Técnicas & Veterinária
Treinamento total e preparação física
por Sylvio Bitencourt

Com a evolução do Enduro Eqüestre, atingimos um patamar bastante promissor de excelentes conjuntos. O número de participantes realmente competitivos aumentou muito e a média de velocidade também. Cada vez mais a preparação criteriosa e o detalhe fazem a diferença entre o vencedor e o mero coadjuvante.

Seguindo o conceito do Treinamento Total (preparação técnica, psicológica, médica / veterinária, tática e física) e observando a atual realidade competitiva, precisamos não somente que o cavalo tenha uma excelente preparação física mas também o cavaleiro.

Porém, o que é necessário para a realização de uma preparação física adequada? Precisamos somente fazer musculação? Se cavalgarmos todos os domingos, o dia todo, será suficiente? Se eu correr três dias por semana estarei preparado?

Para respondermos estas questões, inicialmente precisamos saber o que necessitamos fisicamente para realizar uma prova, sem prejudicar o animal com uma equitação inadequada devido ao cansaço. Temos que entender alguns conceitos básicos que norteiam a preparação física.

Antes de tudo, precisamos identificar quais qualidades físicas são necessárias para a pratica do esporte pretendido. São as chamadas qualidades físicas intervenientes.

Pelas características do Enduro Eqüestre, as qualidades físicas a serem desenvolvidas são: flexibilidade, resistência muscular localizada (capacidade muscular de repetir por um grande número de vezes um movimento sem perda de qualidade), velocidade de reação, resistência aeróbica e equilíbrio (habilidade motora).

Identificadas as qualidades, precisamos saber como desenvolvê-las. A resistência aeróbica podemos desenvolver com vários métodos, o mais simples é denominado esforço contínuo (corrida, ciclismo, cavalgada, etc. em uma velocidade regular). O equilíbrio deverá ser específico e desenvolvido, principalmente montando os cavalos. A flexibilidade podemos trabalhar com o método passivo, conhecido normalmente como alongamento. A resistência muscular localizada podemos desenvolver com musculação ou exercícios de ginástica localizada conjuntamente com longos treinamentos montando os cavalos.

Mas e a quantidade e intensidade do treinamento? Quanto tempo, qual a distância e com qual velocidade devo correr? Qual a freqüência semanal dos treinamentos? Quais exercícios localizados devo fazer? Como cada um de nós tem uma capacidade especifica (principio da individualidade biológica) e um estagio de condicionamento, não temos como responder com exatidão.

Podemos entretanto, para aqueles que não possam ou não queiram um acompanhamento profissional, fornecer algumas dicas muito úteis:

  • As qualidades físicas devem ser trabalhadas de 3 a 5 vezes por semana. A diferença percentual de rendimento de 3 vezes por semana para 5 vezes por semana é de apenas 5%. Como a maior freqüência aumenta o risco de lesão e de "sobretreinamento", acreditamos que para o nosso esporte 3 vezes seja mais indicado.
  • Para termos desenvolvimento temos que apresentar um estimulo razoável ao organismo (principio da adaptação). Se as cargas de trabalho forem muito pequenas não oferecem estimulo. Se as cargas forem muito fortes geram "sobretreinamento". O ideal é que iniciemos com uma carga pequena, por segurança, para depois irmos aumentando o esforço. perde-se algum tempo de treinamento mas evitamos lesões.
  • Normalmente o tempo de adaptação do organismo ao treinamento é de 3 a 4 semanas. Após este tempo devemos aumentar a carga de trabalho (principio da sobrecarga) senão nosso desenvolvimento fica estagnado. A sobrecarga pode ser feita aumentando-se a distancia, a velocidade, a duração, a freqüência semanal, o peso, o numero de repetições, etc.
  • O trabalho muscular deve ser feito com cargas pequenas e grande numero de repetições. Deve-se trabalhar bastante a musculatura do abdômen e das costas, muito exigidos na equitação, alem dos das pernas, coxas e quadris.
  • O estimulo (trabalho) é tão importante quanto o repouso.
  • Se não foi possível treinar um determinado dia, não faça o dobro do trabalho no próximo treino, não é produtivo e expõe o atleta à lesões.
  • O treinamento deve ser continuo, ter uma freqüência consistente (principio da continuidade). Interromper o treinamento gera grande perda de condição e temos que retornar a estágios anteriores ao do momento da parada.

Enfim, a preparação física do cavaleiro pode definir a vitória, portanto, é importante que você se prepare se quiser atingir grandes objetivos. Se puder, procure um profissional de educação física, um médico para liberá-lo para a atividade e arrume um tempo para sua preparação. Se as vitórias não vierem, com certeza, ao menos sua qualidade de vida e sua saúde serão bem melhores.

Sylvio Bitencourt, é endurista e professor de Educação Física. Proprietário da Academia Trainer, em Caçapava. Integrou a Equipe Brasileira de Enduro nos WEGs 2002


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