Técnicas & Veterinária
Aspectos incomuns do treinamento de
enduro eqüestre
por Luiz Alberto M. de Carvalho
e Silva
Muito
se escreve acerca do como se treinarem cavalo e cavaleiro
para provas de longa distância. Os artigos, em geral,
versam sobre aspectos técnicos de fisiologia do
esporte, metabolismo e tudo o que envolve o aprimoramento
das capacidades físicas dos animais e dos humanos,
afinal, sem eles não só não se ganham
provas, como simplesmente não se chega ao final.
O
treino, no entanto, não se resume nisso. Ele é,
antes de tudo, o laboratório que definirá a
estratégia de prova e esta transcende o corpo, atingindo
profunda e determinantemente a alma de cavalo e endurista.
Nos
sete anos de competição, montei inúmeros
animais, alguns deles com plena familiaridade e outros
que conheci ao montar para a largada. Se me perguntarem
em qual das situações sinto-me mais à vontade,
minha resposta será um peremptório “não
sei”. Se com um animal com o qual estou familiarizado
tenho uma razoável certeza do que posso contar
e o quão longe posso ir, tenho apreensões
extras relacionadas com seu comportamento, especialmente
no que tange ao primeiro anel. Procuro muitas vezes antever
suas reações e acabo por transmitir as
apreensões para o cavalo visto que, com a sensibilidade
que tem, percebe o nosso desconforto e passa a comportar-se
de forma identicamente irracional.
Já com
um animal estranho, dá-se o oposto. Verificamos-lhes
as primeiras reações, generalizando-as
e comportando-nos como se fossem elas seu padrão.
Aí, simplesmente montamos, sem grandes exigências,
sem grandes pretensões, devido ao fato de o desconhecimento
de seus aspectos físicos não nos permitirem
chegar próximo de seus limites, relaxando-nos
e levando-nos a resultados surpreendentes.
É o treino que nos fará corrigir aspectos do comportamento do cavalo,
bem como do nosso próprio. Dou como exemplo o VR Barão, garanhão
filho de Son Glo, neto de Padron, que tenho montado nas provas de longa, desde
o início do ano passado, quando prematuramente tive que aposentar o VR
Sonfire. É um animal de inteligência superior e personalidade muito
forte. Esperamos todos um comportamento complicado no primeiro anel e montamo-lo
com essa expectativa mas, até hoje, não houve prova em que ele
criasse algum tipo de problema, seja na largada, seja no decorrer do primeiro
anel.
Do segundo em diante, pelo contrário, ele se torna dócil
e alerta, como entendendo para o que veio e o que esperamos que faça.
Ora, resta-nos, portanto, aprender a controlarmo-nos primeiro e a ele
como conseqüência e essa excelência só se consegue
com o treino. Assim, nunca me furto a montá-lo, por mais agitado
que ele esteja na saída, mesmo na estação de monta,
resguardando, nesse caso, estar ele sob os efeitos da testosterona, que
o deixa muito mais arisco que o normal. Montado, porém, torna-se
seguro de si e obediente, acrescentando-se o fato de não se assustar
com coisa alguma e não ser brusco, seja nas provas, seja na antevisão
de perigo.
Hoje,
a não ser que a escala de treino não permita,
procuramos emular o primeiro anel nos primeiros 20km
de treino, tal que não nos comportemos de uma
forma em casa e de outra nas provas. Os animais gostam
de rotinas e quanto menos sairmos dela, melhor será o
resultado.
Ir
para a prova já se constitui numa quebra do cotidiano,
quebra esta que é percebida pelos cavalos na semana
que antecede o evento. A mudança de ritmo dos
exercícios para garantir que estejam descansados
e com reserva de energia, o arrumar dos arreios e demais
apetrechos destinados às competições
e tudo o mais prenuncia-lhes a viagem, deixando-os em
estresse constante, não necessitando aumentar-lhes
a ansiedade pela mudança de comportamento do cavaleiro.
No
meu caso, como não enxergo, este aspecto assume
proporções maiores. Soma-se a tudo o fato
de que eu vou montar em trilhas que não conheço,
criando em mim próprio uma certa expectativa.
No primeiro ano como endurista isso pesava bastante.
Fazia provas curtas de até 35km, que me pareciam
350km. Chegava absolutamente exausto e continuava cansado
por uma semana. Era um cansaço mental causado
pela tensão de cavalgar por locais cuja paisagem
não me dizia nada, ou que minha tensão
não me deixava aproveitar. Eis o porquê de
colocar-me no lugar do animal e tentar sentir o que ele
sente ao ir para uma nova etapa. Se eu, com minha humanidade
e meus 47 anos de idade, ainda sinto ansiedade, como
não se sentirá o Barão, com seus
dez anos de vida e os limites impostos por sua condição?
