C A N A I S




Técnicas & Veterinária
PATOLOGIA BÁSICA DAS PRINCIPAIS ENDOPARASITOSES DE EQUINOS
E CONTROLE ESTRATÉGICO COM ivermectina 200 mcg/kg (Eqvalan Pasta) OU ivermectina 200 mcg/kg + praziquantel a 1mg/kg (Eqvalan Gold)

Edson Luiz Bordin, DVM, Patologista
Merial Saúde Animal Ltda

Infecções parasitárias são extremamente importantes entre os eqüinos e tendem a comprometer essa espécie, em escala maior ou menor, durante toda a vida do animal. Dessa forma existem parasitos que se notabilizam em comprometer animais novos, tendendo a desaparecer com a idade, como o Strongyloides westery e o Parascaris equorum, enquanto outros ocorrem independentemente da idade e/ou estado imunológico, como os pequenos e os grandes estrôngilos, entre outros. Nessa revisão serão abordados principalmente esses patógenos, complementando-se com a tênia Anoplocephala perfoliata, cuja importância cresceu com o advento das últimas gerações de drogas desenvolvidas para o controle dos vermes redondos.

Iniciando com os pequenos estrôngilos, atualmente se sabe que desempenham uma patogenicidade bastante importante, sobretudo quando na forma da temida ciastostomíase larval. Essa condição afeta animais jovens e ocorre quando; após a eliminação de exemplares do parasito adulto alojado no lume intestinal; emergem da sub-mucosa uma grande quantidade de formas larvares que estavam em estado hipobiótico ou em estágio histotrófico. Essa condição determina uma intensa enterite catarral com sintomas correlatos de desidratação e por vezes estados toxêmico. A morte não é um evento raro. É muito peculiar nesses casos o achado de formas larvares nas fezes, sendo que o OPG tende a apresentar-se negativo a ovos de tricostrongilideos. O controle estratégico com drogas efetivas contra esses estágios histotróficos e distribuídas taticamente, tende a prevenir de forma eficaz essa ocorrência. Vale lembrar que praticamente não há drogas capazes de eliminar formas hipobióticas, já que essas, por apresentar um metabolismo mínimo, pouco contatam a molécula! No entanto as fases não letárgicas, embora também encapsuladas, continuam sensíveis à ivermectina (Eqvalan). Já o tratamento de casos clínicos de ciatostomíase larval requer o uso de antibióticos e também corticóides por 3 a 5 dias, estando descartados os antihelmínticos.

No que se refere à patogenicidade dos pequenos estrôngilos enquanto adultos, ela é relativa e depende da carga parasitária já que este estágio é anemiante. Altas infecções podem também resultar em cólicas verminóticas, embora nem sempre seja esta a conseqüência. Por vezes causam diarréia aquosa com probabilidade de desidratação. Resta lembrar que o ciclo de vida dos pequenos estrôngilos (mais de 70 espécies descritas), é curto, com aproximadamente 8 semanas, e esse fato deve ser levado em consideração na elaboração de programas de controle, pois o período pré patente sendo curto, faculta a um grau constante de contaminação ambiental.

