho anaeróbio, bem como favorecer o reabastecimento
desta reserva durante os intervalos de competição
(Vet chek).
Em condições de repouso uma pequena quantidade
de lactato esta presente no sangue (aproximadamente 1,5 umol/l).
Durante exercício aeróbio esta taxa sangüínea
se mantém. Em condições de competição,
esta taxa pode aumentar devido a descarga de adrenalina e
eventuais momentos de trabalho anaeróbio. Este eventual
acúmulo sangüíneo de lactato produzido
no músculo em exercício e transportado ate
o sangue, pode ser distribuído para outros músculos
que estejam sendo menos utilizados, e poderá ser totalmente
metabolizado (oxidado), caso haja suficiente quantidade de
oxigênio. Se o organismo se encontrar em uma condição
de debito de oxigênio, o lactato se acumulara.
Este estado metabólico, onde ocorre um continuo acúmulo
de lactato, coincide com um abaixamento de pH no interior
da fibra muscular, provocando o aparecimento da fadiga muscular.
Durante o repouso nos Vets, o lactato acumulado pode novamente
gerar glicose no fígado, e também contribuir
para a reposição da reserva muscular de glicogênio.
Mesmo durante o exercício, em trechos onde diminuímos
a intensidade de esforço, o lactato e utilizado como
combustível e seus valores sangüíneos
caem.
A utilização de dados
metabólicos
no monitoramento do treinamento de cavalos de enduro
O
conhecimento das características atléticas
intrínsecas de qualquer indivíduo, humano
ou animal, e seu potencial de desempenho é desejável
em qualquer modalidade esportiva. Esta caracterização
pode ser feita através de parâmetros metabólicos
estáticos e dinâmicos. Dentre os parâmetros
estáticos podemos citar a tipagem muscular através
de biopsia. Em nosso laboratório na UNICAMP, além da tipagem
muscular, utilizamos vários parâmetros bioquímicas
para monitorar adaptações provocadas pelo treinamento.
Os parâmetros dinâmicos mais comumente utilizados
são, a utilização de índices
de recuperação cardíaca, o consumo máximo
de oxigênio (VO2 max.), e a determinação
do limiar metabólico aero/anaeróbio de lactato.
Estes dois últimos parâmetros metabólicos
são comumente usados em fisiologia do esforço
humano.
A determinação da VO2 max. em eqüinos
e normalmente difícil e dispendiosa, exigindo a utilização
de uma mascara acoplada a um dosador de gazes. Este aparelho
denominado respirômetro é utilizado de maneira
fixa ou portátil (Figura 1 – portable
respirometer).
Uma esteira rolante também pode ser utilizada visando,
dentre outras coisas, um rígido controle da velocidade.
Em nosso laboratório na UNICAMP, desenvolvemos um
protocolo de determinação de limiar aplicável
em condições de campo, usando-se um lactímetro
portátil. Esta técnica pode ser empregada tanto
em laboratórios que dispõem de esteira rolante,
quanto em cavalos montados sobre uma pista plana.
O consumo máximo de oxigênio determinado por
respirometria nos informa o volume máximo de oxigênio
que esta sendo consumido por todo o organismo. O limiar metabólico
aero/anaeróbio determinado através de dosagens
sangüíneas de lactato, fornece informações
rápidas e confiáveis sobre o consumo muscular
Maximo de oxigênio.
A analise da cinética de acumulo e remoção
do lactato produzido durante o exercício facilita
a interpretação das respostas fornecidas pelos
cavalos estimulados pelo treinamento. Este mecanismo de estimulo
e resposta, e a essência do trabalho de condicionamento
físico.
Na medicina veterinária desportiva eqüina, nos
deparamos com um grande problema: A interpretação
e tradução dos dados fornecidos pelos cavalos
em treinamento. Ou: A avaliação das respostas
fisiológicas a um processo adaptativo induzido pelo
treinamento. Este trabalho de interpretação
e analise, e delegado a profissionais com diferentes níveis
de formação técnica, e em sua maioria,
utilizam apenas índices de recuperação
cardíaca como ferramenta de trabalho. A precisão
desta tradução é limitada. As informações
obtidas são freqüentemente subjetivas e não
possuem um padrão ou linguagem que possibilitem sua
fiel transmissão. Certamente a substituição
de avaliações empíricas por um adequado
repertório de parâmetros fisiológicos,
pode contribuir para um melhor desempenho atlético
eqüino. Esta contribuição pode ser verificada
tanto na fase de preparação, quanto durante
uma competição de longa duração,
onde parâmetros pré-estabelecidos podem orientar
uma adequada estratégia de utilização
das reservas energéticas.