Muitos
poderão dizer que seus cavalos comportam-se com
extrema calma. Esse louvável comportamento deve-se
a inúmeros fatores, dos quais destaco três:
sua índole, sua doma e, principalmente, a confiança
que sentem em seus tratadores e cavaleiros. Sobre as
costas de Barão, além de meus 82kg, pesa
a responsabilidade de conduzir-se a si próprio.
Embora seja verdade que há sempre um companheiro
comigo, há que se fazer a distinção
sobre a acuidade dos comandos. Em outras palavras, eu
não conduzo o cavalo. Minhas rédeas, embora
com o contato necessário à boa técnica
de equitação, não mostram o caminho
a seguir. Não há, pois, como ele se apoiar
na minha condução e competência.
Some-se a isso que sou eu quem vai na frente, para que
o meu companheiro não tenha que olhar para trás,
a fim de verificar o que está acontecendo comigo.
Há de
ser ele a tomar grande parte das decisões, no
que é ajudado pelas características gregárias
de sua natureza eqüina. Certamente, o esforço
mental exigido de meu cavalo há de ser muito maior
que o da média dos animais de enduro. Seu comportamento é equiparável
ao de um cão guia, o que, como todos sabemos,
requer ensino específico e aprimorado. Também é o
ambiente em que tais noções são
passadas ao cavalo, que leva meses, se não anos,
para dominar suas tarefas.

Eu
costumo dizer que um cavalo com doma para hipismo assemelha-se
a uma bicicleta. Sua educação destina-se à pronta
obediência aos movimentos de rédeas e de
pernas, a fim de seguir uma pista demarcada em um picadeiro.
São animais condicionados a serem conduzidos o
tempo todo e, se deixado à própria sorte,
têm dificuldades para definir a direção
a seguir. Esses cavalos, embora eu também os monte,
dão muito trabalho ao acompanhante, haja vista
que terá que me dizer o tempo todo o que fazer,
enquanto que, num animal treinado para meu uso, o trabalho é infinitamente
mais relaxado e seguro para todos.
Estou
escrevendo este artigo após tê-lo montado
por duas horas em meio a um reflorestamento de eucaliptos,
de cujos galhos ele desviou-se, tal que não rocei
com minha cabeça qualquer um deles, mesmo estando
a galope, quando o Barão tem que calcular minha
altura, embora ela varie de acordo com seus galeios.
Embora
reconheça o esforço extra dos meus animais
em assumir o papel de guias durante as provas, compreendo
perfeitamente que minha postura tirou-me de inúmeras
confusões. Nas trinta e quatro provas oficiais
de que participei, só perdi uma ferradura. Mesmo
nessa ocasião, ocorreu que, por ser de alumínio
e por ser o piso pedregoso, ela se gastou. Isso se deve
a que, por não guiar meu cavalo excessivamente,
não o obrigo a pisar onde ele mesmo não
acha seguro. Assim, deixo-o evitar as poças d’água,
os buracos e saltar todos os obstáculos que ele
julgar necessário.
A
minha ida para o CT Marechal, sem dúvida, causou
mudanças na forma de treinarem-se os cavalos.
A primeira delas foi a escala de trabalho porque vou
montar todos os fins-de-semana, chova ou faça
sol. Portanto, é preciso que haja sempre um cavaleiro
disponível para acompanhar-me. No princípio,
saía sempre com o Vilson Nunes, montando Bodolay,
e meus companheiros de provas. Hoje, porém, variam-se
cavalos e cavaleiros a fim de diminuir a dependência.
Todos passaram a entender os comandos de voz que dou
aos meus cavalos, adotando-os também para os seus,
influência esta bastante benéfica, pois,
mesmo que estejamos impossibilitados de usar os comandos
de rédeas e pernas mais usuais, ainda mantemos
os cavalos sob controle. Além disso, eles também
passaram, embora enxergando, a deixar seus animais mais
livres para decidirem por si mesmos, escolhendo onde
pisar e em que passo vencer esse ou aquele obstáculo.
Resumindo,
o sucesso que alcançamos vem de muito treino em
que o CT Marechal teve tanto empenho quanto eu mesmo,
louvando-se a sempre surpreendente capacidade dos cavalos
em entender o que precisamos e estarem sempre dispostos
a nos agradar.
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