A razão desse artigo deve-se fato de observarmos,
com frequência, uma série de erros cometidos
no manejo de volumosos visando a nutrição
de eqüinos. Sem maiores pretensões, objetivamos
alertar os técnicos e demais pessoas envolvidas
no ramo para as consequências desagradáveis
de um mau manejo do complexo solo-planta-animal.
Comecemos pela escolha da forrageira. A eleição
da(s) forragem(ns) deve obedecer critérios técnicos
de zoneamento edafoclimático, onde o solo pode ter
suas características químicas modificadas
pela ação do homem (calagem, adubação,
etc), mas o clima é de controle inviável.
Por essa razão o zoneamento climático é fundamental,
bem como o conhecimento dos hábitos de crescimento
e características agronômicas da planta.
Normalmente, espécies forrageiras de elevada exigência
em fertilidade do solo são de alto valor nutritivo
para o cavalo. Deve-se atentar para a clássica pergunta:
qual é o melhor capim para o cavalo? A resposta
correta é: “Praticamente todos apresentam
aspectos positivos e negativos, cabendo ao técnico
a responsabilidade de saber utilizar adequadamente as características
de cada um”.
Deve-se evitar “modismos”desnecessários
como o mau exemplo da erradicação do quicuio
(Pennisetum clandestinum) nativo da região limítrofe
de Curitiba (PR) em favor do coast-cross e transvala.
Calagem e adubação
Observa-se que o processo de calagem executado na maioria
dos haras é feito de forma empírica, onde
o “chutômetro” acusa quase sempre a cifra
de 5t/alqueire (2t/ha). Na maioria dos casos o calcário é depositado
sobre o solo intocado e incorporado via aração
profunda. Como resultado do tombamento da leiva, o calcário
vai se localizar após os 25 cm de profundidade não
trazendo benefício na superfície.
Outras ocasiões, a forrageira é implantada
sem prévia correção do solo e, o calcário,
então, é distribuído em cobertura à área
plantada. Essa prática é altamente condenável,
pois o efeito da calagem em cobertura é infinitamente
menor que o calcário incorporado!
Outro erro grosseiro é o uso de adubos fosfatados
solúveis incorporados em solos ácidos, ou
ainda o uso de adubos pouco solúveis em solos com
pH acima de 6,0.
O velho ditado “A pressa é inimiga da perfeição” aplica-se
magistralmente nesse caso. Observa-se em grande frequência
uma pressa prejudicial no uso da pastagem implantada, e
essa utilização precoce leva à deterioração
da massa vegetal em pouco tempo.
O ideal seria uma ceifa da forrageira e não a utilização
como pastejo, por ocasião do primeiro corte. Caso
não seja possível, deve-se protelar ainda
mais a entrada de animais no pasto.
Dimensão, ração e adubação
Quase sempre os piquetes são muito grandes e o
número de animais em pastejo, dentro do piquete, é muito
pequeno. Como resultado dessa combinação,
temos áreas subpastejadas (crescimento elevado da
forragem e perda do valor nutritivo) ao lado de locais
superpastejados, onde a emissão da brota do capim é imediatamente
acompanhada de corte pela boca do animal. Visualmente,
o piquete apresenta massa forrageira, mas na prática
não há consumo do excedente e ocorre degradação
das áreas hiperconsumidas.
Como o rodízio dos piquetes demora muito para ser
efetuado essa situação de desequilíbrio
entre o crescimento da forragem e o consumo da mesma, perdura
por um longo tempo.
Quando o haras não tem um programa nutricional
racional, o desbalanço entre os nutrientes provoca
um comportamento típico dos equinos no pasto: eles
se acumulam no canto do piquete, e permanecem parados com
temperamento linfático (“ar de boi sonso”)
durante horas.
Esse comportamento agrava o quadro de degradação
da pastagem descrito no ítem anterior e indica que
a nutrição no haras está errada!
Infelizmente devemos ressaltar que “o pasto serve
para o cavalo se alimentar e não para deleite visual
do proprietário”. Observa-se com bastante
frequência uma utilização inadequada
de adubo nitrogenado em cobertura, visando basicamente
alterar a coloração da forrageira. Essa prática
resulta no aumento de compostos nitrogenados não
proteicos na planta (aminas, amidas, nitrosaminas, nitritos
e nitratos) com prejuízo a médio e longo
prazo da saúde animal.
Um haras bem manejado nas suas pastagens apresenta um
constante consumo da forragem, estado nutricional dos animais
perfeito e mudanças na coloração da
forrageira de acordo com o uso e a época do ano.
Deve-se desconfiar do verde-azulado constante que exibem
alguns haras ao longo do ano, pois isso evidencia uso abusivo
de adubo nitrogenado e/ou adubação fora de época.
O uso de irrigação para forrageiras tropicais
durante o “inverno”, potencializa os efeitos
deletérios da adubação (válido
para as condições de SP, PR, SC, Sul de MG
e MS).
Erros na fenação de gramíneas
Infelizmente a esmagadora maioria dos haras que apresenta
estrutura de fenação não consegue
produzir feno, somente palha (cama). O verdadeiro feno
de gramínea deve apresentar coloração
esverdeada, consistência macia, odor característico
e ausência de substâncias estranhas. Os maiores
erros observados no processo de fenação serão
relatados a seguir.
O processo de fenação nunca acrescenta nada
ao material original. Assim sendo se o capim a ser ceifado
for passado, descolorido, praguejado e fibroso, seu feno
correspondente apresentará obrigatoriamente essas
características indesejáveis. Quando se fornece
esse material para o cavalo e, obviamente, ocorre rejeição,
atribui-se imprópria e genericamente ao fato de
que “equinos não gostam de feno de gramínea”.
