Técnicas & Veterinária
Síndrome
da Exaustão Eqüina
por Mauricio Bittar

Exaustão é uma síndrome
caracterizada por transtornos físicos e mentais,
desencadeados por exercícios físicos intensos
em condições de calor e umidade elevados,
ocorrendo devido uma sobrecarga ou falha no sistema de
termorregulação eqüina. Durante a atividade
física, em condições de temperatura
e umidade elevadas, a termorregulação fica
comprometida e o organismo eqüino apresenta dificuldades
para conseguir eliminar o calor gerado pela musculatura
exercitada, acrescido do calor ambiente. Quanto maior
forem a temperatura e a umidade ambiente, menor será
a perda de calor.
Dois mecanismos são utilizados pelo cavalo para
promover a termorregulação:
1 – Sudorese:
A sudorese realizada pela pele, como no homem, trata-se
do principal mecanismo. A eficiência da termorregulação
eqüina através do suor dependerá da
sua evaporação, a qual se tornará
diminuída ou impedida se o ar estiver saturado
de umidade.
2- Ventilação:
Durante a inspiração, parte do calor corpóreo
é transmitido da mucosa do trato respiratório
superior para o ar, que ao chegar aos alvéolos
é saturado com vapor de água. Na expiração
parte desse calor volta para a mucosa e ocorre uma porcentagem
de condensação da água. A diferença
entre o calor transferido para o ar inspirado e o calor
transferido de volta para as mucosas é o resultado
da perda de calor pelo trato respiratório.
Quando corridas de cavalos, provas de enduro ou provas
de fundo do Concurso Completo de Equitação
são realizadas em climas extremamente quentes,
aumentam concomitantemente as demandas de energia e irrigação
sanguínea para a musculatura continuar a se exercitar,
e para a pele promover a troca calórica. Para tanto,
o sistema cardiovascular aumenta o seu trabalho, elevando
a freqüência cardíaca e o volume sanguíneo
ejetado pelo coração. Caso a perda de água
e eletrólitos (sais orgânicos) através
do suor for intensa, ou o cavalo apresentar-se levemente
desidratado anterior a competição, o volume
de sangue a ser movido pelo coração estará
diminuído, a pressão arterial sofrerá
queda e em resposta o coração irá
trabalhar mais intensamente.
Com a diminuição do volume sanguíneo,
o fluxo para a pele estará diminuído, assim
como a sudorese, prejudicando a termorregulação;
além disso, menor quantidade de substratos energéticos
chegarão à musculatura e ao sistema nervoso
central podendo levar ao colapso e morte.
Devido à deficiência na termorregulação,
ocorrerá a hipertermia (aumento da temperatura
corporal), a qual terá efeitos avassaladores sobre
todos os tecidos orgânicos, principalmente, cérebro,
coração, vasos sanguíneos, rins,
fígado, pulmões e musculatura esquelética.
O rápido reconhecimento e o tratamento da condição
reduzem a severidade da síndrome de exaustão.
Os animais afetados apresentam sinais de stress, fadiga
significativa, desidratação, e elevação
persistente da freqüência cardíaca e
respiratória.
Nos animais com bom condicionamento físico e boa
função do sistema termorregulatório,
após um período de repouso de 30 minutos,
a freqüência cardíaca deve baixar para
menos de 55 batimentos por minuto, a respiratória
para 25 movimentos respiratórios por minuto e a
temperatura corporal para menos de 39,5° C.
Qualquer animal que apresente uma elevação
significativa e persistente da freqüência cardíaca
e respiratória, ou da temperatura retal, não
deve continuar o exercício ao qual estava sendo
submetido.
Estes animais devem receber pequenas quantidades de água
fresca, em intervalos freqüentes, e permitido o acesso
a uma comida palatável, além disso, devem
ser observados de perto até a sua completa recuperação.
Cavalos que apresentarem uma elevação marcante
da temperatura retal (maior que 40,5°C) devem ser
resfriados o mais rápido possível. Banhos
de mangueira com água fria sob a briza natural
em um ambiente aberto auxiliam na perda de calor por convecção
e evaporação. Atenção especial
deve ser dada no resfriamento da cabeça, do pescoço
e de grandes vasos subcutâneos entre os membros
posteriores. Enemas com água fria e administração
de fluidos via sonda nasogástrica também
auxiliam na diminuição da temperatura corpórea.
A fluidoterapia deve ser instituída imediatamente
nos animais que apresentarem sinais severos ou que não
responderem de forma efetiva ao tratamento conservador
dentro de 30 minutos. O volume exato e a via de administração
irão depender da severidade dos sinais clínicos.
Na grande maioria das vezes a via de eleição
é a intravenosa, e o volume a ser administrado
pode ser superior a 50 litros de solução
isotônica.
Os animais afetados por síndrome de exaustão
não devem ser transportados nas 12 a 24 horas subseqüentes,
porque uma alta atividade muscular está associada
ao transporte prolongado, o que aumenta os riscos do desenvolvimento
de problemas pós-exaustão. Isto inclui problemas
musculares severos, laminite (aguamento) e falência
renal.
Os riscos de um animal desenvolver síndrome de
exaustão são reduzidos com uma preparação
adequada e um manejo cuidadoso durante as competições,
sempre levando em conta os efeitos das condições
climáticas (umidade relativa do ar e temperatura
ambiente) durante o evento.
Referências Bibliográficas
MCCONAGHY, F. Thermoregulation. In: HODGSON, D. R.; ROSE,
R.J. The Atletic Horse. Philadelphia, U.S.A.: W.B. Saunders,
1994. p. 181-199.
MONREAL, L.; SEGURA, D. Urgencias metabólicas
post-esfuerzo. In: BARCELONA, F.V.; MONREAL, L. Consulta
de Difusión Veterinaria. Valencia, Spain, v. 08,
p. 47-56, 2000.
CLAYTON, H. M. Endurance Racing. In: Conditioning Sport
Horses. Saskatoon, Canada, v. 18, p.213-228, 1991.
Dr. Mauricio José Bittar é Médico
Veterinário oficial da ABHIR (Associação
Brasileira de Hipismo Rural) e atua nas áreas de
Clínica, Radiologia, Anestesiologia, Odontologia
e Medicina Esportiva Eqüina.