Evidentemente, caso saibamos previamente qual é a
velocidade limiar individual aero/anaero de um cavalo, e
sua correspondente freqüência cardíaca,
poderemos mantê-lo em exercício limiar ou sub-limiar
por um maior período de tempo, evitando assim a utilização
da via metabólica anaeróbia, e conseqüentemente
o aparecimento da fadiga.
A determinação de limiar de lactato, também
se mostrou útil no decisivo momento de formação
de uma equipe. Ela possibilita ao técnico, comparar
indivíduos, e optar por aqueles que apresentarem uma
maior resistência aeróbia.
O treinamento de cavalos de enduro
Em eqüinos de sela a utilização de metodologias
para o monitoramento de adaptações induzidas
pelo treinamento são talvez mais importantes do que
em humanos, pois estes animais, apesar de possuírem
características orgânicas naturais de um atleta,
são submetidos a um regime artificial de vida e involuntariamente
exercitados.
Quando pensamos em eficiência metabólica, nosso
objetivo enquanto treinadores de cavalos ‘e estimular
uma crescente captação pulmonar de oxigênio,
uma crescente eficiência da bomba cardíaca em
fornecer progressivamente maiores quantidades de oxigênio
aos músculos, para que estes possam consumir totalmente,
crescentes quantidades de glicose, sem acumulo “extra” de
lactato.
A resistência aeróbia de um cavalo jovem ainda
não treinado, bem como uma elevada resistência
aeróbia induzida pelo treinamento de enduro, é desejável,
e é fator determinante de um bom desempenho em competições.
Portanto, metodologias que nos proporcione informações
quanto ao consumo de oxigênio, e conseqüentemente
o condicionamento físico aeróbio do atleta,
são importantes ferramentas que podem ser utilizadas
tanto na escolha de cavalos com elevada aptidão para
o enduro, quanto para o monitoramento do treinamento de resistência.
Um adequado e racional protocolo de treinamento para cavalos
atletas, envolve a utilização de exercícios
aeróbios e anaeróbios. Alem destes dois conceitos
clássicos de amplo conhecimento publico, outros três
conceitos são importantes e devem ser considerados
na pratica cotidiana do treinamento eqüino. Certamente
a maioria dos treinadores de cavalo estão familiarizados
com estes conceitos: Exercício sub-limiar, Limiar
e Supra-limiar. Provavelmente estes três tipos de exercícios
são utilizados rotineiramente pela maioria dos treinadores
de cavalo de enduro. Minha intenção e apenas
apresentar de maneira didática esta conceituação,
e utilizar esta sistematização como argumento
para justificar a aplicação, em treinamento
de cavalos de enduro, de metodologias cientificas simples
e razoavelmente baratas, que possibilitem a determinação
de limiares metabólicos, como o limiar aero/anaeróbio.
Determinação do limiar aeróbio/anaeróbio
em cavalos de enduro usando o protocolo de velocidade de
lactato mínimo (LMS – Lactate Minimum State)
Neste
capitulo descreverei detalhadamente como são
realizados os testes para se determinar a LMS, transcrevendo
partes de um trabalho cientifico apresentado em congresso
internacional especializado em desporto eqüino. A discussão
dos resultados obtidos com cinco cavalos oferece uma boa
exemplificação da aplicabilidade da técnica. Tabela
1: Caracterização dos cavalos usados
na determinação da LMS.
Cavalo |
Raça |
Idade (years) |
Sexo* |
Peso(Kg.) |
FC. Repouso(bpm) |
Lactato repouso(mmol/L) |
1 |
Árabe |
7 |
C |
390 |
36 |
1.2 |
2 |
Q. M # |
10 |
C |
445 |
38 |
1.6 |
3 |
Árabe |
6 |
G |
400 |
35 |
1.3 |
4 |
A/Árabe |
12 |
G |
410 |
32 |
1.6 |
5 |
A/Árabe |
9 |
C |
510 |
39 |
1.5 |
(*) G - garanhão C - castrado (#) Quarto de milha. O
princípio desta técnica baseia-se em uma
grande elevação inicial do lactato sangüíneo,
induzida por um exercício em alta intensidade. Neste
primeiro exercício determinamos o exato momento em
que ocorre o pico de lactato pós-exercício.