Relaciona-se diretamente com o ítem anterior. Observa-se
na grande maioria das propriedades que o processo de fenação
se dá principalmente de março/abril até setembro.
Essa época coincide com a ausência de chuvas,
mas o capim já floresceu, amadureceu e quase sempre
perdeu o valor nutritivo!
O processo de fenação deve obrigatoriamente
coincidir com a época de maior crescimento vegetativo
da gramínea, ou seja, de outubro a março.
Deve-se cortar uma área cujo tamanho permitirá realizar
todo o processo de fenação no máximo
em dois dias. Observa-se que na maioria dos haras, a área
ceifada ‘so permite a conclusão dos trabalhos
4-5 dias após a ceifa, o que logicamente aumenta
os riscos de perda no campo.
As áreas que são fenadas implicam a exportação
total dos nutrientes, pois não há forma de
reciclagem dos mesmos. As adubações devem
ser realizadas após cada corte e sempre com critérios
técnicos.
Uso da irrigação
Para uma forrageira tropical produzir é necessária
uma combinação de luz (foto-período),
temperatura e água. Qualquer um desses fatores,
se porventura ausente, compromete o processo produtivo
da pastagem. Por esse motivo não há razão
técnica para se proceder a irrigação
de pastagens tropicais visando produção invernal,
uma vez que a água não é o único
fator limitante (a temperatura é menor e a luminosidade
também).
A irrigação torna-se bastante interessante
na formação de pastagens de coast-cross em áreas
de grande infestação de braquiaria (formação
durante o inverno).
Erros na produção de alfafa
Ainda hoje, início do século XXI, encontramos
propriedades e publicações que fazem e preconizam
técnicas de produção de alfafa vigentes
no século passado, na década de 20!! Catalogamos
a seguir alguns erros.
Infelizmente alguns pseudotécnicos insistem em
menosprezar a técnica consagrada da inoculação
da semente de leguminosa com o rizóbio específico.
Além de prescindir da adubação nitrogenada,
a simbiose resultante provoca maior qualidade nutricional
da alfafa e maior longevidade do alfafal.
Alguns haras procedem a inoculação corretamente,
mas por ignorância ou má-fé adubam
em cobertura o alfafal com nitrogênio (nitrocálcio
ou similar). Quando se procede a adubação
nitrogenada do alfafal provoca-se a morte do rizóbio,
cessando, portanto, os efeitos positivos da simbiose.
Muita ênfase é dada para os elementos e cálcio
e fósforo que, a despeito de sua indiscutida importância
relegam a segundo plano nutrientes como o potássio
e boro, reconhecidamente fundamentais no processo de produção
da alfafa. Adubações orgânicas, embora
bem-vindas, não procedem milagres e resultam, na
maioria das vezes, em alfafais pouco produtivos e com alta
infestação de ervas daninhas.
Alguns haras cometem absurdos de se proceder adubações
foliares de macro-nutrientes, onde o nitrogênio quase
sempre está presente. A recomendação
da adubação foliar com micronutrientes só se
justifica perante caso reconhecido de carência e/ou
deficiência e que exija rapidez de ação.
Qualquer outra situação evidencia desconhecimento
técnico da cultura da alfafa.
Cortes com alfanje
Com honrosas e raríssimas excessões o operador
do alfanje é incapaz de proceder o corte do alfafal
na altura recomendade que é no mínimo de
8 cm do solo.
O uso contínuo do alfanje provoca ceifa da brotação
basilar resultando em decréscimo no vigor da brota
da alfafa e grande ocorrência de mortalidade das
plantas estabelecidas. O corte deve ser realizado com máquinas
apropriadas (segadora), reguladas para uniformidade de
altura quando em operação.
Juntamente com o alfanje, a enxada completa a dupla mais
responsável pela degradação dos alfafais
nas nossas condições. A enxada sempre afeta
a área radicular e a região da coroa da planta,
concorrendo para o aparecimento de infecções
secundárias e morte das plantas.
Deve-se evitar ao máximo o uso de enxada dando-se ênfase
ao uso correto de herbicidas e, na pior das hipóteses,
ao arranquio manual da invasora. Quando o alfafal é bem
planejado na sua implantação, a ocorrência
de invasoras é mínima e de fácil controle,
dispensando o uso de mão-de-obra para manter limpa
a cultura.
Secagem inadequada
A alfafa é um produto nobre, caro e não
deve ter seu valor nutritivo diminuído no processo
de secagem e armazenamento. Raros são os haras que
conseguem efetuar fenação a campo de modo
satisfatório, de modo que a secagem artificial (à sombra,
ou secador) é a mais utilizada.
Observa-se que muitas propriedades procedem secagem excessiva,
causando queda de folhas com consequente diminuição
do valor nutritivo do feno. Outras fazendas associam a
secagem inadequada com o corte tardio da alfafa, uma vez
que interessa somente a produção/área
e não a qualidade do produto.
O comprador de feno de alfafa deve aprender a comprar
o material pela qualidade nutricional que é dada
pela conjunção de: análise bromatológica,
coloração esverdeada, maciez ao tato, presença
abundante de folhas e ausência de bolor e/ou processo
fermentativo e ausência de material estranho.
Finalizando os erros, cita-se ainda os preconceitos contra
determinadas forrageiras que nada mais evidencia do que
ignorância de suas aptidões agronômicas;
a resistência na adoção de técnicas
de controle de erosão (curvas de nível, terraceamento,
etc) nas pastagens etc etc.
Aos proprietários de haras e seus encarregados
técnicos cabe a obrigação de aperfeiçoar
o processo produtivo dentro de princípios racionais
e econômicos, dando à “indústria
do cavalo” sua real dimensão dentro do contexto
zootécnico que se insere.