Técnicas & Veterinária Mal
da Segunda-Feira
por Alexandre Archanjo
O “mal da segunda-feira” ou mioglobinúria
paralítica é uma miosite, um processo inflamatório,
que acomete os músculos esqueléticos dos membros
posteriores do cavalo, causado por acúmulo de ácido
lático. Geralmente ocorre em eqüinos superalimentados
com concentrado durante longo período de repouso e
submetidos, posteriormente, a exercícios físicos
fatigantes.
Essa miosite também pode ser chamada mioglobinúria
paralítica, ou azotúria. Alguns também
a chama de tying-up, rabdomiólise por esforço
ou amarração, que pode ocorrer também
como seqüela de processos cirúrgicos ou qualquer
situação de stress do animal como cólica,
doenças infecciosas, condições adversas
de tempo, transporte. Aqui cabe uma consideração:
Apesar de serem distúrbios similares (mecanismo, sinais,
sintomas e tratamento), mioglobinúria paralítica é uma
patologia diferente de amarração; a primeira
moléstia é grave e a segunda branda. Outras
diferenças são vistas na clínica (intensidade
de sinais clínicos) e na microscopia (histopatologia).
Considerações feitas vamos ao mecanismo das
miosites em questão.
Em condições de exercício intenso,
o músculo trabalha em anaerobiose (produção
de energia na ausência de oxigênio) e, quando
está superalimentado, uma excessiva quantidade de ácido
lático é produzida. O ácido lático,
quando acumula nos músculos, causa necrose, com destruição
da membrana das fibras musculares (miofibrilas). Com o rompimento
das miofibrilas é liberada grande quantidade de mioglobina
que atinge a corrente sanguínea. Além da lesão
muscular, a mioglobina liberada passa pelos rins, pigmentando
a urina. Esse excesso de proteína no sangue e nos
rins leva à azotúria ou azotemia (aumento uréia
e creatinina no sangue) e pode causar lesão renal.
Lesões renais e outras alterações sistêmicas
podem levar o animal a óbito.
O aumento do ácido láctico na corrente sangüínea,
além das lesões musculares, causa um desequilíbrio ácido-básico
no plasma levando ao aumento da freqüência respiratória,
da freqüência cardíaca. Esse aumento da
quantidade de ácido láctico também é responsável
pelo fenômeno denominado acidose metabólica.
O equilíbrio ácido-base e a acidose metabólica,
assim como a insuficiência renal, são alterações
importantes, mas serão tratadas em artigos posteriores.
Os primeiros sinais do “mal da segunda-feira” podem
surgir logo após o exercício, porém
o mais comum é sua detecção na manhã no
dia posterior ao exercício forçado. Os principais
sintomas são stress muscular, rigidez à locomoção
(o cavalo pode assumir a posição de cachorro
sentado), tremores musculares, dor, incoordenação
motora, urina escura e congestão das conjuntivas.
Pode ainda apresentar sudorese (suor excessivo), desidratação
e aumento nas freqüências cardíaca e respiratória
e aumento da temperatura, principalmente na musculatura do
membro posterior.
Aos primeiros sinais um veterinário deve ser chamado
uma vez que a doença pode ser fatal, dependendo da
gravidade das lesões, e o tratamento deve ser iniciado
o mais rápido possível. Além disso o
veterinário indicará medidas para aliviar os
sintomas e prevenir novos casos.
A prevenção ainda é a melhor saída
para se evitar a ocorrência da miosite. Alguns aspectos
são importantes: a alimentação do cavalo
deve ser predominantemente composta por verde (capim ou feno
de boa qualidade), evitando excesso de concentrado (diminuindo
da quantidade oferecida durante os dias em que o cavalo não é trabalhado);
trabalhar o animal em dias alternados, pelo menos 20 minutos
diários de liberdade ou trabalho ao cabresto (somente
quando não for possível a liberdade); fornecer
suplementação com vitamina E e Selênio.
Deve-se, além de tudo, contar com um veterinário
especializado para avaliação dos animais antes
de iniciar um treinamento e respeitar suas orientações
de treinamento e manejo. Se, com todos esses cuidados, seu
cavalo ainda apresentar o mal da segunda-feira, comunique
com o veterinário e respeite, sem ansiedade, o período
de recuperação.
A grande maioria dos casos de miosite é provocada
pelo homem, por desconhecimento ou ansiedade por resultados
(ou dinheiro). O mais importante é respeitar os limites
do cavalo. Ao inocente, é importante salientar que
o cavalo tem boa memória e associa as sensações
a quem lida com ele. Se você exaurir ou cavalo toda
vez que o monta ele vai associar você ao estresse e
não vai estar disposto a ser montado e a colaborar.
Você então passa a ter uma vítima e não
um amigo.
Aos demais, muito cuidado. Se a ânsia é por
resultado, lembrem-se que um campeão se faz com calma
e constância nos trabalhos. O corpo do cavalo tem que
se adaptar aos poucos às exigências e, ainda
assim, cada animal possui um limite. Se o desempenho do seu
cavalo está abaixo das suas expectativas e não
evolui, você deve repensar seu programa de treinamento,
sob orientação profissional, ou buscar um animal
com um potencial genético maior. Agora, se a ânsia é por
dinheiro, vale lembrar que toda uma vida de investimentos
em animal pode se esvair em um dia de treinamento mal feito.
Treinar cavalos, levando-os além do limite é investimento
de altíssimo risco e, quase sempre, fadado ao fracasso.
Como vimos a mioglobinúria é um distúrbio
que pode ser evitado, com manejo e tratamento corretos e,
acima de tudo, respeito ao cavalo. Devemos ser responsáveis
ao interferir no modo de vida de outros animais para que
eles não nos temam e continuem dispostos a conviver
e a trilhar conosco, os caminhos de sua existência.
A escolha é nossa!
Alexandre Archanjo Carneiro
Graduando em Medicina Veterinária na Universidade
de Brasília – UnB.
Estagiário no Centro de Treinamento de Enduro Califórnia,
Brasília – DF.
Estagiário no Hospital Escola de Grandes Animais da
Universidade de Brasília – UnB.
alex_archanjo@pop.com.br
(61) 9622 4188
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