Técnicas & Veterinária
Manejo
e tratamento de feridas em eqüinos
por
Henry Berger, DVM, MS
A natureza do cavalo, caracterizada por comportamento ativo
e respostas rápidas, associadas à realização
de atividades atléticas, o predispõe a injúrias
traumáticas, especialmente em membros. Problemas relacionados
ao manejo, como pastagens sujas e instalações
precárias também constituem causas importantes
destes processos. Os cavalos entram em pânico em muitas
situações e fazem tentativas violentas de fuga
em situações de restrição ao movimento.
Arames farpados constituem a causa mais comum de feridas, embora
muitos outros objetos possam ser incriminados. Desta forma,
a abordagem de feridas em eqüinos é um procedimento
de rotina para os profissionais que trabalham com esta espécie.
Avaliação da Ferida
Ao se abordar feridas abertas, o veterinário deve instruir o proprietário
sobre os cuidados apropriados da lesão, antes do transporte do animal
até a clínica ou a chegada do profissional ao haras. As instruções
resumem-se a não fazer nada mais que aplicar uma atadura de algodão
ou improvisar uma faixa de tecido, as quais devem estar perfeitamente limpas
e firmes no local. A utilização de fraldas descartáveis é ideal
para pequenas lesões. A aplicação de bandagens ajuda na
proteção da ferida, prevenção de contaminações
e contenção de hemorragias. A aplicação de anti-sépticos,
pomadas e pós devem ser evitadas uma vez que eles podem aumentar a possibilidade
de contaminação adicional e provocar irritação
química da lesão, além de tornar a limpeza e o debridamento
difíceis se houver condições de fechamento primário.
Assepsia da Ferida
A remoção de pêlos na área da lesão reduz
a contaminação superficial das lesões durante o fechamento.
Embora a tricotomia seja um procedimento vantajoso, não exime o tecido
de infecções, tendo sido descrito na espécie humana, uma
taxa de infecção em pacientes após tricotomia 5,6% maior
quando comparada com 0,6% após depilação. Agentes antimicrobianos
ou anti-sépticos podem ser adicionados às soluções
para lavagem da ferida e redução da contaminação
bacteriana local. Embora haja vários agentes que possam ser adicionados,
os mais populares são as soluções diluídas de Iodopovidine
(PI) e clorhexidina, que não causam efeitos deletérios significantes
ao tecido traumatizado.
Uso de Antimicrobianos
A necessidade de terapia antimicrobiana deve se justificar antes de iniciada,
uma vez que os antibióticos podem não ser necessários
na terapêutica de todas as feridas. O uso destes medicamentos é dirigido à prevenção
de infecções ou para eliminar infecções já estabelecidas.
A utilização isolada de antibióticos em feridas contaminadas
ou infectada não é garantia de sucesso no processo cicatricial,
pois vários fatores determinam o sucesso da terapia antimicrobiana,
como o tempo e mecanismo da lesão, o organismo infectante e a integridade
fisiológica do tecido lesado. Em estudos clínicos e laboratoriais,
a terapia antibiótica é significativamente mais efetiva quando
as concentrações da droga estão presentes no local da
ferida e em concentrações que excedam a concentração
mínima inibitória do organismo.
TERAPIA TÓPICA
Em eqüinos são reconhecidas as dificuldades decorrentes da formação
excessiva de tecido de granulação em feridas cutâneas localizadas
em extremidades. Este aspecto constitui um desafio para o médico veterinário
que elege, para determinados casos, a cicatrização por segunda
intenção como método de tratamento, seja pelas condições
locais e tempo decorrente da lesão ou pela falta de tecido para recobrimento.
O profissional vê-se entre a necessidade de combater uma possível
contaminação e/ou infecção, remover o tecido desvitalizado
e estimular a formação de tecido de granulação
para preenchimento do espaço morto, o que requer a utilização
de anti-sépticos e/ou antibióticos para evitar a proliferação
de germes, assim como de substâncias que estimulem granulação.
De outro lado, deve impedir que o tecido de granulação desenvolva-se
excessivamente e acabe dificultando a epitelização e retração
dos bordos cutâneos da ferida.
Feridas crônicas, com tecido de granulação exuberante que
se projetam acima da margem cutânea, respondem favoravelmente ao tratamento
pela remoção cirúrgica do excesso de tecido, até que
sua superfície fique abaixo das margens teciduais cutâneas. Após
excisão, uma bandagem deve ser aplicada com certa pressão para
controlar a hemorragia.