Em seguida, uma série de exercícios em velocidades
sub-máximas e crescentes é realizada. Esta
serie de exercícios, inicialmente aeróbios,
provoca inicialmente uma progressiva diminuição
nas concentrações de lactato sanguíneo,
principalmente devido a sua metabolização muscular
(oxidação) até atingir níveis
mínimos. Com o incremento da velocidade, os valores
sangüíneos de lactato voltam a se elevar, devido
a ultrapassagem do limiar aero/anaeróbio e predominância
do metabolismo anaeróbio produtor de lactato. A velocidade
de limiar, e sua correspondente freqüência cardíaca, é determinada
quando a curva descendente de lactato atinge o ponto mais
baixo, onde os valores de lactato encontrados, são
próximos ao de repouso. A lactatemia de repouso e
determinada individualmente pela manha, e com o cavalo em
jejum. Portanto, trata-se de uma metodologia que individualiza
a determinação de parâmetros metabólicos,
utilizando como referencia a taxa sangüínea de
lactato em repouso.

Figura 1. Gráfico representativo do protocolo de
determinação do limiar aeróbio/anaeróbio
usando o protocolo LMS.
Utilizamos em nossos experimentos os proprietários
dos cavalos, que também são seus cavaleiros.
Este cuidado visou eliminar possíveis variáveis
extrínsecas relacionadas ao psiquismo e biodinâmica
dos conjuntos (cavalo/cavaleiro), que poderiam provocar variações
consideráveis nos resultados. Desta forma, estes parâmetros
podem ser obtidos sob reais condições de competição,
e podem ser utilizados durante treinamentos e competições
oficiais.
O acompanhamento individualizado da LMS serve como parâmetro
de referencia para prescrição da intensidade
de trabalho e avaliação do treinamento. Quando
prescrevemos um trabalho sub-limiar, limiar ou supra-limiar,
obviamente temos que ter em mente a exata intensidade de
esforço correspondente ao limiar metabólico
de cada cavalo. Um adequado trabalho em continuo galope,
visando um aumento na resistência aeróbia,
deve ser realizado na exata intensidade de limiar. Um trabalho
abaixo desta intensidade pode não ser tão
eficiente. Por outro lado, um galope acima desta intensidade,
pode ser desgastante a ponto de provocar um overtraining.
A determinação do limiar de lactato por nos
desenvolvida e constituída de três diferentes
protocolos:
Protocolo 1 - Determinação do pico de lactatemia
(PL).
Protocolo 2 - Determinação da máxima
velocidade em mínima lactatemia (LMS).
Protocolo 3 - Confirmação da LMS.
O protocolo 1 pode ser usado separadamente, e fornece interessantes
informações quanto à capacidade muscular
de exportar lactato. Esta adaptação da fibra
muscular ‘e desejável e traduz uma melhora do
condicionamento físico. A realização
previa do protocolo 1 proporciona uma melhor execução
do protocolo 2.
O protocolo 3 serve para corrigir eventuais imprecisões
na aplicação do protocolo 2.
Protocolo 1. Determinação do pico de lactato
após exercício intenso.
Sua execução consiste na realização
de um galope de 500 m em máxima velocidade, em terreno
plano e macio, e apos um prévio aquecimento. O pico
de lactato (PL) é determinado retirando-se uma pequena
quantidade de sangue da veia jugular, e depositando uma gota
em uma tira reagente descartável (BM-Lactate), que ‘e
lida em um lactímetro portátil (Accusport-Boeringer
Mannheim) (Picture 2 - Accusport). Ao final do galope e com
os animais parados, a lactatemia e dosada em intervalos de
2 min durante 20 min. Desta forma determinamos o momento
em que ocorre o mais alto valor sangüíneo do
lactato.
A Tabela 1 mostra os tempos necessários
para que ocorra acúmulo do lactato muscular na corrente
circulatória
nos cinco cavalos, e também seus máximos valores.
