Técnicas & Veterinárias
Viajar é preciso...
por Jorge Guenka e Antônio Carlos Oliveira Freitas

Treinamento, ração, feno, suplementos, ferrador, ferradura, veterinário, remédios, inscrição da prova, passaporte, selo, e mais uma infinidades de custos que nem consigo me lembrar de todos; ansiedade, arritmia cardíaca, irritação extrema, angústia, choro e expectativa da satisfação extrema de terminar a prova... e tudo isso pode acabar, dentro de um caminhão...

O enduro tem entre suas inúmeras particularidades, a necessidade constante de viajar. Todas as provas são feitas longe de casa. Poucos podem sediar uma prova em casa e mesmo assim vai ser apenas uma das inúmeras de que irá participar ao longo do ano. Não tem jeito, viajar é preciso... Tudo começa na rampa do caminhão ou do trailer, não faz diferença, o meio de transporte é sempre inseguro para o cavalo. Por mais que você tente explicar para ele que não tem nenhum problema, ele sempre vai desconfiar de você, e com razão. Só quem já andou dentro da carroceria fechada de um caminhão vai poder explicar os sentimentos atordoantes que ocorrem a cada curva, a cada parada brusca de um motorista que vai confortavelmente sentado lá na frente.

No início dos anos 80, eu andava louco para aprender a dirigir, e durante uma comitiva (viagem com boiada) tínhamos de buscar oito burros para completar a nossa tropa em uma fazenda perto de onde estávamos reunindo o gado. Como todo mundo estava muito ocupado, de pronto me ofereci para ir com o F-4000 buscar os animais. Naquele dia acho que ninguém lembrou que eu ainda deixava o carro morrer na arrancada, e a única coisa que me disseram foi para não errar na quantidade de animais que eu deveria trazer. Faceiro igual pinto no lixo pulei dentro do caminhão e me atirei estrada afora. Por uma sorte extrema, saí do pátio da fazenda como um profissional, e na outra fazenda encostei no embarcadouro mais facilmente ainda; acho que apenas os burros pressentiram o perigo...Dois deles não queriam entrar de jeito nenhum, e acabaram tendo de ficar.

Na fatídica volta eu consegui derrubar todos dentro da gaiola. Na minha total falta de experiência esqueci de amarrar os animais dentro do caminhão; achei que era igual a carregar porco. Em uma determinada curva, com a velocidade acima do ideal, quase tombei o caminhão, pois não imaginava que os animais iriam pender todos para o mesmo lado e de uma só vez. Quando cheguei de volta, o capataz concluiu que continuaria com a falta de oito animais, pois os meus passageiros não iriam a lugar nenhum... Em um trajeto de pouco mais de dez quilômetros eu consegui deixar dois animais para trás e lesionar - temporariamente, graças a Deus - outros seis. Quase três décadas depois eu andei 3500 quilômetros com cinco cavalos de enduro em cima de um caminhão, cruzei cinco estados, sem uma única curva mal feita, nenhuma freada brusca e nenhum dos cinco cavalos tiveram um único arranhão dentro do caminhão que eu conduzia.

A experiência do motorista é fundamental quando se trata de transportar animais, não importa se do gênero equus ou vacum. No caso específico de cavalos, se a viagem durar mais de três horas, devemos retirá-los de dentro do caminhão, fazer andar e depois trotar cada um dos animais. Muitos animais não urinam dentro dos veículos, o que acaba por causar neles uma profunda irritação, colocando em risco, em alguns casos, a própria segurança do veículo. Outros cavalos só comem fora do veículo, o que representa um problema adicional em viagens longas. Alguns cavalos podem desenvolver até mesmo uma laminite (aguamento) em longas viagens, caso não sejam retirados do veículo constantemente.

É fato que o movimento do veículo não é algo natural para o cavalo, assim sendo, suas atividades naturais como beber, comer, urinar e defecar acabam por ser inibidas dentro do veículo. Geralmente gosto de ficar parado por aproximadamente uma hora, tempo suficiente para os cavalos satisfazerem todas as suas necessidades fisiológicas, inclusive andar, pois no cavalo o intestino e a circulação sangüínea são estimulados pelo movimento de andar ou trotar. Protetores de viagem são fundamentais, e no final fazem a diferença, mas a cada parada devem ser retirados, e recolocados a cada embarque. A desidratação é outro problema desse tipo de viagem, pois é quase inviável o cavalo ter água disponível o tempo todo em que está embarcado.

Cavalos de primeira viagem tendem a não beber água suficiente durante o trajeto e, assim como na prova, uma bisnaga de eletrólito pode decidir entre uma viagem tranqüila ou litros de soro no destino. Na volta, se a viagem for longa, o cuidado deve ser redobrado para dar um pouco mais de conforto ao cavalo, que com certeza vai estar dolorido da prova.

Parando a cada três horas, e sempre respeitando o limite de doze horas de viagem a cada dia, é fato que a viagem não vai render, por isso sempre inicio a viagem com muitos dias de antecedência em relação à data da prova. Se estiver carregando cavalos, não adianta correr, pois uma curva mal feita, um buraco inesperado ou mesmo uma freada repentina do veículo que vai à frente podem ser fatídicos para o passageiro que vai lá atrás, amarrado e nervoso.

Jorge Guenka é carregador de balde da equipe Rancho Tree, dublê de motorista de caminhão e de endurista.
Antônio Carlos Oliveira Freitas é General do Exército, oriundo da arma de Cavalaria, estudioso de atrelagem e endurista.


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