Os grandes estrôngilos, por outro lado, continuam sendo extremamente importantes, e lesões causadas por uma das espécies desse gênero ( S. vulgaris), notadamente em sua forma larvária, compromete, na forma de uma patologia vascular bem identificada, mais de 90% dos eqüinos, sendo, de acordo com Bandarra (1990) mais encontrada em PSI. Aparentemente, a infecção determinada por esse helminto, não é afetada pela idade, e para o encontro das formas adultas do parasito são requeridos aproximadamente 6 a 7 meses. Por outro lado, as formas larvares arteriais já podem resultar em sinais importantes em animais bastante jovens já com poucas semanas da infecção. Embora a revisão detalhada do ciclo de vida desse parasito não seja prioridade dessa revisão, convém que alguns tópicos importantes ao entendimento da patogenia do mesmo sejam abordados. O S. vulgaris, como todos os demais estrôngilos, desenvolve-se num ciclo direto, envolvendo uma fase externa, a qual como se sabe inicia-se com ovos passados às fezes dos quais eclodem larvas, que por sua vez, ainda no meio externo, experimentam mudas sucessivas até atingir a forma infectiva, ou L3. Evidentemente esse período é afetado pelas condições climáticas. Uma vez que as larvas sejam ingeridas pelo hospedeiro, e após livrarem-se das cutículas protetoras, inicia-se o ciclo evolutivo que pode ser assim sumarizado: “Depois de ingeridas, as larvas L3 penetram na mucosa e sub-mucosa do intestino delgado, ceco e colon ventral após alguns dias da infecção, mudando nesse nível a L4 com aproximadamente 7 dias. Posteriormente, valendo-se de ação enzimática ainda não bem definida, penetram à luz das pequenas artérias da sub-mucosa , migrando por sobre a íntima e locomovendo-se contra o fluxo sanguíneo em busca dos ramos anteriores da artéria mesentérica. Tal fato tende a acorrer com aproximadamente 3 a 4 semanas da infecção e já pode originar fenômenos de cólicas, dependendo do nível de obstrução e eventual isquemia segmentar que originem. Uma vez atingindo esse ramo arterial, ali permanecem por aproximadamente 120 dias, quando então retornam, pela luz arterial ao intestino grosso, quando ao evoluírem à fase L5, penetram no lúmen intestinal sem antes permanecerem algum tempo na serosa do órgão em nódulos parasitários peculiares e facilmente identificáveis. Posteriormente acasalam-se e passam a produzir ovos que são eliminados com as fezes reiniciando-se o ciclo biológico”.

Extremamente impactante como fator de patogenicidade é o período em que as larvas permanecem no lume arterial, quer seja da mesentérica cranial ou algum de seus ramos, como o íleo-ceco-cólico. Nesse nível as larvas determinam inicialmente uma arterite fibrinosa, e trombose com eventual embolismo como conseqüências usuais. A redução ou oclusão dos vasos afetados, o qual depende do tipo de trombo, pode diminuir ou mesmo interromper o fluxo sanguíneo, podendo levar à moderada ou severa isquemia com eventual necrose de segmentos intestinais correlacionados com os ramos obstruídos. Tal fato pode levar à intensas cólicas ou morte por toxemia, ou então as mesmas podem decorrer de pressão mecânica sobre os plexos nervosos autônomos pelas lesões proliferativas comuns da arterite, também denominado “aneurisma” verminótico. Nesse caso, as cólicas ocorreriam pela redução da motilidade intestinal, que no eqüino é normalmente alta. O quadro morfológico da arterite verminótica acima referida caracteriza-se por inflamação proliferativa da parede do vaso com intensa hipertrofia da musculatura lisa. Calcificação distrófica é freqüentemente observada. Interessantemente, essa lesão, em que pese a característica intensamente proliferativa da mesma, pode regredir após a morte larval, conforme já descrito em estudos conduzidos com ivermectina a 200 mcg/kg , em comprovações arteriográficas conduzidos por Slocombe ( 1987) . Curiosamente, é graça à extrema e complexa anastomose vascular mesenterial, que as conseqüências da patologia larval acima descrita, não são tão desatrosas à economia animal. Ou sejam, os fenômenos trombo-embólicos tendem a ser contornados pela vasculatura colateral, diminuindo assim, em parte, os efeitos negativos do parasitismo naquele estágio.