Para os animais 1 e 3, esta primeira avaliação
foi feita antes do início do treinamento.
Tabela 2. Pico de lactato e tempo de pico de cinco cavalos após
galope em máxima velocidade.
Cavalo número: |
[lactato] no pico (mamou/L) |
Tempo p/ formação
do pico (min) |
1 |
13,4 |
15 |
2 |
7,3 |
1 |
3 |
8,5 |
9 |
4 |
8,7 |
3 |
5 |
7,7 |
1 |
Podemos notar que os tempos necessários para o acúmulo
máximo do lactato na corrente sangüínea
são variáveis entre os animais. Os cavalos
1 e 3, que não tinham históricos prévios
de treinamento tiveram um PL lento. Quando comparamos estes
dados com os dos outros cavalos notamos que os PLs dos animais
2, 4 e 5 são mais rápidos. O cavalo 2 possuía
um histórico prévio de prática desportiva
em outra modalidade (laço de bezerro em dupla) e pertence
a outro grupo racial (Quarto de Milha). Os cavalos 4 e 5
são da raça Anglo-árabe. O cavalo 4
não possuía histórico prévio
de treinamento, mas foi o cavalo mais velho a ser examinado
(12 anos). O cavalo 5 já havia praticado salto de
obstáculos, mas estava há um longo tempo sem
se exercitar, e apresentava-se magro. Além da raça,
os dois possuíam em comum o fato de serem animais
mais velhos, estando o cavalo 5 com aproximadamente 10 anos
de idade. Portanto, também é importante individualizar
o tempo de descanso antes de iniciar a série de exercícios
sub-máximos e crescentes do protocolo 2.
Esses dados mostram que características individuais
intrínsecas como, raça, idade, sexo, peso,
e extrínsecas como: estado nutricional, histórico
desportivo e variáveis relativas ao conjunto (cavalo/cavaleiro),
devem ser consideradas na interpretação dos
resultados.
A fim de verificar se o pico de lactatemia sangüínea
poderia ser utilizado como parâmetro adaptativo de
condicionamento físico, realizamos este mesmo teste
nos cavalos 1 e 3, após um ano de treinamento para
enduro, constituído de longas sessões de trabalho
aeróbio em velocidades sub-limiares. Os dados estão
apresentados na Tabela 2.
Tabela 3. Pico de lactato e tempo de pico dos cavalos 1
e 3 após galope em máxima velocidade, após
um ano de treinamento
Cavalo número:
|
[lactato] no pico (mamou/L)
|
Tempo p/ formação
do pico (min)
|
1
|
12,3
|
2
|
3
|
12,4
|
1
|
Os resultados mostram que o intervalo de
tempo para a formação
do pico de lactato diminuiu muito, sendo quase que imediato,
apresentando também valores mais altos de lactatemia
quando comparado aos mesmos valores obtidos um ano antes.
O aumento na velocidade de acúmulo do lactato sangüíneo,
após um período de treinamento de resistência
e uma adaptação desejável induzida por
este treinamento. Estes dados estão em concordância
com dados da literatura para diferentes espécies animais
e também em humanos. Segundo a literatura, esta adaptação
e devida a um aumento na atividade e no numero dos transportadores
de lactato existentes na membrana da fibra muscular. A determinação
do exato momento onde ocorre a formação do
pico de lactato (protocolo 1), deve ser previamente observada,
para evitar uma incorreta aplicação do protocolo
2. Protocolo 2: Determinação da máxima
velocidade em mínima lactatemia (LMS).
Iniciamos
o protocolo 2 com outro galope de 500 m, e dosamos a concentração do lactato sangüíneo
no tempo de pico previamente determinado no protocolo 1.
Os cavalos permanecem em repouso enquanto aguardamos o
tempo de pico. Após este galope rápido, "tiros" de
1.000 m. denominados (Tn), são executados seqüencialmente
em velocidades sub-máximas e gradualmente aumentados.
Ao final de cada "tiro", a freqüência
cardíaca e anotada, com o auxilio de um cardiofrequencímetro
(Polar), e a lactatemia e dosada. O tempo também é cronometrado
para a determinação da velocidade. O intervalo
entre cada "tiro" e de 2 min, sendo que, (T1)
e (T2) são feitos a trote e os demais tiros a galope.
