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Técnicas & Veterinária
Úlceras gástricas em eqüinos: saiba mais sobre elas

por Dr. Henry Berger
  

As ulcerações gástricas provavelmente acompanham os eqüinos desde os primórdios de seu aparecimento como espécie, embora só devam ter provocado substanciais efeitos na saúde dos mesmos após sua domesticação. Inúmeros fatores justificam o aparecimento de tais alterações digestivas como parte integrante do processo de domesticação do cavalo.

Os eqüinos são animais que vivem em grupos, em grandes áreas e com alimentação baseada na ingestão de gramíneas ao longo de grande parte do dia, sendo seu sistema digestivo preparado para esta situação fisiológica. Com a domesticação, eles foram separados do convívio em bandos, confinados em pequenos espaços e submetidos a um tipo de alimentação diferente da natural e em refeições pré-estabelecidas.

Se considerarmos que o padrão de secreção ácida no cavalo é contínuo durante as 24 horas do dia, o confinamento em baias aliado à dieta alimentar usual na maior parte dos centros hípicos, faz com que os animais permaneçam boa parte do dia em jejum, permitindo que o ácido gástrico literalmente “corroa” a mucosa do estômago ao invés do alimento a que se destina.

Além do mais, diversas outras circunstâncias promovem a elevação dos níveis de secreção ácida, tornando-se em fatores potencialmente ulcerogênicos. Dentre eles podemos citar o exercício físico, estresse em suas mais diferentes formas, uso abusivo e indiscriminado de antiinflamatórios (principalmente os não esteroidais como fenilbutazona e flunixin meglumine) e outros.
Creio que vale a pena “dissecar” em breves linhas alguns desses fatores:

v transporte e viagens: animais de esporte viajam com muita freqüência para provas e torneios, fazendo com que eles estejam constantemente submetidos a longos períodos de viagens rodoviárias e aéreas, mudanças bruscas de lugares, baias, piquetes e eventualmente tratadores, água disponível nem sempre da melhor qualidade, alterações de horários (lembrem-se que os cavalos são animais essencialmente rotineiros) e finalmente alterações de manejo alimentar;

v exercícios físicos: longos ou extenuantes períodos de exercícios físicos, além do estresse propriamente dito causado pelo mesmo com elevação da secreção gástrica, podem levar à falhas de circulação gástrica levando a microlesões por falta de oxigenação adequada;

v parasitismo gástrico: programas inadequados de vermifugação podem permitir a instalação no estômago de vermes como os famigerados gasterófilos, freqüentemente encontrados durante os exames de gastroscopias (vídeo-endoscopia do estômago);

v estresse fisiológico causados por enfermidades: laminites, pneumonias e outras doenças que causem uma grande penalização de ordem física ao animal por um tempo prolongado aumentam sobremaneira a hipersecreção gástrica, predispondo ainda mais o animal à instalação de úlceras;

v antiinflamatórios: alguns antiinflamatórios como a fenilbutazona e o flunixin meglumine, possuem reconhecida atividade ulcerogênica pelo fato de serem responsáveis pela quebra dos fatores de proteção naturais secretados pela fração glandular da mucosa gástrica; e todos sabemos que os animais de esporte são continuamente sujeitos à aplicações destes fármacos face às constantes lesões e contusões inerentes às suas atividades esportivas;

v pós-operatórios: analogamente, cavalos de esporte estão sujeitos a uma sem-fim sorte de procedimentos cirúrgicos dos mais variados tipos, para correção de anomalias estruturais, reparação de lesões instaladas, cólicas etc. O ambiente cirúrgico, o estresse do impacto anestésico e a convalescência pós-cirúrgica causam significativo impacto no estômago levando à lesões de ordem ulcerativas.

Poderíamos citar um número ainda maior de fatores potencialmente predisponentes à ocorrência de úlceras gástricas em nossos animais. Entretanto, faz-se necessário que todos nós, proprietários, treinadores, veterinários e até mesmo tratadores estejamos atentos ao mundo que cerca nossos animais, de modo que possamos interferir adequadamente quando a “luz vermelha” piscar indicando problemas.