Continuando a revisão da patologia de alguns dos principais helmintos em eqüinos, passamos ao Parascaris equorum. Conforme citado, esse helminto compromete animais novos, com até aproximadamente 1 ano de idade, e quando em infecções intensas chega a determinar obstrução intestinal alta. O ciclo parasitário desse patógeno evidencia a produção, em grande escala, de ovos embrionados, extremamente resistentes ao ambiente, os quais, após ingeridos liberam larvas que migram pelo fígado já há 24 horas da ingestão, atingindo posteriormente os pulmões com aproximadamente 2, 3 ou 4 semanas da infecção, quando então evoluem a estágios superiores antes de retornarem ao intestino como pré adultos. O período pré-patente desse parasito é de no mínimo 70 dias, ou sejam, novos ovos somente serão encontrados nas fezes dos animais infectados depois de transcorrido esse período. Evidentemente, em termos lesionais, algum nível de alteração morfológica já se registra no parênquima hepático, na forma de uma hepatite traumática multifocal com hemorragias. Essa lesão é tão mais evidente quanto mais hipersensibilizado for o animal. Dessa forma, animais que são mais desafiados tendem sempre a apresentar um quadro hepático mais intenso. Apesar da importância relativa da lesão hepática, é no parênquima pulmonar que essa patologia é mais intensa. A migração parasitária pelo parênquima do órgão determina pneumonia intersticial e principalmente hemorragias alveolares quando as larvas emergem pelos alvéolos em busca dos condutos bronquiais. Essas hemorragias também podem ser observadas na pleura. Nesse momento podem ocorrer sinais respiratórios, incluindo descargas nasais, tosse e também perda de peso, embora essa última tenda a se registrar acompanhando a localização intestinal do parasito. No tubo digestivo, morfologicamente há uma enterite catarral, porém não são ocorrências raras a obstrução segmentar completa pela presença de grande número de parasitos no lume do órgão. Após um ano de idade as infecções por esse agente diminuem pelo status imunológico do animal.

O Strongyloides westeri é um nematoda relativamente freqüente em potros e afeta segmentos do intestino delgado. Quando em infecções pesadas, pode determinar enterite catarral com rápida desidratação. A transmissão desse patógeno se dá principalmente via colostral ou pelo leite da égua infectada. Esse namatoda pode também ser infectante via pele através de larvas produzidas pelos estágios livres, machos e fêmeas, deste parasito, no ambiente. Evidentemente, o melhor meio de se evitar a contaminação do potro é através do tratamento tático da égua imediatamente antes do parto. Esse tratamento é também estratégico porque diminui a infestação ambiental e taxa de translação larvária.

Considerando-se as tênias, acredita-se que antes do advento da ivermectina, a freqüência e também a patogenicidade real desse parasito era discutível. Posteriormente à introdução no mercado daquela molécula, as infecções por esse cestoda passaram a ser mais comum, já que a eliminação dos nematodas daria ensejo à multiplicação livre dos cestodas. Considerando-se nossa epidemiologia, há duas espécies importantes, ou sejam, Anoplocephala magna e A. perfoliata. Esses parasitos possuem um ciclo biológico indireto e utilizam alguns ácaros oribatídeos como hospedeiros biológicos. A patologia, principalmente da A. perfoliata registra normalmente processo inflamatório na região da válvula ileocecal através ulcerações ou erosões da mucosa, notadamente nas áreas onde se agrupam parasitos. Há inclusive registro de obstrução segmentar pela presença do parasito com atonia visceral correspondente. No caso da A. magna, as lesões resultantes, são bem mais discretas. Com métodos apropriados, esse parasito pode ser também identificado nas fezes, observando-se os proglotides ou ovos. A utilização estratégica de tenicidas como o praziquantel a 1 mg/kg aliado à ivermectina (Eqvalan Gold) resulta usualmente num controle efetivo desse agente. Evidentemente, o protocolo curativo é diferente do protocolo preventivo quando se trata de controlar esse parasito. A administração da molécula, em início de primavera e um tratamento repetido no outono-inverno, usualmente mantém baixo o nível de infectibilidade com transtornos clínicos.

Existem outros parasitos, também importantes patógenos, porém menos prevalentes, cujos controles em associação aos mais freqüentes abordados acima, passaram a ser possível numa base racional e com relação custo-benefício positiva, com o uso da ivermectina (Eqvalan Pasta). Assim, parasitos como o Habronema sp, o Oxyuris equi, o Trichostrongylus axey, o Gasterofilus sp assim como o agente da onchocercose passaram a ser controlados dentro de um mesmo protocolo operacional como parte de um programa antiparasitário global.