Realizamos tantos "tiros" quantos forem necessários,
até evidenciarmos a re-elevação dos
valores de lactatemia, após uma fase de decréscimo
que se aproxima dos valores de repouso (Figura 1). A velocidade
em (T1) foi de aproximadamente 12 km/h. Os tempos parciais
a cada 200 m são utilizados para a manutenção
de uma velocidade constante, que deve ser controlada pelo
cavaleiro. Os resultados de velocidade, freqüência cardíaca
e lactato na LMS dos cinco cavalos estão apresentados
na Tabela 4.
Tabela 4: Valores de velocidade limiar, freqüência
cardíaca equivalente e concentração
sanguínea de lactato, no limiar, de cinco cavalos
Cavalo número: |
Velocidade(Km/h) |
Freqüência
Cardíaca(bpm) |
[Lactato](mamou/L) |
1 |
20 |
120 |
1.7 |
2 |
25,5 |
129 |
1.5 |
3 |
23 |
125 |
1.5 |
4 |
21 |
129 |
1.4 |
5 |
18 |
120 |
1.6 |
Podemos observar que o cavalo 2, que possuía um histórico
prévio de prática desportiva em outra modalidade,
e pertence a outro grupo racial, apresentou uma LMS mais
alta. A LMS do animal 5 foi a mais baixa encontrada, provavelmente
devido ao fato de possuir um longo período de sedentarismo
em seu histórico desportivo e apresentar-se magro.
Os demais resultados são aproximados, configurando
um grupo razoavelmente homogêneo de cavalos não
treinados. Uma nova determinação de LMS foi realizada
nos cavalos 1 e 3 um ano após o início do treinamento
para verificar o efeito deste sobre a potência aeróbia.
O treinamento adotado neste ano foi predominantemente aeróbio,
constituído de longas sessões (4 a 7 horas)
em velocidades sub-limiares. Esporadicamente trechos mais
acidentados provocavam a ultrapassagem da freqüência
cardíaca de limiar. Os valores da velocidade de limiar
(LMS), concentração de lactato mínimo
e freqüência cardíaca atingidas nas velocidades
de limiar para os cavalos 1 e 3 estão apresentados
na Tabela 5.
Tabela 5. Valores de velocidade limiar, freqüência
cardíaca equivalente e concentração
sanguínea de lactato, no limiar, dos cavalos 1 e 3
após um ano de treinamento.
Cavalo número:
|
Velocidade(Km/h)
|
Freqüência
Cardíaca(bpm)
|
[Lactato](mamou/L)
|
1
|
23,9
|
140
|
1.5
|
3
|
30
|
130
|
1.5
|
Podemos observar que o treinamento empregado foi eficiente
em aumentar a potência aeróbia dos cavalos,
com um efeito mais significativo no cavalo 3, pois o cavalo
1 aumentou sua velocidade de limiar de 22 para 23,9 km/h
e o cavalo 3 de 23 para 30 km/h.
Dosamos, concomitantemente, a glicemia ao
longo da determinação
da LMS. Este monitoramento foi realizado visando determinar
se a glicemia poderia ser utilizada como parâmetro
para determinação de limiar, conforme revisão
da literatura para humanos. Portanto, o gráfico de
determinação da LMS para o cavalo 2 (figura
2), mostra em vermelho as concentrações de
lactato e em azul, as concentrações de glicose
dosadas neste experimento. As linhas pontilhadas correspondem
aos valores de lactato e glicose em repouso, e os números
entre parênteses correspondem aos valores de freqüência
cardíaca.

Figura
2: Gráfico de determinação
da LMS. Limiar de lactato e concentração de
glicose no cavalo 2.
As taxas sangüíneas de lactato em eqüinos
podem variar de 1,2 mamou/L (repouso), até 30,0 mamou/L.
Esta variação é em função
do esforço empregado e da capacidade orgânica
de transporte do lactato. Quanto à glicemia, sua variação é regulada
hormonalmente entre um patamar inferior e um superior, que
em eqüinos varia de 70 a 130 mg/dL. Portanto uma correlação
entre lactatemia e glicemia em condições de
exercício possuiu limitada aplicabilidade.