Outras substâncias têm sido referidas no tratamento de feridas
por segunda intenção com objetivo de auxiliar o processo cicatricial
e modular o crescimento do tecido cicatricial, sem apresentar as desvantagens
dos glicocorticóides. A ketanserina (Vulketan), um antagonista do receptor
S2 de serotonina, têm sido eficientemente utilizada na forma de gel com
resultados bastante promissores tanto em eqüinos como em outras espécies
domésticas (bovinos e cães), assim como na espécie humana.
O uso da ketanserina promove o desenvolvimento mais rápido de tecido
de granulação maturo e o fechamento de feridas quando comparado
ao tratamento convencional. Como veremos melhor abaixo, a ketanserina tem um
efeito paradoxal na cicatrização de feridas, pois estimula a
proliferação e síntese de colágeno do fibroblasto
da derme, e por outro lado inibe a síntese de serotonina e miofibroblastos.
 QUELÓIDE
Trata-se de um distúrbio importante da cicatrização,
e ocorre quando, por algum motivo, o tecido de granulação
não matura o suficiente, e a atividade celular não
sofre interrupção, ou não ocorre de forma
organizada. Assim, forma-se tecido de granulação
em quantidade anormal e desprovido de qualidade também
porque carreia consigo intenso suprimento neovascular, indesejável
no processo cicatricial final. Conforme já referido,
o papel da serotonina é relevante em todo esse processo
por sua ação sobre os fibroblastos e sobre os
miofibroblastos, notadamente esses últimos que apresentam
maior nível de receptores a essa molécula.
PREVENÇÃO DO QUELÓIDE
A formação do quelóide patológico é muito
freqüente na raça negra, entre humanos, sendo que entre os animais,
os eqüinos são bastante sujeitos. Não há maneira
realmente efetiva de contorná-lo que não inclua o uso de moléculas
específicas que neutralizem o excesso de atividade da serotonina S2
e/ou sua ligação aos receptores nos fibroblastos. A utilização
da ketanserina a 0,25%(Vulketan Gel), por ser um antagonista da serotonina
S2 é uma alternativa bastante eficiente nesse aspecto, já que
estimula a formação de um tecido de granulação
são, impedindo o excesso de produção do mesmo nas bordas
da lesão.
Experiência Clínica
com Ketanserina (Vulketan)* |
Feridas |
Tratamento |
Observações |
118 lesões |
2 vezes ao dia |
88% +++
11% ++
1% + |
+++: Satisfatório; ++ Bom; + Pobre
*Autores: Ooms, L.; Stornetta,D.;Heller,F.(1987-1988),
pertencentes às
Escolas de Medicina. Veterinária, da Bélgica, Suíça
e Alemanha.
É importante observar que a utilização
da ketanserina (Vulketan Gel) é proporcionalmente mais
efetiva quanto mais aguda for a lesão, embora seja contra-indicada
no caso de hemorragias, devendo-se inicialmente contorná-las
antes de instituir o tratamento. Também não se
presta à reversão de quelóides já formados,
requerendo para isso que a lesão seja devidamente agudizada
através debridamento. Ademais, a ketanserina é segura,
perfeitamente tolerada, sem incompatibilidade e sem efeitos
adversos locais ou gerais, além de ser a única
molécula cuja ação sobre os componentes
da cicatrização se dá de forma bioquímica,
ou seja, competindo por receptores específicos de mediadores
envolvidos com a produção de colágeno.
Recomenda-se seu uso diário, sem bandagem, por um período que
varia com o tamanho da lesão. O resultado é uma cicatrização
asséptica, matura, ordenada e equilibrada, com conseqüente retorno à atividade
funcional.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
1) LACERDA NETO, J. C. Considerações Sobre a
Cicatrização e o Tratamento de Feridas Cutâneas
em Eqüinos. Comunicação Pessoal, 2003.
2) BORDIN, E.L. Dermatoses Proliferativas em Eqüinos.
Anais do I SIMEQ, Simpósio Merial de Eqüinocultura,
Campinas, 2003.
Henry Berger, médico veterinário.
Merial Saúde Animal Ltda
E-mail: Henry.Berger@Merial.com |