O que se busca num controle parasitário efetivo é notadamente a ausência de episódios de cólicas verminóticas e um amplo desenvolvimento ponderal do animal além da compatibilidade com o que dele se espera em termos de produtividade. Em linhas gerais, por falta de informação global sobre a epidemiologia dos parasitos gastrintestinais de eqüinos, não se é possível elaborar protocolos de uso puramente estratégicos com base na dinâmica populacional desses patógenos, como atualmente preconizados para ruminantes. Ao contrário, se utilizam mais aqueles programas que incluem dosificações táticas mais correlacionadas com o período de patência dos parasitos e/ou momentos fisiológicos importantes, como a dosificação pré-parto, por exemplo. Há também a possibilidade de se adequar um esquema tático de uso com a necessidade real baseada no numero de ovos de parasitos expresso por grama de fezes, que aproximadamente retrata um certo nível infectivo. Muito provavelmente, em face do perigo potencial representado pela resistência de parasitos, que em eqüinos está muito bem caracterizado com benzimidazóis e pequenos estrôngilos, se faz necessário considerar com ênfase a prática correta do uso de OPG como indicador, e para tal, provavelmente os critérios de contagem de ovos devam também mudar, tornando-se mais flexível e amplo, talvez com a adoção de 1000 ovos por grama como indicador mínimo de necessidade de tratamento, em contraste com os anteriores 300-500 ovos, como chegou a se praticar no passado e ainda se pratica em algumas regiões. Por outro lado, provavelmente estejamos vivendo um momento em que se deva adotar como prática, a avaliação das drogas antiparasitárias, antes de serem incorporadas num programa. Para tal pode-se eleger um determinado grupo de animais tratáveis, entre 5 a 10, e proceder com OPGs individuais, tratá-los e averiguar o percentual de redução na contagem com 14 dias após. Uma droga realmente efetiva deve propiciar um percentual de redução na ordem de 95%. Se não ocorrer uma redução apreciável, uma ineficácia, de causa a investigar, pode ser deduzida.

Em termos gerais, considerando-se um controle efetivo de episódios de cólicas verminóticas num plantel, pode-se manter como parâmetro, a tabela abaixo:

DOSIFICAÇÕES REGULARES COM ivermectina 200 mcg/kg (Eqvalan Pasta)/ RISCOS DE CÓLICAS VERMINÓTICAS

POSOLOGIA RISCOS DE CÓLICAS
2 vezes ao ano (uso semestral) Existente/provável
3 vezes ao ano (a cada 4 meses) Existente (em menor nível)
4 vezes ao ano (a cada 3 meses) Bastante minimizado
6 vezes ao ano (bimestral) Praticamente ausente

Encerrando essa revisão, necessário se torna lembrar aos médicos veterinários da importância cada vez maior de um trabalho qualificado na manutenção da saúde dos rebanhos, e com respeito ao controle parasitário, essa prática requer qualificação mínima apropriada que somente este profissional detém!

BIBLIOGRAFIA

1- Bandarra, E.P; Estudo das lesões arteriais causadas por S. vulgaris em eqüinos na região de Botucatu, Estado de São Paulo, Tese Mestrado. Faculdade de Medicina veterinária. Botucatu, 1990
2- Bordin, E.L ; Programa de controle parasitário anual para eqüinos com o uso de Eqvalan. Simpósio Merial de Atualização em Eqüinocultura. São Paulo, 1995
3- Nierbele and Cohrs; TextBook of the special pathological anatomy of domestic animals. Oxford, Pergamon Press. London. 1967
4- Slocombe, J.O.D; Evaluation of ivermectin against migrating S. vulgaris larvae. Canadian Journal of Comparative Medicine. 1980


TÉCNICAS
&
VETERINÁRIAS