Em nossos exames de gastroscopias realizados em um grande número de animais de diferentes modalidades esportivas, parece ser patente o impacto do exercício sobre a mucosa gástrica, principalmente naqueles animais de manejo alimentar e estabulagem padronizados. De forma ampla, os resultados por nós obtido concernentes à ocorrência de úlceras gástricas em eqüinos são compatíveis aos da literatura internacional; ou seja, cavalos de corrida (PSI e QM) apresentam em média mais de 90% de ocorrência do problema, enquanto cavalos de salto, CCE, QM de trabalho e Enduro apresentam ocorrência em torno de 60 a 70%. Se considerarmos que em torno de 50% dos cavalos portadores de úlceras gástricas são assintomáticos, isto é, não demonstram nenhum tipo de sintoma específico que possa caracterizar o quadro clínico, corre-se o sério risco de subestimação do problema e grande perda de performance atlética sem o devido conhecimento.

Aliás, na maior parte dos casos, a presença de úlceras gástricas em nossos cavalos simplesmente “mascara” o real potencial atlético do animal, uma vez que tal afecção desempenha substancial efeito deletério à atividade habitual do mesmo. Recentemente um tradicional treinador de cavalos de corrida, informando que seu pai e avô também haviam sido famosos treinadores, perguntou-me se os cavalos por ele e seus progenitores treinados eram portadores de úlceras gástricas. Respondi-lhe que sim, assim como tantos quantos outros cavalos de corrida e esporte de há 200 anos ou mais.

Com tal resposta, o treinador argumentou que nunca havia se preocupado com o estômago de seus cavalos, e assim mesmo uma série de verdadeiros craques vêem passando de geração a geração por suas mãos. Diante desta assertiva, disse-lhe que muito provavelmente por ele passou outro grande número de animais potencialmente vencedores que foram literalmente “dispensados” do prado simplesmente por não terem tido a oportunidade de correr sem dor. Este fato ilustra o que ainda hoje ocorre conosco e nossos cavalos, muitos deles potencialmente ganhadores, sem a real oportunidade de se revelarem como tais.

Como nossa paixão é o Enduro eqüestre, recentemente tive acesso a trabalho científico intitulado “Role of Exercise in Squamous Gastric Ulcers in Horses” de A.M. Merritt e colaboradores (Gainesville, Flórida), em que os autores nos fornecem relevantes informações quanto à relação entre a formação de úlceras gástricas e alguns componentes da dieta dos eqüinos. De acordo com Merritt, alguns alimentos podem demonstrar-se potencialmente ulcerogênicos em eqüinos, principalmente em se tratando do envolvimento de Ácidos Graxos Voláteis, muito utilizados na suplementação de animais de esporte como Enduro e CCE. Explora-se a possibilidade dos AGV como fatores etiológicos na formação de úlceras através da fermentação intragástrica de ingredientes alimentares ingeridos ricos em carboidratos solúveis. Os autores citados encontraram uma relação positiva significante entre a presença de lesões gástricas e a concentração de alguns ácidos graxos de cadeia longa no conteúdo gástrico de cavalos arraçoados com tais compostos.

Por outro lado, eles também encontraram alguns resultados interessantes quanto à alfafa; animais alimentados com quantidades razoáveis da mesma apresentaram aumento do pH intragástrico após sua ingestão, provavelmente pelo efeito tamponante dos sais de cálcio e proteína. De acordo com estes estudos, tais animais apresentaram menor incidência de lesões gástricas que animais alimentados com outros compostos volumosos.

Desta forma, vale ressaltar a importância da observação acurada não somente dos fatores que causam estresse em nossos animais, mas também outros fatores-satélite, principalmente alimentação, que podem colaborar em muito para com o problema das úlceras gástricas nos mesmos.

Dr. Henry Berger de Almeida, é médico veterinário, MsC e veterinário internacional FEI de Enduro. Trabalha na Merial Saúde Animal Ltda.



Estômago normal


Úlcera Grau 1


Úlcera Grau 2


Úlcera Grau 3
Tratamento com 14 dias de evolução com Gastrocar

Tratamento com 18 dias de evolução com Gastrocar

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