Constatamos que as concentrações de glicose
são influenciadas por fatores psíquicos e hormonais,
e, portanto, diferentemente de humanos, uma determinação
de limiar metabólico aero/anaeróbio, usando-se
dosagens de glicose como parâmetro, não deve
ser utilizada em cavalos. Alias, freqüentemente metodologias
usadas em humanos apresentam diferentes resultados em cavalos.
Constatamos também que na determinação
de limiar de lactato através desta metodologia, obtivemos
na velocidade de limiar, valores de lactatemia similares
aos de repouso. Isto é, a intersecção
das curvas de acúmulo e remoção de lactato
ocorre próximo à linha de lactatemia de repouso
(figuras 1 e 2). Portanto, a intensidade de esforço,
suficiente para elevar minimamente a lactatemia acima de
seus valores de repouso, é a velocidade imediatamente
superior à velocidade de lactato mínimo (LMS).
Acreditamos que o limiar será mais
preciso, quanto mais próximo for o valor de lactato
no limiar, do valor de lactato em repouso. Observamos que
a dificuldade
em controlar rigidamente a velocidade é a responsável
por eventuais imprecisões. Portanto, seria de grande
valia o emprego desta metodologia sob condições
de rígido controle da velocidade, proporcionado pela
utilização de esteira rolante específica
para cavalos. Também recomendamos a utilização
do maior numero possível de tiros, proporcionando
um suave incremento na velocidade. Desta forma obteremos
uma curva com vários pontos, possibilitando uma determinação
mais precisa da LMS.
Protocolo 3: Confirmação
da LMS. Neste terceiro experimento denominado Confirmação
de Limiar (CL), verificamos se a LMS determinada no experimento
II estava correta. Submetemos estes mesmos animais a uma
corrida de 10.000 m, nas mesmas condições de
pista já descritas e na velocidade do limiar pré-determinada
no experimento anterior. A cada 2.000 m, após a aferição
do tempo de corrida e anotação da F.C., a corrida
era interrompida momentaneamente para retirada de sangue
para dosagem de lactato. A zona alvo do cardiofreqüencímetro
foi ajustada na F.C. correspondente ao limiar.
Exemplificamos os resultados por nos obtidos, apresentando
o gráfico do cavalo 1 (figura 3). Nesta figura as
linhas pontilhadas em vermelho correspondem aos valores de
lactato na LMS. Os números entre parênteses
correspondem à freqüência cardíaca,
e os números entre colchetes correspondem às
velocidades empregadas em cada volta de 2.000 m. da corrida
de 10.000 m.

Figura 3: Gráfico da confirmação de
limiar do cavalo 1. Concentração sanguínea
de lactato e glicose. Freqüência cardíaca
( ). Velocidade [ ].
Nos cavalos 1, 2, 3, e 4 ocorreu a ratificação
da velocidade de LMS. As variações de velocidade
ocorridas devem-se à dificuldade de manutenção
de velocidade constante nas condições de campo,
nas quais os experimentos foram realizados.
No cavalo 5 ocorreu uma mudança de cavaleiro. A diferença
de peso entre o cavaleiro usado na determinação
de limiar, e o usado na sua confirmação, foi
de 38 kg a menos. Esta troca resultou em uma LMS diferente
na confirmação de limiar, de aproximadamente
5 km/h a mais. Isto é, com o cavaleiro mais pesado
a LMS aferida foi de 18 Km/h. Ao utilizarmos o cavaleiro
mais leve, por uma razão compreensível e lógica,
o animal deslocou-se a uma velocidade de aproximadamente
23 Km/h, sem acumular lactato. Portanto, a determinação
da LMS em condições de campo, como parâmetro
de condicionamento físico em cavalos de sela, deve
ser realizada com o cavalo montado pelo seu próprio
cavaleiro, pois diferenças de peso e nível
de equitação podem proporcionar diferentes
resultados.
A coerência teórica da determinação
de limiar pelo protocolo LMS, confere confiabilidade aos
dados obtidos, e proporciona aos treinadores parâmetros
científicos obtidos a campo, e facilmente aplicáveis.
A determinação periódica da LMS pode
ser utilizada, respeitando-se diferenças raciais e
individuais, para a modulação da intensidade
de esforço no treinamento físico aeróbio
e anaeróbio, e também acompanhar a evolução
do condicionamento físico ao longo do tempo.
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